12º Post

Hoje a noite foi tranqüila, para mim pelo menos. Dormi bem. Sem pesadelos. Quando acordamos não vi ninguém chorando; e olha que isso é bem raro.

Ontem à noite esqueci de descrever como eram as coisas aqui dentro do laboratório, acho que é importante dar uma resumidinha antes de contar como nós pegamos mantimentos no supermercado e eu consegui um aparelho para usar a internet via satélite.

Basicamente dá para definir quatro grupos aqui no laboratório: nós (incluindo Evandro), os militares, os cientistas e os outros civis. Evandro, mesmo eu tendo o incluído entre nós, tem tratamento de militar aqui dentro.

Como eu disse no post anterior: quem está no comando são aqueles que tem maior poder de fogo; o que pode incluir, no caso dos cientistas, conhecimentos de ferrar com todo mundo em pouco tempo. Portanto, não é nenhuma surpresa que a hierarquia seja, em ordem decrescente: militares, cientistas, nós (graças ao nosso “anjo da guarda” da antiga polícia federal) e os outros civis.

Aquilo que disse antes sobre ver pessoas chorando assim que acordamos é bastante comum entre os civis. Não sei ao certo por quê, pois Evandro proibiu que entrássemos em contato com os outros, com receio de perdermos nossos “benefícios” entre os militares. Posso explicar isso futuramente. Como agora estamos na parte da manhã do dia, eu vou contar mais da retrospectiva.

Ao sairmos da casa de Evandro – ele dirigindo a pickup blazer com 7 lugares e Gustavo dirigindo seu corsa – fomos direto para o supermercado. Os veículos do policial eram bastante silenciosos, o que era extremamente positivo.

Havia alguns immortuos no caminho, mais do que tinha quando fomos para a mini fortaleza do Evandro; provavelmente haviam sido atraídos para lá pelo barulho que fizemos com nossa passagem. Eram dezenas, porém estavam muito espalhados. Evandro, para aumentar ainda mais a suspeita que tínhamos de que ele era um psicopata, atropelava o máximo possível, sem nem mesmo fechar os olhos por aflição ou demonstrar algum tipo de nojo. Perguntei porque ele estava fazendo aquilo e ele respondeu de forma objetiva e bem lógica: “Estou diminuindo a quantidade que irá nos seguir”.

Realmente, como estávamos passando por dezena deles, provavelmente eles iriam nos seguir até o supermercado. Evandro disse: “Deixarei três de vocês na porta do supermercado. Distrairei eles e depois retorno para pegá-los. Vocês terão 5 minutos para pegarem a maior quantidade de mantimentos possíveis. Se passarmos desse tempo, provavelmente, estaremos encurralados com centenas deles”. Ninguém questionou o plano, não sei se foi por medo ou por realmente terem concordado com o policial.

Chegamos no supermercado. O estacionamento estava um caos, alguns carros batidos, pedaços de cadáveres espalhados no chão, sangue seco para todos os lados, um ou outro immortuos se arrastando e três correndo em nossa direção. Evandro atropelou os três, um de cada vez e nos levou para a porta do supermercado.

Desci acompanhado de Lúcia, claro, e de Ricardo, que veio junto, trazendo sua arma com quatro balas; junto com nós na pickup ainda estavam Evandro, Beto, Sônia e Cássia. Do corsa – onde estavam: Gustavo, Marcela e seus pais, sr. Fábio e Carla – não saiu ninguém. Eles apenas seguiram Evandro.

Corremos para dentro do supermercado. Realmente pessoas tentaram saquear o supermercado, talvez com a idéia de ter mantimentos para sobreviverem por muito tempo, ou por desespero mesmo e confusão, pois lá dentro o caos era maior do que no estacionamento. Acabei não acompanhando os dois, pois o que me interessava estava na loja de eletrônicos ao lado. Avisei eles que iria para lá e parti. Lúcia pareceu não gostar nenhum pouco, mas ignorei-a; precisava procurar o aparelho de internet via satélite para poder postar meus arquivos no blog. Sai do supermercado escutando ela dizer: “Covarde”, aquilo me irritou, mas preferi não dar importância.

Corri para a loja furtivamente. Vi a blazer e o corsa fora do estacionamento, chamando a atenção dos mortos vivos. Eles buzinavam e gritavam com o vidro meio aberto; parecia um bando de adolescente voltando da balada. Por mais infantil que parecesse, deu certo. Os immortuos estavam ocupados.

Entrando na loja não vi nenhuma criatura de pé por lá, porém, tinha que ficar atento com as que poderiam estar se arrastando. Andei pelas estantes com muito cuidado, procurando o tal aparelho. O tempo foi passando e comecei a me sentir angustiado e ansioso; bastante ansioso. Não tinha muito tempo a perder, tinha que ser mais rápido com a procura. Entretanto, a ansiedade apenas atrapalhava.

