Solidão

Júlia escutava os sons na rua com seu coração martelando em sua garganta. Ela olhou novamente pela janela de seu quarto, sem acender a luz. Chovia lá fora e de seu apartamento ela via pessoas correndo atrás de outras pessoas, não conseguia ver detalhes, mas sabia que algo muito estranho estava acontecendo, pois todas elas gritavam muito.

Não eram gritos de comemoração ou de alguma brincadeira: eram gritos de pavor, desespero. Sem entender nada ela viu alguém ser violentamente agarrada por outro e arremessado ao chão. O agressor agarrou-o firmemente e começou a: “Comê-lo?”, concluiu Júlia incrédula.

Tudo aquilo lhe transtornava como nunca antes. Todo o medo que sentia anulou como analgésico o mal estar que estava sentindo por ter brigado com seu namorado. Júlia queria que ele estivesse lá, protegendo-a, dando segurança a ela.

“Burra!”, se xingou em pensamentos. A culpa voltou em dobro. “Por que fui brigar com ele? Idiota!”, se criticava enquanto o medo ampliava seu apego, seu “amor”. Ela lembrou dos momentos bons, mas logo um grito, um tiro, uma sirene, cortava seus devaneios trazendo-a para a realidade.

– Preciso ligar pra ele. – pensou em voz alta pegando rapidamente o celular e discando o número.

Nada. As redes estavam congestionadas. Muitas pessoas deviam estar tentando se comunicar naquela noite. Júlia tentou telefonar para o fixo dele, mas ninguém atendia.

Histórias e mais histórias começaram a surgir em sua mente. De inicio, achou que ele havia saído para se vingar, por terem brigado, mas essa idéia foi rapidamente deixada de lado, por causa de um grito de socorro que ela escutou lá de baixo, trazendo-a novamente para a realidade.

Entretanto, isso não fez com que sua mente parasse de contar histórias. “O que pode ter acontecido com ele? Será que está bem?”, a culpa lhe apertava mais ainda seu coração. E se ele morresse sem saber o quanto ela o amava? O quanto ela precisava dele?

Uma balburdia vindo do pátio de seu prédio chamou-lhe a atenção. Júlia olhou pela janela novamente e viu aquelas pessoas histéricas adentrando seu prédio. Aquela visão aumentou ainda mais seu medo.

“Desgraçado!”, praguejou mentalmente, “Por que ainda não me ligou? Se ele realmente me amasse já teria me ligado para saber como eu estou”. O medo que sentia por aquelas pessoas e a raiva que sentia pelo seu namorado tornou-se um amalgama conflituoso no coração de Júlia.

“Foda-se ele!”, concluiu e resolveu pensar no que fazer para sair dali. Ela já estava escutando gritos nos andares de baixo. Não sabia o que eram aquelas pessoas e onde exatamente estavam em seu prédio, mas por alguma razão misteriosa, ela sentiu que era melhor ela pegar o elevador do que as escadas. E assim o fez.

Júlia pegou a chave de seu carro e desceu até a garagem pelo elevador. Não havia ninguém lá, mas a cada andar que ela passava, ouvia gritos e gemidos que lhe angustiavam. Seu estomago começou a se revirar. Ela sentia seus intestinos contraindo-se até doer. O medo fazia seu corpo reagir da pior maneira possível, e aquele elevador começou parecer pequeno demais para ela. Por um breve instante, pensou que fosse desmaiar, mas respirou fundo e socou a parede para se sentir consciente novamente.

A porta começou a abrir, ela estava no estacionamento no subsolo. A luz estava acesa e ela via pessoas gritando e correndo. Desesperadamente ela correu até seu carro, sem dar atenção a nada ao seu redor.

Para seu espanto, sua mão não tremia e ela conseguiu abrir a porta do veículo rapidamente. Ao fechá-la, ignorou os gritos e ligou o carro, precisava sair de lá. Precisava sobreviver, precisava mostrar para aquele filho da puta que não precisava dele.

Ela acelerou, abriu o portão eletrônico e subiu a rampa. Teve que atropelar quatro pessoas no processo, mas deu certo. “Antes eles do que eu”, pensou ela. Não sabia exatamente que pessoas eram aquelas, mas, lá embaixo, já conseguia ver diferenças entre as pessoas que fugiam e as que perseguiam.

As ruas estavam com sangue e pedaços de coisas que ela não conseguia identificar. Os perseguidores, normalmente, tinham pedaços faltando. Era tudo muito nojento e foi impossível segurar o vomito. Ela virou-se para o banco do passageiro e deixou sair. Por um instante ficou com raiva de si mesmo, mas logo imaginou seu namorado lá, sendo encharcado de vomito, aliviou um pouco a tensão e ela riu.

