Arquivo para 19 de abril de 2011

11º Post

Como disse anteriormente, dividirei minhas anotações em duas partes (dois períodos): manhã (retrospectiva) e noite (o que anda acontecendo). Portanto agora tratarei dos últimos acontecimentos aqui no laboratório.

Hoje tive uma boa conversa com Ricardo e Lúcia a respeito do que poderia vir de tudo isso em relação a nossa existência como seres humanos em um planeta drasticamente modificado. Lúcia, que pareceu estar menos niilista em suas observações, apesar de que analisando as atitudes de Lúcia em retrocesso, não posso deixar de parabenizá-la pela preocupação com o grupo. Mesmo com suas idéias de que “tudo foi pra merda”, ela ainda tem uma visão bastante comunitária de sobrevivência.

Por isso, um assunto que cheguei a citar anteriormente, tornou-se necessário retornar a pauta aqui no arquivo de sobrevivência: a relação em grupo.

Como eu já disse bem no começo do blog, a convivência entre pessoas que estão passando por contínuo stress é complicadíssima. Estamos sempre a ponto de bala, além disso o egoísmo se torna cada vez mais aflorado. São poucos aqueles que conseguem perceber que uma das melhores formas de ser egoísta, ou seja, de beneficiar a si próprio, é beneficiar os outros. Parece piegas isso, mas creio que esse é o ponto forte de Lúcia. Ela quer simplesmente sobreviver, mas para isso, ela sabe que precisa de um grupo. De pessoas para cuidarem de sua retaguarda.

Não seria essa a busca por segurança que levou nossos ancestrais a viverem em grupo? Não é isso que guia nossa necessidade de ser aceitos em um grupo? Não é isso que nos faz buscar constituir família, fundar instituições religiosas, partidos políticos, instituições de ensino, etc?

A situação atual é deprimente. Cada vez mais os seres vivos estão escassos. Vê-se mortos andando por todos os lados: humanos, cães, gatos e capivaras (há sim outros animais que tornaram-se immortuos, porém, como estamos em uma cidade grande, eles não são tão vistos). Além disso, estamos passando por uma certa escassez de comida e bebida.

A água tem que ser fervida antes de bebida; e isso não é uma mera regra para evitar alguma desinteria, mas para evitar doenças realmente graves causadas por possíveis cadáveres apodrecendo nos reservatórios de água. Enquanto a comida: se for carne, de qualquer tipo, tem que assá-la, ou fritá-la, muito bem, quase a torrando, não pode ficar nada do sangue líquido; não sabemos exatamente o que pode acontecer se comermos a carne sem essa precaução, mas a lógica que nos faz acreditar que isso é o melhor procedimento é simplesmente que: qualquer ser que morra, não importa a forma, volta como immortuos, logo, provavelmente, assim que se mata um animal para alimentar-se dele, a carne já está de certa forma contaminada.

Já verduras, legumes, etc, isso é possível cultivar. Quem sabe futuramente nossas sociedades se tornem obrigatoriamente vegetarianas. Isso é, se houver alguma sociedade que surja a partir dessa situação na qual nos encontramos.

Ricardo acredita que será assim: que esses mortos irão apodrecer em seus devidos tempos e que os sobreviventes, aprendendo com tudo o que estão passando atualmente, irão reformular a convivência em grupo. Os costumes mortuários passarão por reformulações, cremações serão mais comuns. Fora isso, o ser humano aprenderá a ser menos egoísta e trabalhará mais em grupo, já que qualquer descuido poderá por fogo novamente na situação.

Eu já acho essa visão um tanto romântica. O nosso grupo é um bom exemplo de que o ser humano é interesseiro não importando a situação. Mesmo sendo um grupo pequeno, um tem atrito com o outro e estamos juntos apenas por necessidade. Se a sobrevivência de um de nós, depender da morte do outro, ninguém no grupo, nem mesmo aquele que eu acho que tem o coração mais bondoso de nós, Gustavo, hesitará em sacrificar o companheiro. Nem Ricardo e nem Lúcia descordaram quando eu disse isso.

Nós presenciamos uma dessas situações limites, quando Gustavo disputou sua filha com um morto vivo. Quando ele percebeu que a coisa estava ficando preta, não hesitou em deixar a filha para trás. Lúcia contra argumentou, mesmo concordando de modo geral com o que eu disse, que essa situação de Gustavo foi diferencial, pois ele iria morrer junto com a filha, o que não seria benéfico para ninguém.

