10º Post

Pretendo dividir os posts em dois momentos por dia: manhã e noite. De manhã postarei um resumo para explicar o que aconteceu nessas três semanas. De noite falarei sobre o que está acontecendo atualmente.

Hoje tentarei resumir como chegamos até a casa do Evandro apontando apenas as coisas realmente importantes. É muito difícil saber o que tirar, mas espero julgar com bom senso o que omitir.

Saímos da casa do sr. Fábio e rumamos a pé em direção do Bairro Jd. Flamboyant, evitando passar pelo Balão do Bela Vista. O cheiro de carniça pela cidade estava insuportável. Havia manchas de sangue e pedaços de cadáveres por todos os lados, tanto humanos quanto animais. As cenas inevitavelmente causavam enjôo.

Caminhamos com cautela, sempre prestando atenção na presença de immortuos na área ou de algum veículo em bom estado. No caminho, tivemos a possibilidade de pegar alguns carros, mas optamos por não fazer, pois o barulho poderia nos prejudicar mais do que continuarmos a fuga a pé.

A cidade estava com um odor cada vez mais podre, quase insuportável. Sabíamos que nosso cheiro os atrairia, mas torcíamos para que todo aquele fedor diminuísse o alcance do faro deles. Creio que isso deve ter tido realmente algum efeito, pois conseguimos não chamar a atenção. A caminhada foi, como eu disse, cuidadosa, todos estávamos com muito medo, e com razão. Além disso, mesmo estando em grupo, tínhamos problemas demais entre nós, estávamos cansados e tensos, o que não nos garantia realmente uma segurança no caso de encararmos dificuldades pela frente.

Eu ainda estava com atritos com Lúcia. Marcela, seus pais e o irmão que sobreviveu, guardavam rancor de Ricardo, que se sentia extremamente culpado pelo ocorrido citado anteriormente, o que o deixava desanimado. Eles só não expulsaram o advogado do grupo, porque ele era o único que sabia atirar, mesmo tendo apenas mais quatro balas na pistola. O resto tomava seus partidos, porém sabíamos da necessidade do grupo, por isso não nos separamos.

Quando adentramos no Jd. das Paineiras – após sair do Jd. Flamboyant – resolvemos pegar uma fiorino que encontramos no caminho. Não sabíamos se íamos encontrar Evandro, se ele iria aceitar juntar-se a nós e nem se ele tinha veículo, além disso, precisávamos passar depois em algum supermercado para pegar mantimentos.

Após todos entrarmos e nos acomodarmos na fiorino, pensamos em qual caminho tomar antes de ligar o carro. Gustavo, enquanto isso, fazia uma breve vistoria para ver se estava tudo OK com o veículo. Depois que já tínhamos o trajeto em mente – infelizmente ninguém tinha pegado um GPS – o mecânico sentou-se no banco do motorista e fez ligação direta no carro.

O som do motor com certeza atrairia os immortuos que estivessem naquela região, portanto não enrolamos para sair. Tomamos o rumo que havíamos decidido para chegar até a residência de Evandro.

Ao cortar a Av. José Bonifácio para entrar na região que queríamos do Jd. das Paineiras, vimos à situação do shopping e do supermercado: portas quebradas, mas quase vazios. Provavelmente, algumas pessoas foram para lá a fim de saquear tanto o shopping quando o supermercado e as lojas ao lado desse. Não duvido que eles foram mortos pelas criaturas. Porém, sem comida lá, depois de todo esse tempo, os immortuos com certeza foram procurar “carne viva” em outro local; o qual nós viemos a encontrar, sem querer, em outro momento.

Não demorou muito para chegarmos na casa de Evandro. Era uma casa de muro grande com cerca elétrica e portões maciços que tampavam qualquer visão da residência, fora o telhado. Tinham duas câmeras de segurança: um no “portãozinho” e outro no portão.

Paramos a fiorino. “Temos que agir rápido”, falei e desci pelo lado do passageiro. Lúcia e o irmão de Marcela, Reinaldo, desceram por trás e fecharam a porta. “Gustavo, fique preparado, caso precisar, sairemos voando daqui”, disse Lúcia ao motorista. Gustavo apenas concordou; eu a mandaria pastar por falar o óbvio. Não que eu tenha feito diferente um pouco antes.

Corri até o interfone e toquei. Toquei. E toquei novamente. Porém, nada de atenderem.

Lúcia subiu no muro da casa vizinha e, como uma bárbara, quebrou os ferros de apoio da cerca elétrica com seu “taco de bets dos deuses”, que dessa vez quebrou-se no meio. O ferro caiu e ficou dependurado no fio, porém, ela criou um espaço para pularmos o muro e foi o que fizemos.

Assim que nós três pulamos do muro para dentro do jardim da frente da casa, vimos Reinaldo, o irmão da azarada Marcela, cair morto com dois tiros um no pescoço e outro na cabeça. Aterrorizados, eu e Lúcia pulamos para trás do carro que estava na garagem. “Quem são vocês?”, perguntou o atirador, “Somos vivos! Viemos buscar ajuda!”, respondi me esforçando para que minha voz saísse.

