3º Post

Estava lendo o que escrevi anteriormente e me pareceram várias informações sem base alguma, simples suposições; o que torna todas as constatações com cara de lorota. Talvez seja melhor contextualizar algumas coisas.

Creio que a primeira coisa que devo contextualizar é de onde estou escrevendo tudo isso.

Faz quatro dias que eu, e o grupo de pessoas com as quais estou, encontramos uma casa razoavelmente segura no bairro Parque Taquaral, onde ainda moram o sr. Fábio e sua filha Cássia. Estamos aqui desde então.

Agora, em relação as observações sobre os “mortos vivos”, não as listarei mais, mas contarei os casos e dentro deles apontarei os fatos observados.

Como o único caso que citei anteriormente foi o horror que ocorreu com a filha de Gustavo e Carla, começarei por ele. Muitas das observações estão contidas nesse relato, pois esse casal a quem eu primeiro me juntei, já que Gustavo é o mecânico para o qual eu levava meu carro para concertar.

Há exatamente uma semana e um dia atrás, eu estava em casa assistindo tv. Havia acabado de voltar da casa da minha namorada, Júlia, e colocado um filme para assistir sozinho, enquanto o sono ainda não vinha. Coloquei algo leve, nada de terror, suspense, ou coisa do gênero, mas uma comedia: O Monstro, de Roberto Benigni. Como eu havia acabado de discutir com a Júlia, nada que não fosse comédia seria bem digerido.

Deitado em meu sofá, esforçando para me concentrar no que estava assistindo enquanto me remoia com a discussão que tive com minha namorada, escutei sirenes de ambulância ao longe – como trabalho na área de saúde a um bom tempo, consigo reconhecer facilmente a diferença entre os sons das sirenes – de início eram duas ou três, mas estava tão atrelado a minha auto-piedade que nem mesmo estranhei aquele fato. O estranhamento veio junto com um arrepio, quando ouvi gritos na minha rua que trouxeram minha atenção ao presente. Foi assim que percebi que os sons de sirene ao longe eram muitos e se misturavam com sirenes policiais. O medo afligiu e tomou meu coração.

Alguma coisa muito grave estava ocorrendo.

Nessa noite estava ameaçando chover, mas nada da água começar a cair do céu. Enquanto o vento era fraco demais para parecer ameaçador. Se tivesse caído uma tempestade, teria sido mais fácil justificar tudo aquilo com desastres causados pela natureza. Mas isso estava longe de ser a realidade.

Não imaginava o que poderia estar causando aquela balbúrdia, mas aqueles gritos estavam me aterrorizando o suficiente para não querer olhar pela janela. Fiquei por alguns minutos tentando contrariar meu instinto natural e quando consegui, entendi porquê eu estava reagindo daquele jeito: ao me aproximar da janela, vi algumas “pessoas histéricas” correndo atrás de outras que fugiam e gritavam em desespero. Uma das pessoas perseguidas caiu em frente ao portão de casa e a cena horrível saltou em meus olhos, sendo impressa a fogo em minha memória. Eram dois homens, aquele que caiu tentava afastar o outro que se esforçava para agarrá-lo. A briga foi ferrenha, mas logo, outras “pessoas” ensandecidas correram para agarrar o homem caído. Em um momento de descuido da vítima, aquele que já estava agarrado com ela, mordeu o seu braço. O grito de dor foi estridente e desesperador.

Eu já tinha ouvido um grito igual, quando trabalhava no NACSM, no episódio que já descrevi aqui no blog: justamente quando Marcos mordeu o enfermeiro. Foi inevitável que as lembranças de Marcos surgissem em minha mente.

Fechei a cortina rapidamente para que aqueles “monstros” com aparência humana não me vissem. Corri para desligar a TV, a fim de que nem o som e nem a luz chamassem a atenção deles. Mas a voz de Marcos ecoava em meus pensamentos, como se ele estivesse ali, presente: “Não há celas que sejam capazes de prender a morte”. Aquilo tudo parecia inútil, mas era o que estava ao meu alcance.