Perguntei a Lúcia o que ela pensava a respeito. Ela disse que o ser humano irá sim se reestruturar, era só uma questão de tempo para se adaptar ao novo contexto, porém, não sabia se valeria a pena viver na “nova sociedade de merda” que irá surgir. A disputa de poderes, segundo ela, será muito mais explícita. As pessoas vão estar querendo sobreviver em um mundo desolado, e será muito mais seguro para aquelas pessoas que conseguirem estar no poder, com outras pessoas se sacrificando para defendê-las. “Nós vimos isso naquele condomínio”, comentou ela.

Falarei sobre esse condomínio amanhã de manhã.

Ela finalizou dizendo que: nossas sociedades surgiram a partir de interesses pessoais dos espertinhos, daqueles que souberam como manipular uma maioria e não será diferente, o desespero das pessoas com certeza será usado para manipulá-las.

“Mas você acha que não existirá mais ética nem valores morais?”, Ricardo perguntou a ela, que respondeu algo como: “Sim, haverá, em quanto isso proporcionar maior chances de sobrevivência para aqueles que estão no comando. Você realmente acha que as pessoas cuidarão uma da outra para voltarem a povoar o mundo? Quanto mais seres vivos, maior a chance de tudo piorar novamente”. Ricardo a encarou por um tempo, como se quisesse dizer algo a ela, mas ficou em silêncio.

“Eles dependem de nós para existir”, disse eu, “Mas infelizmente, ou felizmente, eles não têm consciência disso”. Ambos pararam para refletir nas minhas palavras que os surpreenderam, pois parecia que eles tinham se esquecido de mim. “Creio que é por sorte”, retrucou Lúcia, “Senão nos tornaríamos igual a gados para essas criaturas”.

“Eu já acho que será possível sim, desenvolvermos uma sociedade mais comunitária. É muito perceptível nessas situações como precisamos também um do outro. As sociedades que se formarem com idéias estritamente egoístas não sobreviverão por muito tempo, pegando também aquele condomínio como exemplo”, eu tomei a palavra, “Serão grandes barris de pólvora”.

“Mesmo que existam futuramente sociedades mais altruístas, elas serão minoria”, retrucou novamente Lúcia, “O ser humano é estúpido demais no aspecto social. Nós preferimos viver em barris de pólvoras e ser capazes de sentir-se mais poderosos que os outros, do que viver em uma comunidade harmônica e ter nossas palavras perdidas no meio da dos outros”.

Aquilo que ela disse me surpreendeu, não imaginava que ela conseguisse usar o cérebro de vez em quando. Claro que estou poupando o leitor dos erros gramaticais e gírias, mas ainda assim foi surpreendente.

Nossa situação dentro desse laboratório não é tão diferente daquilo que Lúcia estava dizendo. Os militares mandavam, sem discussões. A hierarquia é clara: quem está no comando são aqueles que tem maior poder de fogo. Alguns do grupo, como Sônia e Beto, já haviam sofrido certos abusos de poder por parte dos militares. Beto apanhou por ser um “moleque bocudo”. Sônia sofreu atentado ao pudor, não chegou a ser estuprada, mas foi seriamente bolinada por soldados. Quem está nos mantendo bem aqui dentro na verdade é Evandro, foi graças a ele que Sônia não sofreu nada mais grave.

Para sobrevivermos como indivíduos é extremamente necessário que saibamos cuidar dos outros, para sobrevivermos como grupo é extremamente importante que saibamos fazer nossa parte, para sobrevivermos como seres humanos, será extremamente importante que saibamos abandonar a busca por poder. Se não fizermos nada disso, teremos que torcer para que os mortos sejam piedosos conosco.

É angustiante pensar no que nos aguarda.

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10º Post

Pretendo dividir os posts em dois momentos por dia: manhã e noite. De manhã postarei um resumo para explicar o que aconteceu nessas três semanas. De noite falarei sobre o que está acontecendo atualmente.

Hoje tentarei resumir como chegamos até a casa do Evandro apontando apenas as coisas realmente importantes. É muito difícil saber o que tirar, mas espero julgar com bom senso o que omitir.

Saímos da casa do sr. Fábio e rumamos a pé em direção do Bairro Jd. Flamboyant, evitando passar pelo Balão do Bela Vista. O cheiro de carniça pela cidade estava insuportável. Havia manchas de sangue e pedaços de cadáveres por todos os lados, tanto humanos quanto animais. As cenas inevitavelmente causavam enjôo.

Caminhamos com cautela, sempre prestando atenção na presença de immortuos na área ou de algum veículo em bom estado. No caminho, tivemos a possibilidade de pegar alguns carros, mas optamos por não fazer, pois o barulho poderia nos prejudicar mais do que continuarmos a fuga a pé.

