11º Post

Como disse anteriormente, dividirei minhas anotações em duas partes (dois períodos): manhã (retrospectiva) e noite (o que anda acontecendo). Portanto agora tratarei dos últimos acontecimentos aqui no laboratório.

Hoje tive uma boa conversa com Ricardo e Lúcia a respeito do que poderia vir de tudo isso em relação a nossa existência como seres humanos em um planeta drasticamente modificado. Lúcia, que pareceu estar menos niilista em suas observações, apesar de que analisando as atitudes de Lúcia em retrocesso, não posso deixar de parabenizá-la pela preocupação com o grupo. Mesmo com suas idéias de que “tudo foi pra merda”, ela ainda tem uma visão bastante comunitária de sobrevivência.

Por isso, um assunto que cheguei a citar anteriormente, tornou-se necessário retornar a pauta aqui no arquivo de sobrevivência: a relação em grupo.

Como eu já disse bem no começo do blog, a convivência entre pessoas que estão passando por contínuo stress é complicadíssima. Estamos sempre a ponto de bala, além disso o egoísmo se torna cada vez mais aflorado. São poucos aqueles que conseguem perceber que uma das melhores formas de ser egoísta, ou seja, de beneficiar a si próprio, é beneficiar os outros. Parece piegas isso, mas creio que esse é o ponto forte de Lúcia. Ela quer simplesmente sobreviver, mas para isso, ela sabe que precisa de um grupo. De pessoas para cuidarem de sua retaguarda.

Não seria essa a busca por segurança que levou nossos ancestrais a viverem em grupo? Não é isso que guia nossa necessidade de ser aceitos em um grupo? Não é isso que nos faz buscar constituir família, fundar instituições religiosas, partidos políticos, instituições de ensino, etc?

A situação atual é deprimente. Cada vez mais os seres vivos estão escassos. Vê-se mortos andando por todos os lados: humanos, cães, gatos e capivaras (há sim outros animais que tornaram-se immortuos, porém, como estamos em uma cidade grande, eles não são tão vistos). Além disso, estamos passando por uma certa escassez de comida e bebida.

A água tem que ser fervida antes de bebida; e isso não é uma mera regra para evitar alguma desinteria, mas para evitar doenças realmente graves causadas por possíveis cadáveres apodrecendo nos reservatórios de água. Enquanto a comida: se for carne, de qualquer tipo, tem que assá-la, ou fritá-la, muito bem, quase a torrando, não pode ficar nada do sangue líquido; não sabemos exatamente o que pode acontecer se comermos a carne sem essa precaução, mas a lógica que nos faz acreditar que isso é o melhor procedimento é simplesmente que: qualquer ser que morra, não importa a forma, volta como immortuos, logo, provavelmente, assim que se mata um animal para alimentar-se dele, a carne já está de certa forma contaminada.

Já verduras, legumes, etc, isso é possível cultivar. Quem sabe futuramente nossas sociedades se tornem obrigatoriamente vegetarianas. Isso é, se houver alguma sociedade que surja a partir dessa situação na qual nos encontramos.

Ricardo acredita que será assim: que esses mortos irão apodrecer em seus devidos tempos e que os sobreviventes, aprendendo com tudo o que estão passando atualmente, irão reformular a convivência em grupo. Os costumes mortuários passarão por reformulações, cremações serão mais comuns. Fora isso, o ser humano aprenderá a ser menos egoísta e trabalhará mais em grupo, já que qualquer descuido poderá por fogo novamente na situação.

Eu já acho essa visão um tanto romântica. O nosso grupo é um bom exemplo de que o ser humano é interesseiro não importando a situação. Mesmo sendo um grupo pequeno, um tem atrito com o outro e estamos juntos apenas por necessidade. Se a sobrevivência de um de nós, depender da morte do outro, ninguém no grupo, nem mesmo aquele que eu acho que tem o coração mais bondoso de nós, Gustavo, hesitará em sacrificar o companheiro. Nem Ricardo e nem Lúcia descordaram quando eu disse isso.

Nós presenciamos uma dessas situações limites, quando Gustavo disputou sua filha com um morto vivo. Quando ele percebeu que a coisa estava ficando preta, não hesitou em deixar a filha para trás. Lúcia contra argumentou, mesmo concordando de modo geral com o que eu disse, que essa situação de Gustavo foi diferencial, pois ele iria morrer junto com a filha, o que não seria benéfico para ninguém.

Perguntei a Lúcia o que ela pensava a respeito. Ela disse que o ser humano irá sim se reestruturar, era só uma questão de tempo para se adaptar ao novo contexto, porém, não sabia se valeria a pena viver na “nova sociedade de merda” que irá surgir. A disputa de poderes, segundo ela, será muito mais explícita. As pessoas vão estar querendo sobreviver em um mundo desolado, e será muito mais seguro para aquelas pessoas que conseguirem estar no poder, com outras pessoas se sacrificando para defendê-las. “Nós vimos isso naquele condomínio”, comentou ela.

Falarei sobre esse condomínio amanhã de manhã.

