1º Post

Após muito pensar, decidi começar esse blog, ou arquivo virtual, não com o horror que passamos nessa última semana, mas com uma experiência, tão intensa quanto, que tive há dez anos atrás.

Quando estava cursando minha especialização em psiquiatria, consegui um estágio no Núcleo de Atendimentos à Pessoas em Crise e Surtos Mentais, aqui em Campinas. Em um dado momento um homem, com seus 30 anos, foi enviado para lá após ter tido uma crise na qual ele atacou sua esposa e lhe mordeu.

Não foi qualquer mordida, não. Ele havia simplesmente arrancado um pedaço de carne do antebraço dela com os próprios dentes. Os vizinhos ouviram o grito desesperado que a vítima emitiu antes de perder a consciência, e chamaram a polícia; que por um milagre chegou rapidamente ao local. Quando eles chegaram, a mulher já tinha perdido muito sangue, mas seu marido estava lá, parado, estático, observando com os olhos vidrados, “aparentemente sem respirar”; compilando o que constava no relatório policial.

Pois bem…

Mesmo com a perda de sangue, os médicos ainda tinham esperanças de que a esposa sobreviveria, mas foram surpreendidos, pois uma infecção tomou conta rapidamente da ferida, necrosando o local; interessante aqui observar que o membro mordido não necrosou, apenas o local da ferida e “dois centímetros ao redor” que ficaram “negro e fétido”. Em menos de duas horas, as bactérias já haviam alcançado seu coração e ela faleceu. Estes meros detalhes nos foram negligenciados em um primeiro momento vindo à tona mais tarde.

Na verdade, bem mais tarde. Típico da incompetência de nosso sistema de saúde pública.

O nome do “Cão Raivoso”, – como foi “carinhosamente” apelidado o paciente -, era Marcos de Oliveira Santos, nada mais comum, o que era bem diferente de seu caso.

Assim que ele chegou no NACSM, ele tentou atacar um dos enfermeiros que o recebeu. Mas logo foi imobilizado e recebeu uma dose de 20mg de diazepam. Me lembro como se fosse hoje. Estava olhando para seu rosto nesse momento, não havia dor, nem sonolência, nem nada do gênero. Havia apenas raiva, ódio ou algo mais profundo que nem mesmo eu, na época um estudante psiquiatria, conseguia definir. Seus olhos estavam sem brilho e estáticos, sem a movimentação das pupilas comuns em casos de crises mentais.

Agora, pensando retroativamente, creio que ele permitiu ser imobilizado. Mas isso não importa mais.

Prosseguindo…

Assim que ele foi levado para dentro, fingindo estar dopado, ele passou por exames sem ter nenhuma reação. Seu rosto permanecia frio e com olhar vago. Não dizia uma palavra, nem gemia ou algo do gênero. O resultado do primeiro exame de triagem deixou todos da equipe pasmos, se entreolhando com incredulidade e a cada exame seguinte a tensão e espanto aumentava em todos nós, só não culminando em pânico pela nossa experiência e formação profissional. Não havia pressão arterial, a temperatura era ambiente – 28,7 “dia quente” –, os reflexos eram nulos. Não havia a mínima probabilidade dos exames estarem certos, a menos que ele estivesse, digamos, morto.

Naquele momento começaram as discussões na frente dele – ignorando completamente nossa ética profissional – e pensamos em imobilizá-lo e isolá-lo, e levar seu caso aos nossos supervisores, mas quando eu estava para sair, ele resolveu falar. Disse algo como: “Não se preocupe, não irei morder ninguém”.

Olhamos para ele com receio e incredulidade, era claro em nossos rostos e atitudes que estávamos apavorados, com certeza ele percebeu. Fingindo que estávamos sob controle, iniciamos as perguntas que faziam parte do procedimento normal de triagem. As respostas foram claras e objetivas.