Porém, o efeito contrário logo apareceu. Ela continuou dirigindo pensando como seria bom se ele tivesse lá. “Eu vou buscá-lo!”, pensou Júlia pegando a rota mais curta para a casa dele, mal sabia ela das condições da cidade. Não havia visto jornal, não havia escutado o rádio. Logo ela se deparou com um imenso congestionamento, com pessoas correndo, urrando e berrando, tentando abrir os carros, ou fugindo daquelas pessoas loucas e mutiladas.

Vendo o que tinha em sua frente, tentou dar ré, mas bateu em um carro que estava atrás. Já tinham três carros atrapalhando sua passagem.

– Porra! – praguejou ela enquanto abria sua porta, mas assim que o fez, viu alguma daquelas pessoas histéricas correr em sua direção.

Fechou a porta rapidamente e abaixou o pino. O desespero retornou e lágrimas começaram a escorrer de seus olhos. “Bosta! Bosta! Bosta!”, ela chorava vendo aquela pessoa esmurrar o vidro do seu carro, começando a trincá-lo. Ela olhou para o banco de trás, viu um guarda-chuva e o pegou. Passou para o banco vomitado enquanto via a criatura estilhaçar a janela com o braço rasgando no vidro. Júlia aproveitou e empurrou o braço da criatura para baixo, fazendo-o cravar.

Ainda desesperada, ela abriu a porta do passageiro e saiu. Com o braço preso a criatura atrasou alguns instantes antes de começar a persegui-la. Outras criaturas a viram e começaram a correr atrás dela.

A chuva deixava sua roupa mais pesada, além de deixar a rua extremamente escorregadia, o que era uma grande desvantagem e vantagem, pois da mesma forma que ela estava com dificuldade para correr, sabia que eles também estavam.

Ela correu como nunca. Sentiu o impacto da sua corrida nos joelhos, e seus músculos chiarem de tanto esforço. Quando sentiu seu pulmão doer, pela respiração errada, ela olhou para trás: aquelas coisas pareciam não cansar. O desespero tomou seu corpo. Ela disparou loucamente em uma descida, mas não conseguiu se equilibrar. Desceu rolando a rua, escutando os passos daqueles seres se aproximando.

Assim que parou, tentou se levantar, mas logo percebeu que não conseguia esticar uma das pernas. Tinha certeza que a havia quebrado. As criaturas se aproximaram, e a agarraram. Ela sabia o que elas fariam e gritou, se debateu freneticamente. Seus pensamentos fluindo em turbilhão: queria seus pais, queria seus irmãos, queria qualquer um que pudesse salvá-la. Sentiu uma dor horrível quando uma das criaturas a mordeu. Depois outra.

Os choques das dores anestesiaram seu corpo, ela não sentia nada, mas ainda estava consciente. Júlia manteve os olhos fechados, com uma última dúvida: será que seu namorado e seus familiares sentiriam sua falta?

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    • Loyane
    • 11 de abril de 2011

    nossa
    que soco no estômago

    • Luiz Paulo
    • 11 de abril de 2011

    Adoro quando o protagonista morre. Me lembra Aeon Flux.
    Será que o namorado dela morreu?

    Fiquei curioso.

  1. Cara, infelizmente ainda não assisti o filme da Aeon Flux.

    Enquanto ao namorado de Júlia… não sei se matará sua curiosidade ou te decepcionará hahahah mas leia esse post: https://maxsawaya.wordpress.com/2011/03/26/3%C2%BA-post/

    Abraço

    • Luiz Paulo
    • 11 de abril de 2011

    ÓÓÓÓÓÓÓIA!

    Agora sim, genial. hahahhaha.

    Ah, e eu tava falando da série da Aeon Flux, os curtas que passavam na Liquid Television da MTV… Só tinha desenho de qualidade… Eram episódios de 3 minutos da Aeon e em todos ela morria, hahaha.

    Bom, agora deu pra ter uma idéia legal da história.
    Achei o Dr. Sales meio covarde, mas acho que todos seriam um pouco assim nessa situação.

    PS: Te falei que to escrevendo um roteiro de zumbi de um longa que vou rodar pela Cappuccino produções? Acho que você conhece o Igor Capelatto, né?

    Abraço!

  2. hahahahahhah

    Cara, nem lembrava que ela morria em todos os epsódios hahahahahah O desenho era muito bom mesmo.

    O dr. Sales é covarde mesmo rs Terá um conto futuro que mostra um pouco isso rs

    Não falou não! Cara, massa isso! Conheço o Igor sim! Fico feliz. Vou querer ver seu trampo, blz? Se precisar de coadjuvante, avise rs

    Abraço

      • Luiz Paulo Mariano Pereira
      • 12 de abril de 2011

      Massa cara! Precisarei sim!

      http://barracudafilme.wordpress.com/

      Dá uma olhada, to mantendo um blog sobre o filme, vo postando coisa lá conforme o projeto vai avançando.

      Abraço!

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