Ela finalizou dizendo que: nossas sociedades surgiram a partir de interesses pessoais dos espertinhos, daqueles que souberam como manipular uma maioria e não será diferente, o desespero das pessoas com certeza será usado para manipulá-las.

“Mas você acha que não existirá mais ética nem valores morais?”, Ricardo perguntou a ela, que respondeu algo como: “Sim, haverá, em quanto isso proporcionar maior chances de sobrevivência para aqueles que estão no comando. Você realmente acha que as pessoas cuidarão uma da outra para voltarem a povoar o mundo? Quanto mais seres vivos, maior a chance de tudo piorar novamente”. Ricardo a encarou por um tempo, como se quisesse dizer algo a ela, mas ficou em silêncio.

“Eles dependem de nós para existir”, disse eu, “Mas infelizmente, ou felizmente, eles não têm consciência disso”. Ambos pararam para refletir nas minhas palavras que os surpreenderam, pois parecia que eles tinham se esquecido de mim. “Creio que é por sorte”, retrucou Lúcia, “Senão nos tornaríamos igual a gados para essas criaturas”.

“Eu já acho que será possível sim, desenvolvermos uma sociedade mais comunitária. É muito perceptível nessas situações como precisamos também um do outro. As sociedades que se formarem com idéias estritamente egoístas não sobreviverão por muito tempo, pegando também aquele condomínio como exemplo”, eu tomei a palavra, “Serão grandes barris de pólvora”.

“Mesmo que existam futuramente sociedades mais altruístas, elas serão minoria”, retrucou novamente Lúcia, “O ser humano é estúpido demais no aspecto social. Nós preferimos viver em barris de pólvoras e ser capazes de sentir-se mais poderosos que os outros, do que viver em uma comunidade harmônica e ter nossas palavras perdidas no meio da dos outros”.

Aquilo que ela disse me surpreendeu, não imaginava que ela conseguisse usar o cérebro de vez em quando. Claro que estou poupando o leitor dos erros gramaticais e gírias, mas ainda assim foi surpreendente.

Nossa situação dentro desse laboratório não é tão diferente daquilo que Lúcia estava dizendo. Os militares mandavam, sem discussões. A hierarquia é clara: quem está no comando são aqueles que tem maior poder de fogo. Alguns do grupo, como Sônia e Beto, já haviam sofrido certos abusos de poder por parte dos militares. Beto apanhou por ser um “moleque bocudo”. Sônia sofreu atentado ao pudor, não chegou a ser estuprada, mas foi seriamente bolinada por soldados. Quem está nos mantendo bem aqui dentro na verdade é Evandro, foi graças a ele que Sônia não sofreu nada mais grave.

Para sobrevivermos como indivíduos é extremamente necessário que saibamos cuidar dos outros, para sobrevivermos como grupo é extremamente importante que saibamos fazer nossa parte, para sobrevivermos como seres humanos, será extremamente importante que saibamos abandonar a busca por poder. Se não fizermos nada disso, teremos que torcer para que os mortos sejam piedosos conosco.

É angustiante pensar no que nos aguarda.

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    • Luiz Paulo
    • 19 de abril de 2011

    Evandro é foda, tem pra ninguém.
    Lúcia é foda. Fala o que pensa, gostei dela.

    Se tivesse nesse lugar, ia me alojar na casa do Evandro, hahahha.

    Concordo com a Lúcia, a grande maioria dos poucos sobreviventes só iriam aderir aos valores morais que interessassem a eles. Mas acho que muitas sociedades alternativas anarquistas iriam surgir também.

    Também acho que 3 grupos serão/são comuns no meio disso tudo:

    1- Grupos isolados e sedentários que só se preocupam com o sossego e a alimentação, não têm senso político, religioso ou de resgate de outros sobreviventes e praticamente não aceitam novos membros a não ser que se encaixem com seu parâmetro.

    2- Grupos nômades que beiram a cidade em busca de alimentos/resposta/sobreviventes, que é o caso do grupo.. Costuma ser um grupo instável com população flutuante.

    3- Grupo (se é que pode se chamar assim) com 3 ou menos membros. Conseguem se virar melhor sozinhos por isso quase nunca se aliam a grupo. Normalmente são autodidatas ou manjam muito de algumas coisas aleatórias que permite que se virem sozinhos.

    Hehehehe, a história tá massa. Quero conhecer um Zumbi inteligente. (Gostei do Immortuos, mas ainda prefiro Zumbi ;P)

  1. Imaginei mesmo que vc ia curtir o Evandor hahahaha Espere para ler os contos com ele, acho que vc vai curtir ainda mais.

    Sociedades alternativas anarquistas são bem prováveis dentro desse cenário mesmo.

    Legal as divisões de grupos que vc mencionou. São bem coerentes. Eu incluiria também aqueles que tentarão restabelecer sociedades, em uma espécie de sub-grupo do primeiro que vc menciona. Afinal, para alguns é confortável quando há um número maior de pessoas convivendo no mesmo local, assim a pessoa não é o único alvo possível das violência, nesse caso representado pelos zumbas.

    hahahahhahaha goste de desmorto, mas essa palavra não serve para qualquer frase hahahahaha Zumbi ainda me lembra quilombo dos palmares hahahahahah

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