Quando consegui me desvencilhar da macabra imagem que acabara de testemunhar e da sentença de Marcos ressoando em minha cabeça, percebi o quanto aquilo tinha de semelhante com os tais “filmes de zumbis”, e senti um calafrio intenso que havia sentido uma única vez em minha vida. Tentei negar essa possibilidade, mas infelizmente os sons lá fora não permitiram isso.

Não demorou muito para escutar algumas dessas “pessoas” tentarem derrubar meu portão, que é um ponto positivo do Brasil nessa situação, temos muitas grades em nossas casas. Mesmo assim, o portão não era dos mais seguros, e quando juntaram por volta de dez deles, a estrutura não agüentou.

Em desespero, empurrei o meu sofá para a porta, pensando que, mesmo que isso não impedisse a entrada deles, pelo menos iria retardá-los o suficiente para eu pensar em algo a fazer. Já com as janelas eu optei por não me preocupar, pois as grades eram bem chumbadas e precisava de muita força para arrancá-las; apenas torci para que eles não tivessem essa força.

Eles começaram a socar a porta furiosamente. Meu corpo tremia. Eu precisava fazer alguma coisa. Corri para o meu quarto e peguei minha mochila rapidamente, onde estava meu laptop, e depois fui para a sala pegar a chave do carro. Vi que eles já estavam conseguindo derrubar minha porta; eu não tinha muito tempo.

Corri para o quintal e lá peguei um martelo para me “proteger”, ou pelo menos dar uma sensação de segurança naquele caos interno no qual eu me encontrava. Subi no muro com minha mochila nas costas, celular e a chave do carro no bolso. Sentado no muro, me arrastei até chegar perto do telhado. Tinha medo de tentar ficar de pé e me desequilibrar, pois quebrar qualquer parte do meu corpo naquele momento seria o mesmo que morrer.

Quando cheguei perto do telhado do quartinho do fundo, me apoiei e levantei. Com um pouco de esforço, graças ao medo, subi no telhado e foi apenas nesse momento que parei para observar a situação: havia dezenas dessas “pessoas histéricas” tentando entrar em outras casas. Carros desgovernados movimentando-se ao léu. Todos os moradores estavam com medo e claramente não sabiam o que fazer. Escutei os urros estranhos daqueles seres dentro de minha casa, correndo para o quintal. Parecia que eles seguiam a trilha do meu cheiro, pois dava a impressão de estarem farejando com uma respiração forçada e profunda.

Eles chegaram próximo ao telhado dos fundos onde eu estava e pulavam inutilmente tentando me alcançar; impressionante como eles não se cansavam e seus pulos não perdiam o vigor. Sem perder tempo olhando para eles, fui até a outra extremidade de onde eu estava, pois seria mais próximo para eu alcançar o telhado que dava para frente da minha casa. Pulei com sucesso para onde queria e por sorte eles não eram espertos o bastante para entender o que eu estava fazendo.

Vi os “quase dez” se empurrando para tentar alcançar o telhado com seus pulos, mas não esperei para ver se conseguiriam. Corri torcendo para que nenhuma telha quebrasse e eu acabasse me acidentando.

Cheguei à frente da minha casa, na garagem. O portão estava caído. Não me preocupei para ver se tinha alguma dessas “pessoas” lá dentro, apenas observei que lá fora não tinha nenhuma atenta a mim. Desci do telhado para o muro e pulei rapidamente do muro para o chão. Interessante como o mesmo medo que às vezes nos faz ser extremamente cuidadoso é o que às vezes nos faz agir de forma imprudente.

Aproveitei ainda essa adrenalina e corri para o meu carro, abri a porta e dei partida sem pensar duas vezes. Ao escutarem o som do motor, aqueles que estavam no meu quintal apareceram na sala. Eles eram muito rápidos. Coloquei a marcha ré e acelerei. Passei pelo meu portão caído e, infelizmente, um dos meus pneus furou.

Não daria para parar e se preocupar com isso. Aqueles seres já estavam batendo no vidro do meu carro, ensangüentados. Eles tinham feridas profundas, alguns pelos braços, outros pelos rostos. Aquilo me causou repulsa, mas tomei fôlego e tentei abstrair as imagens. Pisei no acelerador, tomei distância, troquei a marcha e parti. Com outros deles correndo atrás do meu carro.

Atropelei uns dois que estavam em minha frente, mas isso não foi o suficiente para pará-los. Olhando pelo retrovisor, vi um deles se levantando rapidamente e voltando a correr, enquanto o outro, com fraturas nas partes baixas, se arrastando, como se aquilo fosse natural.

Com o tempo tomei distância deles. Nas ruas as cenas eram aterrorizantes. Casas foram invadidas pelas criaturas. Algumas pessoas corriam desesperadamente, enquanto outras eram devoradas por aqueles canibais. A maioria das “pessoas histéricas” tinham ferimentos gravíssimos que parecia não afetá-los, o que me causava, além da já citada repulsa, um grande estranhamento. Tudo aquilo era nauseante: pelas imagens, pelos odores, pelos gritos.

Com dificuldade de controlar o meu carro e percebendo que as ruas mais conhecidas me levariam a matadouros a céu aberto, optei por ir para a casa do mecânico que concertava meu carro, pois lá também funcionava a oficina dele. Foi a decisão mais lúcida que tomei. Eu acreditava que ele poderia me ajudar com o problema do pneu; se é que ele ainda estava vivo. Por máximo que estivesse preocupado com minha família e minha namorada, com o carro daquele jeito, não poderia ajudá-los.

Por incrível que pareça, o bairro dele estava mais silencioso, mesmo com os moradores acordados na frente de suas casas tentando entender o que estava acontecendo. Quando cheguei na rua, todos me olhavam com estranheza e nojo, graças a todo sangue que havia nos vidros e na lataria do meu carro.

Desesperado, tentei avisar aquelas pessoas. Eu gritava: “Entrem em suas casas! Voltem para dentro! Aqui fora não é seguro!”, mas tudo que isso causou foi medo e desconfiança em relação a mim. Alguém, não sei quem, até mesmo jogou uma pedra no meu carro, o que me fez rir de tensão e descrença. Então desisti de avisar as pessoas, não ia adiantar nada.

Quando estava chegando na casa do Gustavo escutei gritos. Vi, pelo meu retrovisor, uma matilha de cães furiosos e ensangüentados, um até mesmo com algo semelhante a seu intestino sendo arrastado. Eles atacaram ferozmente as pessoas, que corriam frenéticas para suas residências.

Acelerei um pouco mais meu carro e vi Gustavo e sua esposa na frente da casa, como os outros moradores. Assustados com os cães atacando seus vizinhos, eles iam adentrar a casa, quando buzinei. Ele reconheceu o meu carro. “Por favor, abra o portão para mim”, supliquei para ele.

Gustavo é um homem de bom coração e não pensou duas vezes antes de abrir o grande portão da garagem de sua casa / oficina. Entrei com o carro, enquanto ele e sua esposa rapidamente fecharam o portão maciço.

“O que está acontecendo, Dr. Sales?”, ele me perguntou quase desesperado. Não soube responder, apenas disse que não sabia, mas que algo bom não era, que precisávamos trocar o pneu do meu carro e sair dali.

Carla, sem grandes cerimônias, correu para preparar algumas malas e acordar a filha deles, Sofia. “Não esqueça de pegar mantimentos!”, eu disse a ela, sem nem mesmo me preocupar com etiqueta. Gustavo pareceu não se importar, estava mais preocupado em entender tudo aquilo.

“O que está acontecendo, Dr. Sales?”, repetiu ele com angústia. Não sabia explicar, então fiquei calado, toquei o braço dele e disse: “Veja você mesmo” e o levei para seu escritório, o qual eu já tinha entrado algumas vezes para tratar de negócios, onde tinha uma pequena TV que exibia as imagens da câmera de segurança instalada na frente de sua oficina.

Pela TV, preto e branco, vimos aqueles vizinhos fugindo, agora não só dos cachorros, mas uns dos outros. Nesse momento, eu fiquei pasmo, enquanto Gustavo estava ainda mais confuso. “O que deu nas pessoas?”, perguntou ele, creio que para si mesmo, mas a situação o impedia de guardar para si sua questão. “Não sei”, respondi, pois o que se passava em minha cabeça era estranho demais para eu, um cientista, levar em consideração.

Era inviável para mim, acreditar que todos aqueles filmes de terror a respeito de “mortos vivos” eram, de alguma forma, passíveis de se tornarem reais. Mas as imagens eram, mesmo que em preto e branco, inconfundíveis. Pessoas que vi sendo atacadas pelos cachorros, estavam lá, correndo atrás de seus “iguais”. Essas “pessoas” tinham feridas abertas, o que parecia ser muito doloroso, mas nem mesmo demonstravam percebê-las.

Absortos nas imagens que víamos da calçada e rua logo a frente da casa, só nos recompomos quando percebemos a multidão que se formou na frente do portão, socando-o.

O som era ensurdecedor. Sofia chorava em silêncio, extremamente assustada com o que estava escutando. Carla estava pálida, suando frio e cambaleante. Já Gustavo, pareceu que algo disparou em seu cérebro ao ver sua família daquele jeito. Com bastante pressa ele começou a procurar algo entre um monte de chaves. Tentei interrompê-lo dizendo para ele me ajudar a trocar o pneu do meu carro para sairmos dali. “Esqueça o pneu do seu carro, doutor! Precisamos de algo melhor”, disse ele sem nem mesmo olhar para mim.

Olhei para o portão que estava balançando. Por máximo que ele fosse um portão grande e maciço, não saberia dizer o quanto agüentaria aquelas pancadas. Eram dúzias deles que estavam lá fora. Preocupado com o que iria acontecer, me virei para apressar Gustavo no mesmo momento que ele disse: “ACHEI!”, segurando uma chave como troféu.

Fiquei sem entender de início e perguntei o que ele havia achado. Sua resposta verbal não clareou muita coisa: “Seu carro não agüentaria todos esses bichos”, porém, sua resposta física esclareceu tudo que precisava.

No fundo da oficina havia uma blazer cinza, com um adesivo da polícia federal. Ele foi até ela e chamou sua esposa e sua filha, que foram correndo. Eu também não perdi tempo e corri até a pickup. Ele abriu a porta rapidamente e saiu do carro. Fiquei confuso, mas nada falei apenas quis ver o que ele ia fazer; Gustavo pegou uma caixa de ferramentas e colocou no banco de trás com sua família. Depois se sentou no banco do motorista e ficou olhando para o portão.

A blazer tinha vidro fume, mas como algumas luzes da oficina estavam acesas, dava para enxergar bem o que se passava. Precisávamos disso, pois ficamos sentados nos bancos da blazer por um bom tempo, apenas observando, esperando – algo que parecia uma eternidade – o portão cair. Tudo que escutávamos eram os abafados “tum-tums” das batidas no portão e o choramingo de Sofia. Víamos o portão tremer com violência, acreditávamos que ele não ia durar por muito tempo.

Não sei ao certo quantos minutos se passaram, sei apenas que a nossa apreensão fez com que parecessem horas. Quando menos esperávamos o portão abriu, torto. Um dos lados caiu ao chão, o outro apenas ficou inclinado. Gustavo deu a partida e acelerou, sem se preocupar com aquele portão torto que ainda estava atrapalhando a passagem. Me preocupei e gritei: “Cuidado!”, mas Gustavo apenas respondeu, sem nem mesmo tirar o pé do acelerador, que o carro era blindado. Aquilo me aliviou, mesmo a cena tendo sido nojenta. Gustavo atropelou vários de seus antigos vizinhos. Para cada pancada que seu carro dava, ele fechava rapidamente o olho e virava um pouco o rosto como se tivesse levado um soco.

Bem… estão me chamando. Acho que me empolguei na escrita. Terei que parar por aqui. Amanhã começo dessa mesma parte e falarei o que aconteceu com Sofia.

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