Passos no Quarto

14 de Março de 2011, um dia antes de seu aniversário, Michele continua escutando os passos de sua mãe. Justamente nesse dia, a pequena menina carioca de nove anos sofreu dois grandes traumas.

O primeiro foi quando sua mãe, enquanto comia junto a ela e fingia que ainda não tinha comprado seu presente – e nem mesmo iria comprar, pois a “grana estava curta” –, arregalou os olhos, apertando o cabo do garfo com uma mão e a toalha da mesa com a outra, começou a ficar vermelha e a pender para o lado contrário da parede. Michele imediatamente sabia que aquilo não era brincadeira – sua mãe não era de brincar com a saúde – e correu para chamar ajuda, ao mesmo tempo em que escutava o som abafado de sua mãe estatelando no chão.

Ela saiu de seu apartamento e correu para a vizinha da frente. Bateu em sua porta desesperadamente até ser atendida. Dona Sílvia, uma senhora de setenta e cinco anos, que ajudou a criar Michele, abriu velozmente a porta, preocupada, e atendeu a pequena menina a qual considerava uma neta.

– Dona Sílvia, me ajuda! Minha mãe… – Michele não conseguiu terminar de falar por causa da angústia que sentia e puxou a senhora até seu apartamento.

Quando elas entraram, Michele soltou a mão de sua vizinha e correu para a cozinha. Dona Sílvia, após fechar rapidamente a porta foi encontrá-la. Quando viu a mãe de Michele mole e imóvel no chão, com os olhos virados e boca aberta, chocou-se e correu para tocá-la, querendo que seu tato negasse aquilo que sua visão estava lhe dizendo.

Ao tocar no corpo gélido de Fátima, ela olhou desolada para sua querida Michele. Por alguns instantes ela não sabia o que fazer, mas logo se lembrou de chamar a emergência, afinal, ela não era médica e poderia estar apenas impressionada com tudo aquilo.

– Michele, pegue o telefone para mim. – ela pediu, querendo que Michele se afastasse de lá, abraçando o corpo desfalecido da amiga.

Assim que Michele lhe entregou o telefone sem fio, deu um salto para trás ao escutar o berro de dor que Dona Sílvia soltou. Sua mãe acabava de voltar a se mexer, mordendo o seio de sua amiga com tanta força, que o sangue espirrou no rosto de Michele.

Esse foi o segundo trauma. Michele, aterrorizada, correu para dentro do armário do quarto de sua mãe sem olhar para trás. Ela mal viu sua mãe dilacerar outras partes do corpo de dona Sílvia até essa cair morta, mas escutava nitidamente os berros de sua vizinha.

Com a porta do armário fechada, a jovem garota tremia e se encolhia esperando que aquilo acabasse logo, que ela acordasse, pois aquele tipo de coisa só acontecia em pesadelos ou em filmes de terror. Seus olhos encheram-se de lágrimas e sua respiração não queria se manter silenciosa.

Ela ainda tenta controlar ao máximo sua respiração, mesmo que sua vontade seja de berrar e chorar. Ela continua escutando os passos no quarto e tenciona ainda mais seu corpo em posição fetal, desejando profundamente que aquilo não a encontre.

Seja lá o que for aquilo, não é a sua mãe.

Seja lá o que aquilo quer, não é te dar conforto e proteção.

A angústia sobe como um caroço para sua garganta. Em pensamento Michele sabe que suas lágrimas devem esperar, porém, seu corpo não.

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    • Luiz Paulo
    • 6 de abril de 2011

    Melhor trecho até agora na minha opinião.

  1. Legal. Ainda terão mais histórias curtas. Escrevi 20 para serem publicadas até dezembro, que quando termina a história principal.

    • Loyane
    • 8 de abril de 2011

    muito bom!!

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