Faltando um minuto para dar o tempo combinado com Evandro, encontrei o aparelho e o peguei no mesmo instante que escutei um barulho na porta da loja. Havia um immortuos farejando. Ele não corria desesperadamente procurando algo, pelo contrário, parecia cauteloso. Coloquei o aparelho em minha mochila e me escondi atrás de uma estante. Tinha que sair rápido dali sem ser visto.

Dava para escutar as buzinas do lado de fora. Evandro e Gustavo ainda estavam distraindo os immortuos. O que eu não entendia, era o porquê aquele estava dentro da loja.

Corri para outra estante e ele reagiu como se tivesse escutado. Olhou para a minha direção, mas consegui me esconder rapidamente. Mesmo assim vi o olhar dele. Era um olhar inteligente, o que me aterrorizou: será que eu estava lidando com outro Marcos? Será que existem diferenças entre tipos de immortuos? Foram as perguntas que surgiram na minha mente como relâmpago, ao mesmo tempo em que uma avalanche de outros pensamentos gerados pelo medo e pela ansiedade surgiu.

Olhei para o relógio e vi que o tempo estava se esgotando. “Liguei o foda-se”. Não dava para esperar. Levantei-me e corri para a entrada, tentando me distanciar da criatura. Ele correu para tentar me pegar, rosnando como os outros; não, ele não era igual ao Marcos. Quando ele estava se aproximando de mim, Lúcia gritou do lado de fora: “Covarde! Corre logo pra cá!”, foi muita sorte minha ela ter me chamado, mesmo me ofendendo no processo. O immortuos parou e se distanciou ao perceber que estava em desvantagem. Mesmo não sendo igual ao Marcos, ele tinha um nível de inteligência diferenciado dos outros. Achei interessante aquilo, mas não podia perder tempo tentando testar a criatura. Corri para fora da loja. Ricardo já tinha entrado na pickup. Lúcia estava entrando. Eu corri tudo que pude e também entrei na blazer.

Saímos de lá com uma certa facilidade. Olhei ao redor para ver a situação dos immortuos e me surpreendi: não havia tantos deles quanto imaginamos que teria. “O que será que está acontecendo?”, perguntei a Evandro, “Vocês fizeram barulho pra caralho”. Ele respondeu simplesmente: “Eles devem estar em algum lugar mais interessante”.

Com nosso estoque de alimentos melhorado, fomos cruzar a Av. José Bonifácio para ir até o bairro Nova Campinas. As ruas estavam vazias. E nenhum immortuos estava nos seguindo. Tudo estava perfeito.

Perguntei para onde Evandro estava nos levando e ele disse sem delongas que havia uma pequena base militar para estudos por perto. Ele estava começando a confiar em nós e, aos poucos, começava abrir o jogo.

Fomos tranqüilamente até o bairro Nova Campinas, porém, nossa tranqüilidade não durou muito tempo. Tivemos o grande azar de nos deparar com uma turba imensa de immortuos ensandecidos, que estavam cercando um condomínio bem protegido. Demos ré rapidamente e tentamos sair dali, porém, vieram mais por trás de nós. Atropelamos alguns e tentamos fugir, mas não estava dando certo. Fomos cercados.

Alguns de nós se entregaram ao desespero, dava para ouvir os gritos no corsa, outros tentavam se manter firmes, para pensar no que fazer; mas isso não quer dizer que estávamos melhores interiormente. O terror torcia nossas entranhas. O coração parecia que ia parar de tanto medo. Eu mesmo estava quase para me entregar ao desespero e começar, inutilmente, a chorar, quando algo nos surpreendeu.

Começamos a escutar tiros e explosões. Não sabia ao certo o que estava acontecendo, mas aquilo estava chamando a atenção das criaturas que nos cercavam. Quando eles abriram espaço suficiente para nossos veículos se locomoverem, Evandro não pensou duas vezes e acelerou com sua blazer, abrindo ainda mais o caminho na multidão putrefata.

Gustavo foi na sombra da pickup. Assim conseguimos chegar no condomínio, que abriu o portão para entrarmos. As pessoas de lá estavam pesadamente armadas e atirando em todos os immortuos que tentavam aproximar. Entrar lá poderia ser perigoso, e acabou sendo sim, mas não tinha outra forma de escapar daquilo.

As pessoas armadas nos deram cobertura para que saíssemos dos carros com nossas bagagens. Os immortuos não conseguiam entrar lá, mas era melhor não arriscar chamando a atenção deles lá fora.

O que ainda não tínhamos entendido era o por quê haviam tantos immortuos por lá. Porém estávamos para descobrir.

Em outra oportunidade eu conto o que aconteceu. Agora preciso ir.

Anúncios
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: