Arquivo para março \31\UTC 2011

Sim! Fetos não tem dentes.

Sim! Fetos não tem dentes. - Xilogravura - 40cm x 28cm - 2006

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Co-autoria e Desenvolvimento

Boa tarde a todos.

Enquanto Immortuos se desenrola aqui no blog, gostaria de agradecer aqueles que me ajudaram revisando as histórias: Priscila Jeremias e Thiago Gonçalves de Lima, que pode ser considerado até mesmo co-autor dessas histórias. Ele teve a paciência de ler tudo que escrevi enquanto ainda estava bem cru. Serviu de cobaia para minhas idéias durante seções de jogos de RPG; é de sua autoria, por exemplo, o personagem Gustavo, o mecânico, que já apareceu no Diário de Sobrevivência e terá outras participações importantes, tanto na história principal quanto nas Pequenas Histórias.

Aproveitando a deixa, falarei brevemente como foi desenvolvido o cenário do Immortuos. Como disse no parágrafo anterior, antes de colocar no papel como romance, optei por testar as idéias desse mundo cheio de mortos vivos em narrativas de jogo de RPG. Narrei algumas várias histórias para alguns outros amigos além do Thiago, tais como Kathleen, Thiago Coelho, Diogo Aiwahara, José Bueno, etc. Com isso acabei desenvolvendo como as coisas eram, são e seriam dentro daquilo que denominamos inicialmente de “Necropolitan”.

Com o cenário desenvolvido, resolvi escrever o romance. Digo aqui que desenvolvi o cenário e não a história, pois muito pouco do que escrevi é de alguma de minhas narrativas. Nessas “mesas de RPG”, queria mais testar a dramaticidade do cenário, como ele poderia ser usado de maneira interessante, como seriam os mortos vivos, quais teorias poderiam haver a respeito de tais criaturas, etc.

Com o tempo, tanto no Diário de Sobrevivência quanto nas Pequenas Histórias, os detalhes do cenário surgirão e espero que sejam no mínimo interessantes.

Atenciosamente.

7º Post

Estamos partindo. Irei postar apenas quando encontrar algum lugar com Internet, ou um aparelho para usar a Internet via satélite, o que aparecer primeiro. Pretendo não escrever em offline também nesse tempo, para não gerar mais atrito com a Lúcia, além de que, provavelmente, não terei onde recarregar a bateria do laptop.

Espero sobreviver para continuar esse arquivo.

6º Post

De manhã, quando o sol já tiver nascido, iremos sair dessa casa e procurar algum outro local. Provavelmente iremos atrás do policial federal dono da blazer cinza que Gustavo dirigiu para fugirmos de sua oficina.

Optamos por essa decisão depois de Gustavo nos contar que…

Certo. Uma coisa de cada vez.

Deixa eu terminar de contar sobre Sofia.

Não vou continuar exatamente do momento em que parei, pois ficaria cumprido demais. Iniciarei esse post algumas horas depois daquele acontecimento.

Era quase de manhã. Dirigimos sem rumo por todas àquelas horas. De início pensei em ir até o apartamento de Júlia, para buscá-la e depois passar na casa da minha mãe e do meu pai; meu irmão caçula mora com eles. Entretanto não foi possível. Tanto eu quanto Gustavo, quanto Carla, gostaríamos de “salvar” nossos familiares. Meus pais moram no Cambuí, quase no centro da cidade, que devia estar lotado de “mortos vivos”. Júlia mora em um apartamento no Centro de Campinas, ou seja, mesma situação que meus pais. Já os familiares de Gustavo e Carla são todos de São Paulo e São Bernardo do Campo, ABC.

Portanto, optamos por nos distanciar de lugares com um grande número de pessoas, mas percebemos que isso também não era tão bom, pois muitas pessoas tiveram a mesma idéia. Resultado: tentando fugir do aglomerado de pessoas, esbarramos em outro aglomerado. Quanto mais gente, maior o cheiro. Quanto maior o cheiro, maior o número de “zumbis” (essa palavra não serve ainda, mas pelo menos eu paro de usar apenas “mortos vivos”).

Percebendo isso, resolvemos ir para o quartel rosa. Nunca soube o nome daquele lugar, mas sempre achei uma grande piada o fato do quartel do exército de Campinas ser rosa. De qualquer maneira, acreditávamos que lá estaríamos seguro; a velha e incomoda esperança. Do lugar onde estávamos até o quartel, precisávamos passar pelo Taquaral.

