8º Post

Muitas coisas aconteceram nessas três semanas que se passaram desde que saímos da casa do sr. Fábio. Estou realmente ansioso, incomodado, temeroso, com o que presenciei. Mesmo assim estou me esforçando para não ter uma crise de stress e para não trocar os pés pelas mãos aqui no meu arquivo.

As coisas estão piores, mesmo que aparentemente estejamos mais seguros. Não se vê quase mais nenhuma alma viva caminhando pela cidade. O vento trás apenas os gemido dos mortos.

Há muita coisa que preciso relatar, mas vou por partes; como faria o Jack Stripador. Hunf, piada infame para o momento.

Poderia ter escrito algo ontem, para acelerar um pouco, mas preferi ler o que já tinha feito. Seria interessante então começar dizendo que: encontramos o policial federal dono da blazer cinza. E seria ainda mais interessante, dizer o porquê resolvemos ir atrás dele; pois ficou faltando isso.

Quando percebemos que nossa situação na casa do sr. Fábio e Cássia, era “esperar pela morte”, pensamos onde poderíamos ir. O primeiro lugar que nos veio à mente foi o laboratório médico no qual os militares de Campinas haviam feito uma base para sobreviventes. Desistimos dessa idéia, pois estávamos sem veículos. Precisávamos conseguir carros e mantimentos.

Quando decidimos começar por ai, Gustavo nos contou algo inquietante sobre o dono da blazer que pegamos emprestada, o policial federal. O nome dele, segundo o que Gustavo sabia, era Evandro Alberto de Oliveira, achei o nome “comum” demais, e pela profissão dele desconfiei que fosse falso.

Evandro ia até a oficina de Gustavo mensalmente, para que o mecânico desse um check-up geral no seu carro e o limpasse, sem perguntas. Atitude de mafioso, algo a desconfiar.

Gustavo disse que achava estranho, mas por Evandro ser policial não questionava, pois tinha medo de represália. O que lhe inquietou de vez foi quando, pela primeira vez, Gustavo encontrou manchas de sangue no porta-mala de seu carro, na época uma manga-larga; ele pensou de imediato que o policial fazia parte de algum grupo de extermínio. Aquilo realmente incomodou o bom mecânico, mas esse preferiu guardar o segredo com ele.

Sua temeridade em relação a Evandro aumentou e suas noites de sono pioraram, com receio que algo acontecesse com ele e com sua família. Desse dia em diante, ele não deixou mais nenhum de seus funcionários tocarem no carro do policial. Ele passou a cuidar pessoalmente das coisas desse cliente, para que ninguém mais se envolvesse com isso.

Foi melhor assim. Em três anos de clientela, Evandro apareceu mais duas vezes com provas de crime. Em uma delas, havia um cadáver em uma caixa, como o que eu vi quando procurei por armas no porta-mala da blazer. Nesse dia, quando Gustavo foi devolver o carro para seu dono, Evandro percebeu que ele estava muito abatido e desconfiou do porquê.

“Esquece o que você viu”, disse ele em tom de ameaça e Gustavo apenas concordou com a cabeça. Depois ele deu um sorriso amarelo e encerrou com uma frase misteriosa, mas que parecia ter sido dita para que Gustavo se acalmasse, era algo como, “Eu não mato ninguém que já não esteja morto”.

Gustavo disse que interpretou a frase como se fosse o “destino” da pessoa morrer e ele se achava uma espécie de “ferramenta de Deus”, porém, na atual situação, ele disse que talvez esse policial saberia de algo.

Perguntamos aonde ele mora e Gustavo disse que o endereço que ele passou era no Jd. das Paineiras, perto do shopping. Como não era tão longe, decidimos que iríamos naquela direção, conseguiríamos veículos e tentaríamos chegar no endereço que Gustavo tinha do policial.

Bem, foi por isso que chegamos aqui, ou melhor, que encontramos Evandro. Chegar onde estamos, foi por outro motivo, mas ficará para o próximo post.

Preciso ir. Evandro está me chamando.

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