A cidade estava com um odor cada vez mais podre, quase insuportável. Sabíamos que nosso cheiro os atrairia, mas torcíamos para que todo aquele fedor diminuísse o alcance do faro deles. Creio que isso deve ter tido realmente algum efeito, pois conseguimos não chamar a atenção. A caminhada foi, como eu disse, cuidadosa, todos estávamos com muito medo, e com razão. Além disso, mesmo estando em grupo, tínhamos problemas demais entre nós, estávamos cansados e tensos, o que não nos garantia realmente uma segurança no caso de encararmos dificuldades pela frente.

Eu ainda estava com atritos com Lúcia. Marcela, seus pais e o irmão que sobreviveu, guardavam rancor de Ricardo, que se sentia extremamente culpado pelo ocorrido citado anteriormente, o que o deixava desanimado. Eles só não expulsaram o advogado do grupo, porque ele era o único que sabia atirar, mesmo tendo apenas mais quatro balas na pistola. O resto tomava seus partidos, porém sabíamos da necessidade do grupo, por isso não nos separamos.

Quando adentramos no Jd. das Paineiras – após sair do Jd. Flamboyant – resolvemos pegar uma fiorino que encontramos no caminho. Não sabíamos se íamos encontrar Evandro, se ele iria aceitar juntar-se a nós e nem se ele tinha veículo, além disso, precisávamos passar depois em algum supermercado para pegar mantimentos.

Após todos entrarmos e nos acomodarmos na fiorino, pensamos em qual caminho tomar antes de ligar o carro. Gustavo, enquanto isso, fazia uma breve vistoria para ver se estava tudo OK com o veículo. Depois que já tínhamos o trajeto em mente – infelizmente ninguém tinha pegado um GPS – o mecânico sentou-se no banco do motorista e fez ligação direta no carro.

O som do motor com certeza atrairia os immortuos que estivessem naquela região, portanto não enrolamos para sair. Tomamos o rumo que havíamos decidido para chegar até a residência de Evandro.

Ao cortar a Av. José Bonifácio para entrar na região que queríamos do Jd. das Paineiras, vimos à situação do shopping e do supermercado: portas quebradas, mas quase vazios. Provavelmente, algumas pessoas foram para lá a fim de saquear tanto o shopping quando o supermercado e as lojas ao lado desse. Não duvido que eles foram mortos pelas criaturas. Porém, sem comida lá, depois de todo esse tempo, os immortuos com certeza foram procurar “carne viva” em outro local; o qual nós viemos a encontrar, sem querer, em outro momento.

Não demorou muito para chegarmos na casa de Evandro. Era uma casa de muro grande com cerca elétrica e portões maciços que tampavam qualquer visão da residência, fora o telhado. Tinham duas câmeras de segurança: um no “portãozinho” e outro no portão.

Paramos a fiorino. “Temos que agir rápido”, falei e desci pelo lado do passageiro. Lúcia e o irmão de Marcela, Reinaldo, desceram por trás e fecharam a porta. “Gustavo, fique preparado, caso precisar, sairemos voando daqui”, disse Lúcia ao motorista. Gustavo apenas concordou; eu a mandaria pastar por falar o óbvio. Não que eu tenha feito diferente um pouco antes.

Corri até o interfone e toquei. Toquei. E toquei novamente. Porém, nada de atenderem.

Lúcia subiu no muro da casa vizinha e, como uma bárbara, quebrou os ferros de apoio da cerca elétrica com seu “taco de bets dos deuses”, que dessa vez quebrou-se no meio. O ferro caiu e ficou dependurado no fio, porém, ela criou um espaço para pularmos o muro e foi o que fizemos.

Assim que nós três pulamos do muro para dentro do jardim da frente da casa, vimos Reinaldo, o irmão da azarada Marcela, cair morto com dois tiros um no pescoço e outro na cabeça. Aterrorizados, eu e Lúcia pulamos para trás do carro que estava na garagem. “Quem são vocês?”, perguntou o atirador, “Somos vivos! Viemos buscar ajuda!”, respondi me esforçando para que minha voz saísse.

Ele não acreditou: “Buscar ajuda? Ou tomar minha casa e me devorar?”, questionou ele. Antes que eu pudesse responder, mesmo achando esquisito seu questionamento, Lúcia tomou a dianteira: “Viemos pedir ajuda para Evandro Alberto de Oliveira! Temos companheiros vivos do lado de fora da casa, entre eles o mecânico Gustavo que cuidava da blazer cinza dele!”, era todas as informações que achávamos que poderiam ser faladas.

Nessa hora, parece que o coração dele “amoleceu”. Ele perguntou nossos nomes, os quais respondemos, e pediu para que fôssemos a um lugar que ele pudesse nos ver e tirássemos nossas roupas. Ficamos realmente preocupados com o rumo que aquilo estava tomando, mas ele pareceu não gostar de nossa cautela: “Andem logo!”, gritou.

Eu fui primeiro e Lúcia logo em seguida. Ficamos nus. O atirador então nos disse: “Virem-se, deixe-me ver se vocês não são como ‘eles’”. Fizemos o que ele pediu, mas não pude deixar de perguntar: “Só o fato de estarmos falando não seria prova suficiente de que não somos mortos vivos?”, e, enfaticamente ele encerrou o assunto, “Não”.

A única coisa que me veio na cabeça naquele momento foi que estávamos nos metendo em uma enrascada nos aliando àquele paranóico.

Lá fora escutamos Gustavo ligar o motor do carro. Imploramos, enquanto colocávamos nossas roupas, para ele abrir o portão, pois provavelmente haviam criaturas chegando. Ele o fez sem muitas delongas. Gustavo viu o portão se abrindo e entrou com a fiorino na garagem, manobrando em cima do jardim.

Evandro foi cumprimentar Gustavo no mesmo momento que o pessoal saiu por trás da fiorino. Os pais de Marcela e ela viram seu outro familiar morto assim que pisaram no chão da casa. Eles entraram em desespero e começaram a chorar alto. Evandro chegou até eles, sem nenhuma cerimônia: “Vocês são loucos? Querem atrair mais daquelas coisas para cá?”, sua insensibilidade me chocou, e aos familiares do finado também, que começaram a xingá-lo de tudo quanto é nome.

Ele sacou a arma e apontou para a cabeça da Marcela: “Entendam uma coisa: essa atitude infantil de vocês está colocando em risco a todos nós. Se vocês não pararem, eu não me importo de apagar vocês também”. Sua voz era fria e imponente. Os pais de Marcela e ela gelaram, e todos nós ficamos atônitos com a insensibilidade daquele homem. Eu fiquei seriamente preocupado com a possibilidade de estarmos na casa de um psicopata. Mas, “fodidos por fodidos”, tínhamos mais chances de sobreviver contra um único monstro.

Evandro nos convidou para entrar em sua casa e o fizemos, sem questionar. Os immortuos batiam no portão, mas por incrível que pareça, esse nem mesmo balançava direito. Estávamos em uma espécie de mini fortaleza disfarçada de casa, construída para agüentar um certo tipo de catástrofe; ele realmente sabia de algo.

Dentro da casa ele deu seus pêsames para Marcela e seus pais, que ficaram em silêncio e nem mesmo olharam para nosso anfitrião. Ele nos ofereceu água e preparou um pouco de comida. Desde que tudo isso começou, nossa alimentação foi escassa e na maior parte do tempo, porcarias: salgadinhos, doces, etc. Agora ele estava nos oferecendo arroz, feijão, salada de alface e tomate e carne quase torrada. Pensei: “Ele também supõe que as carnes estão contaminadas”, olhando para o bife lembrando que também tomamos essa precaução com todos os hambúrgueres que preparamos na casa do sr. Fábio. Ele percebeu meu olhar para sua comida e comentou: “É mais seguro assim”.

Comemos e ficamos em silêncio. Quando terminamos de comer – dava para perceber a diferença no corpo de uma refeição bem feita – Evandro começou a falar: “Sei que vocês acabaram de chegar, mas precisamos ir embora daqui”, olhamos para ele surpresos sem dizer nada, “Vocês vieram atrás de mim para ajudá-los. Aqui em minha casa não tenho como fazer isso, afinal, meus mantimentos não durariam até amanhã com todos vocês. Precisamos ir para um lugar mais seguro”, explicou ele.

Sem pensar duas vezes perguntei: “O que você sabe sobre o que está acontecendo?”. Ele me olhou com seriedade, mas deu de ombros: “Tenho algumas armas aqui”, disse ele nos chamando para ir até um quarto. Não eram armas de fogo, pois as que ele tinha já estavam com ele; e também, após ter matado um de nós, ele parecia precavido demais para nos dar armas de longo alcance. Pegamos alguns facões, pequenas lanças e marretas. Depois ele nos guiou para um quarto de segurança onde estavam os mantimentos. O ajudamos a preparar as bagagens.

Lá tinha uma espécie de porão que nos levava para a casa de trás da sua. Uma passagem secreta; realmente a casa dele era preparada para algum tipo de evento apocalíptico. Na outra casa fomos até a garagem, que era bem maior do que a da casa que estávamos, e lá pegamos a sua outra pickup blindada e seu carro e partimos.

Mas antes de irmos para o laboratório no qual estamos, optamos por passar no supermercado para pegar mais mantimentos, porque, realmente, aquilo que tínhamos não duraria muito tempo no caso de necessidade.

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