Após todo o procedimento, eu e a equipe, novamente discutimos o que fazer. Ambiciosos, pensamos que um caso como este poderia ser tanto uma ascensão nossa carreira, quanto um precipício. Tudo dependia do que faríamos. Um dos enfermeiros tinha contato com um clínico geral da Universidade de Campinas (UC), um de seus professores da faculdade; bom médico. Optamos por chamá-lo, antes mesmo de levar o caso para nossos supervisores. Os aspectos que constituíam o caso eram estranhos demais para serem verídicos. Ainda procurando uma resposta lógica, que se enquadrasse em parâmetros existentes, apostávamos em algum erro de avaliação; até mesmo os enfermeiros que fizeram os exames estavam incrédulos.

Chamamos então o Dr. Clovis. O mesmo não deu tanto crédito no que falávamos, desqualificando nosso discernimento, e pediu para esperarmos até o dia seguinte, no qual ele iria comparecer ao NACSM. Mesmo assim, hoje eu sei que imprudentemente, optamos por não informar nossos supervisores, porém tínhamos receio de nos considerarem inaptos em nosso serviço ou até mesmo de ganharmos um quarto ao lado de nossos antigos pacientes.

No dia seguinte o desgaste físico e mental era visível em todos. Enquanto aguardávamos Dr. Clovis, mantivemos Marcos em observação. Ele nos tratava de forma extremamente simpática e cordial. Um gentleman. Não demonstrando transtorno aparente. Apenas seu olhar gerava calafrios na equipe. Dizíamos entre nós, que parecia o olhar de um predador: frio e sagaz. Estávamos todos desconfortáveis com sua presença.

Dr. Clovis chegou por volta das 14hs. Não demonstrou tanto interesse em ver nosso paciente. Parecia que ele estava lá apenas por consideração ao seu aluno.

O médico levou seus próprios instrumentos, provavelmente desconfiando das condições de funcionamento dos nossos, sem falar de nossa sanidade. O levamos até Marcos e foi perceptível o calafrio que nosso “bondoso” e “prestativo” clínico geral sentiu ao vê-lo; o paciente, por mais parecido que fosse de uma pessoa viva, apresentava a palidez de um cadáver e seus olhos turvos. Mesmo assim, o velho de guerra, Dr. Clovis se recompôs rapidamente e pediu para que Marcos permitisse que ele o examinasse. Marcos assentiu com a cabeça, tratando o médico com extrema cortesia.

Os aparelhos extremamente eficientes do Dr. Clovis, obtiveram os mesmos resultados que os nossos, o que causou um perceptível espanto ao professor, que, mais pelo incomodo do que pela ética e direitos do paciente, nos chamou para conversar longe da presença lúgubre de Marcos; que por alguma razão sinistra, não demonstrava se importar com o que estava acontecendo.

Após os exames, nos reunimos para decidir o que fazer. Achamos melhor, “para não causar pânico” ou qualquer outra desculpa do gênero para nossa reprovável decisão, mantê-lo no NACSM enquanto o Dr. Clovis iria examiná-lo periodicamente, a cada três dias, para tentar entender o que se passava com aquele homem que tanto nos apavorava. Sim, hoje eu admito que agimos fora do sistema, que criamos uma “confraria” ou qualquer outro nome usado para nosso agrupamento e que isso foi um erro.  Porém, queríamos apenas enviá-lo para um hospital depois de ter alguma idéia do que estava ocorrendo.

Questionamos Dr. Clovis se o NACSM seria o melhor lugar para manter Marcos. Ele argumentou dizendo que levá-lo para qualquer hospital, chamaria muito mais atenção para o caso, e era o que não queríamos. Dissemos que inevitavelmente teríamos que levar o caso de Marcos aos nossos supervisores, e Dr. Clovis disse em resposta: “Trate apenas das questões psiquiátricas. Não mencione os exames médicos. E mantenham o resto dos funcionários longe desse caso”. Assim acatamos as decisões que tiramos nessa reunião.

E como já mencionei, nosso orgulho, ganância, ou seja lá o que for, transvestido de bom senso, começou a dar frutos, podres e disformes.

O mantivemos na sala de contenção por toda sua estadia. No quarto dia, o “Gentleman” havia desaparecido. Marcos não comia e se demonstrava irritadiço. Todos nós ficamos inquietos, atentos a uma possível crise psíquica ou fisiológica. Quando um dos funcionários entrou para limpar a sala de contenção, resguardado por dois grandes enfermeiros, Marcos tentou atacá-lo, mas logo foi imobilizado violentamente.