Ele não acreditou: “Buscar ajuda? Ou tomar minha casa e me devorar?”, questionou ele. Antes que eu pudesse responder, mesmo achando esquisito seu questionamento, Lúcia tomou a dianteira: “Viemos pedir ajuda para Evandro Alberto de Oliveira! Temos companheiros vivos do lado de fora da casa, entre eles o mecânico Gustavo que cuidava da blazer cinza dele!”, era todas as informações que achávamos que poderiam ser faladas.

Nessa hora, parece que o coração dele “amoleceu”. Ele perguntou nossos nomes, os quais respondemos, e pediu para que fôssemos a um lugar que ele pudesse nos ver e tirássemos nossas roupas. Ficamos realmente preocupados com o rumo que aquilo estava tomando, mas ele pareceu não gostar de nossa cautela: “Andem logo!”, gritou.

Eu fui primeiro e Lúcia logo em seguida. Ficamos nus. O atirador então nos disse: “Virem-se, deixe-me ver se vocês não são como ‘eles’”. Fizemos o que ele pediu, mas não pude deixar de perguntar: “Só o fato de estarmos falando não seria prova suficiente de que não somos mortos vivos?”, e, enfaticamente ele encerrou o assunto, “Não”.

A única coisa que me veio na cabeça naquele momento foi que estávamos nos metendo em uma enrascada nos aliando àquele paranóico.

Lá fora escutamos Gustavo ligar o motor do carro. Imploramos, enquanto colocávamos nossas roupas, para ele abrir o portão, pois provavelmente haviam criaturas chegando. Ele o fez sem muitas delongas. Gustavo viu o portão se abrindo e entrou com a fiorino na garagem, manobrando em cima do jardim.

Evandro foi cumprimentar Gustavo no mesmo momento que o pessoal saiu por trás da fiorino. Os pais de Marcela e ela viram seu outro familiar morto assim que pisaram no chão da casa. Eles entraram em desespero e começaram a chorar alto. Evandro chegou até eles, sem nenhuma cerimônia: “Vocês são loucos? Querem atrair mais daquelas coisas para cá?”, sua insensibilidade me chocou, e aos familiares do finado também, que começaram a xingá-lo de tudo quanto é nome.

Ele sacou a arma e apontou para a cabeça da Marcela: “Entendam uma coisa: essa atitude infantil de vocês está colocando em risco a todos nós. Se vocês não pararem, eu não me importo de apagar vocês também”. Sua voz era fria e imponente. Os pais de Marcela e ela gelaram, e todos nós ficamos atônitos com a insensibilidade daquele homem. Eu fiquei seriamente preocupado com a possibilidade de estarmos na casa de um psicopata. Mas, “fodidos por fodidos”, tínhamos mais chances de sobreviver contra um único monstro.

Evandro nos convidou para entrar em sua casa e o fizemos, sem questionar. Os immortuos batiam no portão, mas por incrível que pareça, esse nem mesmo balançava direito. Estávamos em uma espécie de mini fortaleza disfarçada de casa, construída para agüentar um certo tipo de catástrofe; ele realmente sabia de algo.

Dentro da casa ele deu seus pêsames para Marcela e seus pais, que ficaram em silêncio e nem mesmo olharam para nosso anfitrião. Ele nos ofereceu água e preparou um pouco de comida. Desde que tudo isso começou, nossa alimentação foi escassa e na maior parte do tempo, porcarias: salgadinhos, doces, etc. Agora ele estava nos oferecendo arroz, feijão, salada de alface e tomate e carne quase torrada. Pensei: “Ele também supõe que as carnes estão contaminadas”, olhando para o bife lembrando que também tomamos essa precaução com todos os hambúrgueres que preparamos na casa do sr. Fábio. Ele percebeu meu olhar para sua comida e comentou: “É mais seguro assim”.

Comemos e ficamos em silêncio. Quando terminamos de comer – dava para perceber a diferença no corpo de uma refeição bem feita – Evandro começou a falar: “Sei que vocês acabaram de chegar, mas precisamos ir embora daqui”, olhamos para ele surpresos sem dizer nada, “Vocês vieram atrás de mim para ajudá-los. Aqui em minha casa não tenho como fazer isso, afinal, meus mantimentos não durariam até amanhã com todos vocês. Precisamos ir para um lugar mais seguro”, explicou ele.

Sem pensar duas vezes perguntei: “O que você sabe sobre o que está acontecendo?”. Ele me olhou com seriedade, mas deu de ombros: “Tenho algumas armas aqui”, disse ele nos chamando para ir até um quarto. Não eram armas de fogo, pois as que ele tinha já estavam com ele; e também, após ter matado um de nós, ele parecia precavido demais para nos dar armas de longo alcance. Pegamos alguns facões, pequenas lanças e marretas. Depois ele nos guiou para um quarto de segurança onde estavam os mantimentos. O ajudamos a preparar as bagagens.

Lá tinha uma espécie de porão que nos levava para a casa de trás da sua. Uma passagem secreta; realmente a casa dele era preparada para algum tipo de evento apocalíptico. Na outra casa fomos até a garagem, que era bem maior do que a da casa que estávamos, e lá pegamos a sua outra pickup blindada e seu carro e partimos.

Mas antes de irmos para o laboratório no qual estamos, optamos por passar no supermercado para pegar mais mantimentos, porque, realmente, aquilo que tínhamos não duraria muito tempo no caso de necessidade.

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