No caminho, trombamos com mais “mortos vivos”, mas não em número muito grande. O problema, na verdade, foram as pessoas desesperadas que estavam dirigindo seus carros. Quando estávamos na Av. Norte Sul, perto do Balão do Bela Vista, indo para a Av. Orosimbo Maia, para só depois ir em direção ao Castelo, um carro desgovernado atravessou a pista e bateu com grande força na lateral dianteira da blazer blindada. Já dá para imaginar o que aconteceu com o carro e com quem estava dentro do carro. O motorista voou por cima do capô da pickup e teve múltiplas fraturas; tornando-se um “zumbi” pouco tempo depois, não sabia se ele tinha sido mordido anteriormente, sei apenas que era aflitivo ver aquela “pessoa” com fraturas expostas se arrastando como se nada tivesse acontecido. Enquanto o passageiro, ele atingiu a porta do lado do Gustavo e teve sua cabeça esmagada; esse não se tornou um “morto vivo”, o que comprovou, aparentemente, a teoria dos filmes de zumbis, e que viria a ser comprovada ainda mais em outros momentos, além das informações dadas pelos programas de rádio (que funcionaram pelos três primeiros dias daquela “epidemia”).

Infelizmente, pela força da pancada, nem a blindagem foi o suficiente para protegê-la. Não que tenha dado PT na blazer, mas a ferragem do outro carro, destruiu a roda dianteira. Gustavo não estava conseguindo tirar nosso veículo do lugar, por isso resolvemos sair do carro.

Gustavo pegou uma das malas da esposa e a caixa de ferramentas, enquanto eu levaria a outra. Antes de sairmos, com uma certa pressa, revistei o porta-luva para ver se tinha alguma arma, já que o carro era de um policial. Infelizmente não encontrei nada. Gustavo saiu e abriu a porta para a esposa e filha sair. Eu fui para o banco traseiro e chequei o porta-malas novamente em busca de armas de fogo. Lá tinha uma espécie de baú preto com um bilhete escrito: não mexer e um cadeado. Peguei meu martelo e arrebentei o cadeado, esperançoso que haveria armas, mas me decepcionei. Por dentro o baú parecia um cooler espesso e guardava um cadáver esquartejado com um buraco no meio da testa.

“Vamos logo Dr. Sales!”, gritou Gustavo, desesperado, já correndo com sua esposa e sua filha. Sai do carro e percebi que muitos mortos vivos estavam chegando naquele local. Haviam pessoas vivas fugindo sem rumo, porém, nós já havíamos sido vistos.

Corri para alcançar o Gustavo, mas um “zumbi” apareceu na minha frente, impedindo minha passagem. Quando ele correu em minha direção, meu coração pulou pela boca. A adrenalina fez minha atenção aguçar e meu corpo se encher de energia. Mesmo assim, eu ia morrer, com certeza, se não fosse Ricardo, um advogado que praticava tiro como esporte.

Não pense que ele acertou o “morto vivo” direto na cabeça com um único tiro, pois não o fez. Ele estava acostumado a alvos estáticos, me disse depois, e deu pelo menos uns seis tiros até acertar a criatura na cabeça. Mesmo assim sobrevivi, graças a ele.

Quando parei de correr, vi onde estava Gustavo. “Venha comigo”, disse a Ricardo, que me respondeu: “Estou com eles”, e indicou o grupo com a cabeça: lá estavam a “Thor” feminina, Beto (um garoto de quinze anos) e Sônia (de 35 anos, diarista, terminou o colegial se não me engano, algo assim, não que isso seja realmente importante atualmente).

De qualquer forma…

Ricardo me perguntou se tínhamos para onde ir. Respondi que não e ele nos convidou para os seguirmos. Chamei Gustavo, que correu de volta para onde estávamos, porém, infelizmente, surgiram mais criaturas vindo por trás deles.

Gustavo e Carla poderiam ter corrido mais rápido, porém eles tinham que acompanhar Sofia, que tinha apenas dez anos e estava exausta pela adrenalina da noite. Gustavo pediu para Carla correr mais rápido e essa o fez. Ele jogou a mala no chão e bateu com força na cabeça de um morto vivo que se aproximou, usando a caixa de ferramenta de ferro. A cabeça do morto vivo rachou, mas não foi o suficiente para “matá-lo” (não sei que palavra usar).