Não houve demonstração de dor. Ele apenas ria. Foi quando a faxina terminou que os dois brutamontes o largaram. Eu assisti a cena temeroso. Ao fecharem a sala de contenção, escutei a voz de Marcos dizendo: “Você sabia que posso processá-los, não é?”. Tudo que consegui responder foi um mero “sabemos”, e me retirei.

Marcos ficou confinado enquanto os dias passavam. Tivemos nossa reunião com os supervisores no sétimo dia desde que ele chegou ao NACSM, onde levamos o caso dele. Apresentamos apenas as questões psiquiátricas, principalmente sobre sua psicopatia e propensão à antropofagia, mesmo que tenha demonstrado “interesses gastronômicos” em relação a outros seres vivos; apenas vivos.

Eles não demonstraram grandes interesses pelo caso. No ano anterior eles tiveram que lidar com uma paciente esquizofrênica que se auto-devorava. Acharam o caso do Marcos muito “Hannibal Lecter”, portanto deveríamos examiná-lo mais cuidadosamente, para não sermos enganados por um mero “fã em crise”.

Na noite daquele mesmo dia, Dr. Clovis foi nos visitar, um dia antes do combinado da terceira visita. Ele queria repetir os exames, mas não foi possível. Estávamos muito apreensivos com as possíveis reações de Marcos, mesmo que esse mantivesse seu olhar frio e indiferente. Porém, havia outras coisas que nos preocupavam: já havia passado uma semana desde a chegada de Marcos e fazia dias que ele não comia ou bebia algo. Entretanto ele não emagreceu uma grama sequer e nem surgiram sinais de desnutrição ou desidratação; ele parecia não gerar muita saliva nem lacrimosidade, mas isso era tudo. Começamos a ficar preocupados com a repercussão que aquilo poderia trazer.

Uma última vez, no décimo primeiro dia, antes de tomarmos uma decisão que sabíamos que já deveríamos ter tomado desde o começo: levar o caso a público, Dr. Clovis pediu para Marcos permitir que ele o examinasse, o que foi assentido. O pobre Dr. mal conseguiu examinar o pulso do paciente, pois logo foi atacado pelo mesmo. Um dos enfermeiros que resguardavam o Dr. reagiu de imediato, porém acabou sendo alvo da potente mordida de Marcos.

Rapidamente tiramos Marcos de perto do enfermeiro e, com todos fora da sala, fechamos a contenção. Dr. Clovis levou o enfermeiro ferido rapidamente ao hospital. Se soubéssemos… Se não tivessem negligenciado as primeiras informações sobre o que ocorreu com a esposa de Marcos… Se não tivéssemos agido de forma tão amadora, talvez, pelo menos, aquele pobre enfermeiro não tivesse tal destino. Os esforços do Dr. foram inúteis, pois a infecção logo matou o enfermeiro, mesmo ele estando na UTI do hospital.

Eu nem mesmo conseguia me mexer, recostei-me na parede e deslizei até ficar encolhido no chão. Marcos me chamou: “Dr. Sales. Dr. Sales! Sei que você está ai. Posso sentir seu cheiro”, eu não respondi. Senti o medo me paralisando ainda mais, quando ele continuou: “Não há vida em mim, Dr. Sales. Sinto vocês como sentia um pedaço de bife no meu prato”. Ele queria me amedrontar. E de uma coisa eu tenho certeza absoluta: ele sabia que estava conseguindo. Ficamos em silêncio por alguns instantes, quando ele concluiu: “Não há celas que sejam capazes de prender a morte”. Essas palavras ecoam em minha mente até hoje.

Nessa mesma noite, ele fugiu sem deixar rastros. Não sei de seu paradeiro.

Agora… por que eu contei essa história? Bem… Não sei o que Marcos tinha ao certo, apesar de poder formar um milhão de hipóteses. Mas, uma coisa é certa: isso tem alguma relação com todos esses malditos mortos caminhando por ai.

Anúncios
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: