6º Post

De manhã, quando o sol já tiver nascido, iremos sair dessa casa e procurar algum outro local. Provavelmente iremos atrás do policial federal dono da blazer cinza que Gustavo dirigiu para fugirmos de sua oficina.

Optamos por essa decisão depois de Gustavo nos contar que…

Certo. Uma coisa de cada vez.

Deixa eu terminar de contar sobre Sofia.

Não vou continuar exatamente do momento em que parei, pois ficaria cumprido demais. Iniciarei esse post algumas horas depois daquele acontecimento.

Era quase de manhã. Dirigimos sem rumo por todas àquelas horas. De início pensei em ir até o apartamento de Júlia, para buscá-la e depois passar na casa da minha mãe e do meu pai; meu irmão caçula mora com eles. Entretanto não foi possível. Tanto eu quanto Gustavo, quanto Carla, gostaríamos de “salvar” nossos familiares. Meus pais moram no Cambuí, quase no centro da cidade, que devia estar lotado de “mortos vivos”. Júlia mora em um apartamento no Centro de Campinas, ou seja, mesma situação que meus pais. Já os familiares de Gustavo e Carla são todos de São Paulo e São Bernardo do Campo, ABC.

Portanto, optamos por nos distanciar de lugares com um grande número de pessoas, mas percebemos que isso também não era tão bom, pois muitas pessoas tiveram a mesma idéia. Resultado: tentando fugir do aglomerado de pessoas, esbarramos em outro aglomerado. Quanto mais gente, maior o cheiro. Quanto maior o cheiro, maior o número de “zumbis” (essa palavra não serve ainda, mas pelo menos eu paro de usar apenas “mortos vivos”).

Percebendo isso, resolvemos ir para o quartel rosa. Nunca soube o nome daquele lugar, mas sempre achei uma grande piada o fato do quartel do exército de Campinas ser rosa. De qualquer maneira, acreditávamos que lá estaríamos seguro; a velha e incomoda esperança. Do lugar onde estávamos até o quartel, precisávamos passar pelo Taquaral.

No caminho, trombamos com mais “mortos vivos”, mas não em número muito grande. O problema, na verdade, foram as pessoas desesperadas que estavam dirigindo seus carros. Quando estávamos na Av. Norte Sul, perto do Balão do Bela Vista, indo para a Av. Orosimbo Maia, para só depois ir em direção ao Castelo, um carro desgovernado atravessou a pista e bateu com grande força na lateral dianteira da blazer blindada. Já dá para imaginar o que aconteceu com o carro e com quem estava dentro do carro. O motorista voou por cima do capô da pickup e teve múltiplas fraturas; tornando-se um “zumbi” pouco tempo depois, não sabia se ele tinha sido mordido anteriormente, sei apenas que era aflitivo ver aquela “pessoa” com fraturas expostas se arrastando como se nada tivesse acontecido. Enquanto o passageiro, ele atingiu a porta do lado do Gustavo e teve sua cabeça esmagada; esse não se tornou um “morto vivo”, o que comprovou, aparentemente, a teoria dos filmes de zumbis, e que viria a ser comprovada ainda mais em outros momentos, além das informações dadas pelos programas de rádio (que funcionaram pelos três primeiros dias daquela “epidemia”).

Infelizmente, pela força da pancada, nem a blindagem foi o suficiente para protegê-la. Não que tenha dado PT na blazer, mas a ferragem do outro carro, destruiu a roda dianteira. Gustavo não estava conseguindo tirar nosso veículo do lugar, por isso resolvemos sair do carro.

Gustavo pegou uma das malas da esposa e a caixa de ferramentas, enquanto eu levaria a outra. Antes de sairmos, com uma certa pressa, revistei o porta-luva para ver se tinha alguma arma, já que o carro era de um policial. Infelizmente não encontrei nada. Gustavo saiu e abriu a porta para a esposa e filha sair. Eu fui para o banco traseiro e chequei o porta-malas novamente em busca de armas de fogo. Lá tinha uma espécie de baú preto com um bilhete escrito: não mexer e um cadeado. Peguei meu martelo e arrebentei o cadeado, esperançoso que haveria armas, mas me decepcionei. Por dentro o baú parecia um cooler espesso e guardava um cadáver esquartejado com um buraco no meio da testa.

“Vamos logo Dr. Sales!”, gritou Gustavo, desesperado, já correndo com sua esposa e sua filha. Sai do carro e percebi que muitos mortos vivos estavam chegando naquele local. Haviam pessoas vivas fugindo sem rumo, porém, nós já havíamos sido vistos.

Corri para alcançar o Gustavo, mas um “zumbi” apareceu na minha frente, impedindo minha passagem. Quando ele correu em minha direção, meu coração pulou pela boca. A adrenalina fez minha atenção aguçar e meu corpo se encher de energia. Mesmo assim, eu ia morrer, com certeza, se não fosse Ricardo, um advogado que praticava tiro como esporte.

Não pense que ele acertou o “morto vivo” direto na cabeça com um único tiro, pois não o fez. Ele estava acostumado a alvos estáticos, me disse depois, e deu pelo menos uns seis tiros até acertar a criatura na cabeça. Mesmo assim sobrevivi, graças a ele.

Quando parei de correr, vi onde estava Gustavo. “Venha comigo”, disse a Ricardo, que me respondeu: “Estou com eles”, e indicou o grupo com a cabeça: lá estavam a “Thor” feminina, Beto (um garoto de quinze anos) e Sônia (de 35 anos, diarista, terminou o colegial se não me engano, algo assim, não que isso seja realmente importante atualmente).

De qualquer forma…

Ricardo me perguntou se tínhamos para onde ir. Respondi que não e ele nos convidou para os seguirmos. Chamei Gustavo, que correu de volta para onde estávamos, porém, infelizmente, surgiram mais criaturas vindo por trás deles.

Gustavo e Carla poderiam ter corrido mais rápido, porém eles tinham que acompanhar Sofia, que tinha apenas dez anos e estava exausta pela adrenalina da noite. Gustavo pediu para Carla correr mais rápido e essa o fez. Ele jogou a mala no chão e bateu com força na cabeça de um morto vivo que se aproximou, usando a caixa de ferramenta de ferro. A cabeça do morto vivo rachou, mas não foi o suficiente para “matá-lo” (não sei que palavra usar).

Desci a rua para ajudá-lo. Mas eles estavam quase cercados. Percebi o desespero tomar conta de Gustavo. Ele pegou a filha para levá-la no colo, no mesmo instante que um dos “mortos vivos” pegou a perna dela. Gustavo, gritando de ódio, puxou-a com toda força, pensando que o “zumbi” largaria, mas esse não o fez, muito pelo contrário, continuou segurando com tanta força que a perna direita de Sofia deslocou. Ela berrou de dor e desmaiou pelo choque. O grito dela parece ter feito Gustavo acordar de um transe e, apavorado, ele soltou a filha e correu em nossa direção com toda sua energia.

Lá atrás, vi com angústia a filha dele começar a ser devorada. Imaginei que os “zumbis” não deixariam nenhum pedaço intacto, mas me enganei. Aquele mesmo “morto vivo” que a disputou com o pai, assim que a agarrou, mordeu o pescoço dela, arrancando quase metade dele. Saía muito sangue e provavelmente ela levou segundos para morrer. Após essa mordida, o “morto vivo” largou o corpo dela no chão e voltou a correr atrás de nós. Os outros “zumbis” que estavam perto a ignoraram por completo.

Tudo isso parece ter demorado uma eternidade quando se lê a descrição do ocorrido, mas não, ao vivo foi bem rápido.

Quando Gustavo estava alcançando o grupo, nós começamos a correr também, acompanhando Lúcia. Ela parecia não se importar com os mortos vivos que apareciam em nosso caminho. Os que se aproximavam dela, ela quebrava-lhes o crânio com uma paulada de bets. Não sei que madeira era aquela, mas era muito resistente.

Bem.  O que importa da história é isso. Daqui por diante resumirei o que aconteceu.

Fomos até a casa de uma amiga da Lúcia, Marcela, que era lá perto. Marcela estava com o namorado, pais, três irmãos. Ficamos alguns dias na casa deles, mas os “mortos vivos” acabaram invadindo o local, primeiro alguns “gatos zumbis” (por mais ridículo que seja) que matamos com uma certa facilidade, depois os “zumbis humanos” (ainda é muito estranho usar essa palavra nesse contexto) conseguiram invadir a residência. Conseguimos fugir para a casa do sr. Fábio, uma quadra dali, mas dois dos irmãos de Marcela e seu namorado “morreram” no caminho; um irmão e o namorado foram pegos pelos “mortos vivos”, o outro irmão tomou um tiro por acidente de Ricardo, os três se levantaram como desmortos; foi ai que a ficha caiu: precisávamos apenas morrer para se tornar um deles.

Foi bom não termos chego ao quartel rosa, pois segundo as últimas notícias que ouvimos no rádio, os militares não ficaram por lá. Eles prepararam uma base para sobreviventes no Laboratório Médico da Universidade de Campinas.

Ok. Por hoje é isso.

O sono chegou. Preciso descansar.

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    • Loyane
    • 8 de abril de 2011

    “desmortos” é a melhor palavra!!!

  1. Gosto dessa palavra tmbm. Pessoalmente, gosto de mortos vivos… já zumbi me confunde um pouco hahahahah Me lembra Zumbi de Palmares (“Professora, as pessoas no Quilombo de Palmares eram liderados por um morto vivo?”, qual moleke não pensou isso algum dia? hahahahah

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