Desci a rua para ajudá-lo. Mas eles estavam quase cercados. Percebi o desespero tomar conta de Gustavo. Ele pegou a filha para levá-la no colo, no mesmo instante que um dos “mortos vivos” pegou a perna dela. Gustavo, gritando de ódio, puxou-a com toda força, pensando que o “zumbi” largaria, mas esse não o fez, muito pelo contrário, continuou segurando com tanta força que a perna direita de Sofia deslocou. Ela berrou de dor e desmaiou pelo choque. O grito dela parece ter feito Gustavo acordar de um transe e, apavorado, ele soltou a filha e correu em nossa direção com toda sua energia.

Lá atrás, vi com angústia a filha dele começar a ser devorada. Imaginei que os “zumbis” não deixariam nenhum pedaço intacto, mas me enganei. Aquele mesmo “morto vivo” que a disputou com o pai, assim que a agarrou, mordeu o pescoço dela, arrancando quase metade dele. Saía muito sangue e provavelmente ela levou segundos para morrer. Após essa mordida, o “morto vivo” largou o corpo dela no chão e voltou a correr atrás de nós. Os outros “zumbis” que estavam perto a ignoraram por completo.

Tudo isso parece ter demorado uma eternidade quando se lê a descrição do ocorrido, mas não, ao vivo foi bem rápido.

Quando Gustavo estava alcançando o grupo, nós começamos a correr também, acompanhando Lúcia. Ela parecia não se importar com os mortos vivos que apareciam em nosso caminho. Os que se aproximavam dela, ela quebrava-lhes o crânio com uma paulada de bets. Não sei que madeira era aquela, mas era muito resistente.

Bem.  O que importa da história é isso. Daqui por diante resumirei o que aconteceu.

Fomos até a casa de uma amiga da Lúcia, Marcela, que era lá perto. Marcela estava com o namorado, pais, três irmãos. Ficamos alguns dias na casa deles, mas os “mortos vivos” acabaram invadindo o local, primeiro alguns “gatos zumbis” (por mais ridículo que seja) que matamos com uma certa facilidade, depois os “zumbis humanos” (ainda é muito estranho usar essa palavra nesse contexto) conseguiram invadir a residência. Conseguimos fugir para a casa do sr. Fábio, uma quadra dali, mas dois dos irmãos de Marcela e seu namorado “morreram” no caminho; um irmão e o namorado foram pegos pelos “mortos vivos”, o outro irmão tomou um tiro por acidente de Ricardo, os três se levantaram como desmortos; foi ai que a ficha caiu: precisávamos apenas morrer para se tornar um deles.

Foi bom não termos chego ao quartel rosa, pois segundo as últimas notícias que ouvimos no rádio, os militares não ficaram por lá. Eles prepararam uma base para sobreviventes no Laboratório Médico da Universidade de Campinas.

Ok. Por hoje é isso.

O sono chegou. Preciso descansar.

5º Post

Puta que pariu! Às vezes é muito difícil conviver com outros seres humanos, principalmente em momentos de tensão contínua como o que estamos passando.

Acabei de discutir com Lúcia, uma loira esportista, lutadora de boxe ou kickboxing ou boxe chinês ou o qualquer coisa dessas. Ela é uma versão feminina do Thor com um taco de bets que ela pegou do sobrinho no lugar do martelo. É uma mulher macho arrogante com mínima capacidade de controle emocional.

Bem… isso não importa. Esse assunto não tem nada a ver com o blog.

Ou tem?

A relação entre os sobreviventes é algo importante de ser tratado, creio eu. Mas nesse momento, tudo o que eu faria é ficar xingando ela, mas talvez para isso seria melhor o Twitter do que um blog.

O que houve foi que ela se irritou pelo fato de eu ficar “muito tempo no laptop e não ficar mais próximo do grupo”. Tentei explicar minha motivação para isso: que eu estava criando um arquivo de sobrevivência que pudesse ser acessado por mais pessoas no mundo. Porém ela, com sua tendência niilista, disse que era perda de tempo, pois ninguém era “imbecil” o suficiente para ficar usando computador ou Internet com todos esses mortos andando por ai.

Nesse momento me irritei. Em condições normais eu não me irritaria, pois sou bastante tolerante com esse tipo de coisa, acho até positivo quando as pessoas me agridem verbalmente, pois é o momento que consigo entender melhor quais os problemas pelos quais ela está passando. Mas com essas coisas macabras acontecendo, explodi e tentei rebaixá-la com jogos psicológicos, que não funcionaram: é difícil afetar alguém que pensa com os músculos e não com a massa cefálica.

Porém o que mais me irritou, veio nessa hora. “Você não quer encarar a realidade! Não quer perceber a merda que nós estamos vivendo! Fica fugindo para dentro desse seu ‘arquivo de sobrevivência’! Você devia chamá-lo de ‘mamãe eu quero colo!’, pois é isso que você ta procurando!”.

De qualquer modo, não foi a ofensa que me irritou, mas o fato de que talvez ela esteja certa…

4º Post

Hoje talvez não dê para continuar a história, pois na reunião de ontem à noite decidimos nos mudar. Estamos preparando as coisas para sair da casa, pois muitos “mortos vivos” (estou cansado dessa palavra), estão chegando na redondeza. Alguns sabem que estamos aqui. Eles têm um faro impressionante, principalmente pelo fato de que o cheiro de podridão que está no ar parece não atrapalhá-los.

Vou ajudar o pessoal. Se der, posto algo à noite.

3º Post

Estava lendo o que escrevi anteriormente e me pareceram várias informações sem base alguma, simples suposições; o que torna todas as constatações com cara de lorota. Talvez seja melhor contextualizar algumas coisas.

Creio que a primeira coisa que devo contextualizar é de onde estou escrevendo tudo isso.

Faz quatro dias que eu, e o grupo de pessoas com as quais estou, encontramos uma casa razoavelmente segura no bairro Parque Taquaral, onde ainda moram o sr. Fábio e sua filha Cássia. Estamos aqui desde então.

Agora, em relação as observações sobre os “mortos vivos”, não as listarei mais, mas contarei os casos e dentro deles apontarei os fatos observados.

Como o único caso que citei anteriormente foi o horror que ocorreu com a filha de Gustavo e Carla, começarei por ele. Muitas das observações estão contidas nesse relato, pois esse casal a quem eu primeiro me juntei, já que Gustavo é o mecânico para o qual eu levava meu carro para concertar.

Há exatamente uma semana e um dia atrás, eu estava em casa assistindo tv. Havia acabado de voltar da casa da minha namorada, Júlia, e colocado um filme para assistir sozinho, enquanto o sono ainda não vinha. Coloquei algo leve, nada de terror, suspense, ou coisa do gênero, mas uma comedia: O Monstro, de Roberto Benigni. Como eu havia acabado de discutir com a Júlia, nada que não fosse comédia seria bem digerido.

Deitado em meu sofá, esforçando para me concentrar no que estava assistindo enquanto me remoia com a discussão que tive com minha namorada, escutei sirenes de ambulância ao longe – como trabalho na área de saúde a um bom tempo, consigo reconhecer facilmente a diferença entre os sons das sirenes – de início eram duas ou três, mas estava tão atrelado a minha auto-piedade que nem mesmo estranhei aquele fato. O estranhamento veio junto com um arrepio, quando ouvi gritos na minha rua que trouxeram minha atenção ao presente. Foi assim que percebi que os sons de sirene ao longe eram muitos e se misturavam com sirenes policiais. O medo afligiu e tomou meu coração.

Alguma coisa muito grave estava ocorrendo.

Nessa noite estava ameaçando chover, mas nada da água começar a cair do céu. Enquanto o vento era fraco demais para parecer ameaçador. Se tivesse caído uma tempestade, teria sido mais fácil justificar tudo aquilo com desastres causados pela natureza. Mas isso estava longe de ser a realidade.

Não imaginava o que poderia estar causando aquela balbúrdia, mas aqueles gritos estavam me aterrorizando o suficiente para não querer olhar pela janela. Fiquei por alguns minutos tentando contrariar meu instinto natural e quando consegui, entendi porquê eu estava reagindo daquele jeito: ao me aproximar da janela, vi algumas “pessoas histéricas” correndo atrás de outras que fugiam e gritavam em desespero. Uma das pessoas perseguidas caiu em frente ao portão de casa e a cena horrível saltou em meus olhos, sendo impressa a fogo em minha memória. Eram dois homens, aquele que caiu tentava afastar o outro que se esforçava para agarrá-lo. A briga foi ferrenha, mas logo, outras “pessoas” ensandecidas correram para agarrar o homem caído. Em um momento de descuido da vítima, aquele que já estava agarrado com ela, mordeu o seu braço. O grito de dor foi estridente e desesperador.

