Condenado

A cada grito de socorro que a mulher dava do outro lado de sua porta, fazia com o que o homem barrigudo estremecesse. Ele queria que ela fosse embora, apenas isso.

Contudo, ela insistia. Batia na porta desesperadamente gritando:

– POR FAVOR! EU IMPLORO! ABRE A PORTA!

Mas tudo que o homem fazia era olhar paralisado para a porta de sua casa, tremendo, rezando para que eles não a escutassem.

– PELO AMOR DE DEUS! EU ESTOU COM UMA CRIANÇA! ABRA ESSA PORTA!

Uma gota de suor começou a descer na face do homem. Ele sentia sua camisa encharcar, principalmente embaixo de sua barriga. Ele segurou ainda mais firme o cabo do facão que estava em sua mão. Um facão cego e enferrujado, mas que lhe dava uma grande sensação de segurança naquele momento.

Ele pegou as chaves no armário ao lado, tremendo. Ela tinha parado de gritar, mas ainda era possível ouvir seu choro e da criança. Ele queria ajudá-la, mas tinha medo.

– ABRA ESSA PORTAA! ELES ESTÃO VINDO! ABRA ESSA PORTA! EU SEI QUE TEM ALGUÉM AI! PELO AMOR DE DEUS, ABRA!

O homem deu um passo para trás enquanto escutava a chave cair ao chão. Sua tremedeira beirava o desespero. Era agora ou nunca. Ele se abaixou para pegar a chave e tentou colocar na fechadura.

“Tec tec tec”, a mulher escutou as tentativas vãs do homem.

– Você é um homem bom, eu sei que é! Por favor, me ajude.

O som da chave entrando na fechadura fez com que ele se acalmasse e ela também. Ainda tinha tempo, mesmo eles estando muito próximos. O homem havia fechado a porta com dois giros na chave. Após o primeiro para abrir a porta, ele escutou um som forte no portão e aqueles urros.

Eles tinham chego!

– ELES ESTÃO AQUI! ABRE LOGO ESSA PORTA!

O homem queria. Com toda sinceridade, ele queria ajudar aquela mulher e a criança, mas não conseguia. Ao ouvir aqueles sons inumanos, ele sentiu sua pressão cair, seu corpo gelar e paralisar. Ele não mais conseguiu escutá-la gritando. Parecia que seus ouvidos haviam se desligado. Ele olhava para a porta como se fosse uma imensidão de terra, um outro lugar, mas não conseguia pensar em nada além.

PAM!

Aquele barulho o trouxe de volta. As criaturas estavam batendo em sua porta. Provavelmente haviam sentido seu cheiro, já que ele estava em pleno silêncio. O terror tomou-lhe o corpo e ele sentiu quase todo seu sangue indo para os pés e, sem pensar duas vezes, ele correu.

Correu em desespero para dentro de sua casa, sem saber o que fazer. Fechou todas as portas no caminho e se trancou em seu quarto. Se tudo desse certo eles esqueceriam que ele estava ali e iriam embora.

O homem agachou no canto de seu quarto, agarrando-se em seu facão como se fosse o que ele tinha de mais precioso. E naquele momento era.

PAM!

O barulho estava mais próximo. Eles estavam seguindo seu rastro. Após mais dois sons secos de pancada na porta, ele a escutou ceder. Ainda faltava uma porta até eles chegarem na do seu quarto.

Não havia futuro para ele naquele cômodo. O homem se levantou e abriu a janela, mas sua própria segurança o condenou.

Grades chumbadas.

Agarrando firmemente a elas ele tentou empurrá-las, puxá-las, entortá-las, mas nada disso teve algum efeito.

PAM!

Mais uma porta se quebrava e a passagem daquelas criaturas abria-se. Ele já conseguia escutar seus urros e gemidos.

PAM!

A primeira pancada na porta o fez tremer e seu facão caiu no chão. Ele agachou-se instantaneamente e o empunhou novamente.

PAM!

A lateral da porta começava a ceder. Com muito esforço o homem arrastou-se com dificuldade para baixo da cama, amaldiçoando sua barriga vantajosa, como uma criança com a esperança de que não seria encontrado.

PAM!

A porta cedeu. Dúzias de pés entraram alvoroçados no quarto. Eram muitos e agitados, procurando-o. Ele sentiu um vento em suas costas. Alguns deles haviam retirado o colchão da cama, deixando-a apenas com o estrado. Os urros aumentaram e seu terror também.

O cheiro daqueles mortos ambulantes tomou o quarto. Eles arrancavam o estrado enquanto outros se arrastavam no chão até ele. Aquilo pareceu uma eternidade, para o homem, mas não passou de segundos. Curtos segundos.

O homem fechou os olhos e quis acreditar que eles não o viam. Foram os dentes dilacerando sua carne que fez seus olhos abrirem e seu grito misturar-se aos gemido dos mortos.

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