Eu já tinha ouvido um grito igual, quando trabalhava no NACSM, no episódio que já descrevi aqui no blog: justamente quando Marcos mordeu o enfermeiro. Foi inevitável que as lembranças de Marcos surgissem em minha mente.

Fechei a cortina rapidamente para que aqueles “monstros” com aparência humana não me vissem. Corri para desligar a TV, a fim de que nem o som e nem a luz chamassem a atenção deles. Mas a voz de Marcos ecoava em meus pensamentos, como se ele estivesse ali, presente: “Não há celas que sejam capazes de prender a morte”. Aquilo tudo parecia inútil, mas era o que estava ao meu alcance.

Quando consegui me desvencilhar da macabra imagem que acabara de testemunhar e da sentença de Marcos ressoando em minha cabeça, percebi o quanto aquilo tinha de semelhante com os tais “filmes de zumbis”, e senti um calafrio intenso que havia sentido uma única vez em minha vida. Tentei negar essa possibilidade, mas infelizmente os sons lá fora não permitiram isso.

Não demorou muito para escutar algumas dessas “pessoas” tentarem derrubar meu portão, que é um ponto positivo do Brasil nessa situação, temos muitas grades em nossas casas. Mesmo assim, o portão não era dos mais seguros, e quando juntaram por volta de dez deles, a estrutura não agüentou.

Em desespero, empurrei o meu sofá para a porta, pensando que, mesmo que isso não impedisse a entrada deles, pelo menos iria retardá-los o suficiente para eu pensar em algo a fazer. Já com as janelas eu optei por não me preocupar, pois as grades eram bem chumbadas e precisava de muita força para arrancá-las; apenas torci para que eles não tivessem essa força.

Eles começaram a socar a porta furiosamente. Meu corpo tremia. Eu precisava fazer alguma coisa. Corri para o meu quarto e peguei minha mochila rapidamente, onde estava meu laptop, e depois fui para a sala pegar a chave do carro. Vi que eles já estavam conseguindo derrubar minha porta; eu não tinha muito tempo.

Corri para o quintal e lá peguei um martelo para me “proteger”, ou pelo menos dar uma sensação de segurança naquele caos interno no qual eu me encontrava. Subi no muro com minha mochila nas costas, celular e a chave do carro no bolso. Sentado no muro, me arrastei até chegar perto do telhado. Tinha medo de tentar ficar de pé e me desequilibrar, pois quebrar qualquer parte do meu corpo naquele momento seria o mesmo que morrer.

Quando cheguei perto do telhado do quartinho do fundo, me apoiei e levantei. Com um pouco de esforço, graças ao medo, subi no telhado e foi apenas nesse momento que parei para observar a situação: havia dezenas dessas “pessoas histéricas” tentando entrar em outras casas. Carros desgovernados movimentando-se ao léu. Todos os moradores estavam com medo e claramente não sabiam o que fazer. Escutei os urros estranhos daqueles seres dentro de minha casa, correndo para o quintal. Parecia que eles seguiam a trilha do meu cheiro, pois dava a impressão de estarem farejando com uma respiração forçada e profunda.

Eles chegaram próximo ao telhado dos fundos onde eu estava e pulavam inutilmente tentando me alcançar; impressionante como eles não se cansavam e seus pulos não perdiam o vigor. Sem perder tempo olhando para eles, fui até a outra extremidade de onde eu estava, pois seria mais próximo para eu alcançar o telhado que dava para frente da minha casa. Pulei com sucesso para onde queria e por sorte eles não eram espertos o bastante para entender o que eu estava fazendo.

Vi os “quase dez” se empurrando para tentar alcançar o telhado com seus pulos, mas não esperei para ver se conseguiriam. Corri torcendo para que nenhuma telha quebrasse e eu acabasse me acidentando.

Cheguei à frente da minha casa, na garagem. O portão estava caído. Não me preocupei para ver se tinha alguma dessas “pessoas” lá dentro, apenas observei que lá fora não tinha nenhuma atenta a mim. Desci do telhado para o muro e pulei rapidamente do muro para o chão. Interessante como o mesmo medo que às vezes nos faz ser extremamente cuidadoso é o que às vezes nos faz agir de forma imprudente.

Aproveitei ainda essa adrenalina e corri para o meu carro, abri a porta e dei partida sem pensar duas vezes. Ao escutarem o som do motor, aqueles que estavam no meu quintal apareceram na sala. Eles eram muito rápidos. Coloquei a marcha ré e acelerei. Passei pelo meu portão caído e, infelizmente, um dos meus pneus furou.

Não daria para parar e se preocupar com isso. Aqueles seres já estavam batendo no vidro do meu carro, ensangüentados. Eles tinham feridas profundas, alguns pelos braços, outros pelos rostos. Aquilo me causou repulsa, mas tomei fôlego e tentei abstrair as imagens. Pisei no acelerador, tomei distância, troquei a marcha e parti. Com outros deles correndo atrás do meu carro.

Atropelei uns dois que estavam em minha frente, mas isso não foi o suficiente para pará-los. Olhando pelo retrovisor, vi um deles se levantando rapidamente e voltando a correr, enquanto o outro, com fraturas nas partes baixas, se arrastando, como se aquilo fosse natural.

Com o tempo tomei distância deles. Nas ruas as cenas eram aterrorizantes. Casas foram invadidas pelas criaturas. Algumas pessoas corriam desesperadamente, enquanto outras eram devoradas por aqueles canibais. A maioria das “pessoas histéricas” tinham ferimentos gravíssimos que parecia não afetá-los, o que me causava, além da já citada repulsa, um grande estranhamento. Tudo aquilo era nauseante: pelas imagens, pelos odores, pelos gritos.

Com dificuldade de controlar o meu carro e percebendo que as ruas mais conhecidas me levariam a matadouros a céu aberto, optei por ir para a casa do mecânico que concertava meu carro, pois lá também funcionava a oficina dele. Foi a decisão mais lúcida que tomei. Eu acreditava que ele poderia me ajudar com o problema do pneu; se é que ele ainda estava vivo. Por máximo que estivesse preocupado com minha família e minha namorada, com o carro daquele jeito, não poderia ajudá-los.

Por incrível que pareça, o bairro dele estava mais silencioso, mesmo com os moradores acordados na frente de suas casas tentando entender o que estava acontecendo. Quando cheguei na rua, todos me olhavam com estranheza e nojo, graças a todo sangue que havia nos vidros e na lataria do meu carro.

Desesperado, tentei avisar aquelas pessoas. Eu gritava: “Entrem em suas casas! Voltem para dentro! Aqui fora não é seguro!”, mas tudo que isso causou foi medo e desconfiança em relação a mim. Alguém, não sei quem, até mesmo jogou uma pedra no meu carro, o que me fez rir de tensão e descrença. Então desisti de avisar as pessoas, não ia adiantar nada.

Quando estava chegando na casa do Gustavo escutei gritos. Vi, pelo meu retrovisor, uma matilha de cães furiosos e ensangüentados, um até mesmo com algo semelhante a seu intestino sendo arrastado. Eles atacaram ferozmente as pessoas, que corriam frenéticas para suas residências.

Acelerei um pouco mais meu carro e vi Gustavo e sua esposa na frente da casa, como os outros moradores. Assustados com os cães atacando seus vizinhos, eles iam adentrar a casa, quando buzinei. Ele reconheceu o meu carro. “Por favor, abra o portão para mim”, supliquei para ele.

Gustavo é um homem de bom coração e não pensou duas vezes antes de abrir o grande portão da garagem de sua casa / oficina. Entrei com o carro, enquanto ele e sua esposa rapidamente fecharam o portão maciço.

“O que está acontecendo, Dr. Sales?”, ele me perguntou quase desesperado. Não soube responder, apenas disse que não sabia, mas que algo bom não era, que precisávamos trocar o pneu do meu carro e sair dali.

Carla, sem grandes cerimônias, correu para preparar algumas malas e acordar a filha deles, Sofia. “Não esqueça de pegar mantimentos!”, eu disse a ela, sem nem mesmo me preocupar com etiqueta. Gustavo pareceu não se importar, estava mais preocupado em entender tudo aquilo.

“O que está acontecendo, Dr. Sales?”, repetiu ele com angústia. Não sabia explicar, então fiquei calado, toquei o braço dele e disse: “Veja você mesmo” e o levei para seu escritório, o qual eu já tinha entrado algumas vezes para tratar de negócios, onde tinha uma pequena TV que exibia as imagens da câmera de segurança instalada na frente de sua oficina.

Pela TV, preto e branco, vimos aqueles vizinhos fugindo, agora não só dos cachorros, mas uns dos outros. Nesse momento, eu fiquei pasmo, enquanto Gustavo estava ainda mais confuso. “O que deu nas pessoas?”, perguntou ele, creio que para si mesmo, mas a situação o impedia de guardar para si sua questão. “Não sei”, respondi, pois o que se passava em minha cabeça era estranho demais para eu, um cientista, levar em consideração.

Era inviável para mim, acreditar que todos aqueles filmes de terror a respeito de “mortos vivos” eram, de alguma forma, passíveis de se tornarem reais. Mas as imagens eram, mesmo que em preto e branco, inconfundíveis. Pessoas que vi sendo atacadas pelos cachorros, estavam lá, correndo atrás de seus “iguais”. Essas “pessoas” tinham feridas abertas, o que parecia ser muito doloroso, mas nem mesmo demonstravam percebê-las.

Absortos nas imagens que víamos da calçada e rua logo a frente da casa, só nos recompomos quando percebemos a multidão que se formou na frente do portão, socando-o.

O som era ensurdecedor. Sofia chorava em silêncio, extremamente assustada com o que estava escutando. Carla estava pálida, suando frio e cambaleante. Já Gustavo, pareceu que algo disparou em seu cérebro ao ver sua família daquele jeito. Com bastante pressa ele começou a procurar algo entre um monte de chaves. Tentei interrompê-lo dizendo para ele me ajudar a trocar o pneu do meu carro para sairmos dali. “Esqueça o pneu do seu carro, doutor! Precisamos de algo melhor”, disse ele sem nem mesmo olhar para mim.

Olhei para o portão que estava balançando. Por máximo que ele fosse um portão grande e maciço, não saberia dizer o quanto agüentaria aquelas pancadas. Eram dúzias deles que estavam lá fora. Preocupado com o que iria acontecer, me virei para apressar Gustavo no mesmo momento que ele disse: “ACHEI!”, segurando uma chave como troféu.

Fiquei sem entender de início e perguntei o que ele havia achado. Sua resposta verbal não clareou muita coisa: “Seu carro não agüentaria todos esses bichos”, porém, sua resposta física esclareceu tudo que precisava.

No fundo da oficina havia uma blazer cinza, com um adesivo da polícia federal. Ele foi até ela e chamou sua esposa e sua filha, que foram correndo. Eu também não perdi tempo e corri até a pickup. Ele abriu a porta rapidamente e saiu do carro. Fiquei confuso, mas nada falei apenas quis ver o que ele ia fazer; Gustavo pegou uma caixa de ferramentas e colocou no banco de trás com sua família. Depois se sentou no banco do motorista e ficou olhando para o portão.

A blazer tinha vidro fume, mas como algumas luzes da oficina estavam acesas, dava para enxergar bem o que se passava. Precisávamos disso, pois ficamos sentados nos bancos da blazer por um bom tempo, apenas observando, esperando – algo que parecia uma eternidade – o portão cair. Tudo que escutávamos eram os abafados “tum-tums” das batidas no portão e o choramingo de Sofia. Víamos o portão tremer com violência, acreditávamos que ele não ia durar por muito tempo.

Não sei ao certo quantos minutos se passaram, sei apenas que a nossa apreensão fez com que parecessem horas. Quando menos esperávamos o portão abriu, torto. Um dos lados caiu ao chão, o outro apenas ficou inclinado. Gustavo deu a partida e acelerou, sem se preocupar com aquele portão torto que ainda estava atrapalhando a passagem. Me preocupei e gritei: “Cuidado!”, mas Gustavo apenas respondeu, sem nem mesmo tirar o pé do acelerador, que o carro era blindado. Aquilo me aliviou, mesmo a cena tendo sido nojenta. Gustavo atropelou vários de seus antigos vizinhos. Para cada pancada que seu carro dava, ele fechava rapidamente o olho e virava um pouco o rosto como se tivesse levado um soco.

Bem… estão me chamando. Acho que me empolguei na escrita. Terei que parar por aqui. Amanhã começo dessa mesma parte e falarei o que aconteceu com Sofia.

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