13º Post

Não sei por onde começar o post dessa noite. O dia foi cheio. Algo sinistro e estranho que testemunhamos quando chegamos a esse laboratório, começaram a fazer sentido para mim. Evandro conseguiu, através de seus contatos entre os cientistas, me levar para dentro de uma das salas de experimentos.

É indescritível o que estão fazendo lá em todos os seus detalhes, mas descreverei sim o que consigo concatenar com nossas experiências. Porém, não fará muito sentido para quem for ler esse arquivo, se eu simplesmente colocar as informações que tive dentro daquela sala sem terminar de contar como chegamos a esse lugar; e o que presenciamos.

Portanto vou mudar o que planejei anteriormente. Nesse post, não irei falar sobre os ocorridos recentes, e sim focarei na retrospectiva.

Estou muito ansioso para escrever o que foi descoberto aqui no blog, para que outras pessoas saibam. Isso me faz querer pular a descrição do que nos aconteceu no condomínio, entretanto, não acho que assim será melhor. Portanto, tentarei não me estender muito nos acontecimentos do condomínio, mas não omitirei os principais fatos bases para a reflexão sobre convivência em grupo nessas situações altamente estressantes. Assim, rapidamente, nesse mesmo post, descreverei a nossa chegada ao laboratório.

Amanhã de manhã colocarei tudo o que presenciei hoje.

No condomínio havia muitas pessoas, parte do motivo pelo qual aquele local estava lotado de immortuos.

Como “condomínio”, engloba tanto prédios, quanto casas, e podem ser desde condomínios ricos até não tão abastados, é melhor eu esclarecer em que tipo de condomínio nós nos encontrávamos.

Era um condomínio de prédios. Muros altos com cerca elétrica. Duplos portões de grades grandes e fortes, o que tornava bem seguro o local; como eu disse, o Brasil tem vantagens nessas situações, pois muitas de nossas residências possuem uma grande quantidade de apetrechos de segurança. Havia quatro prédios por lá: bloco A, B, C e D; nada anormal. A guarita tinha janelas pequenas, para tornar mais difícil de um assaltante atirar no porteiro, além de impedir que se a janela quebrasse, mesmo o vidro sendo blindado, nenhum adulto passaria.

As portas dos prédios também eram bastantes seguras. Cada prédio tinha seu próprio interfone, grades, câmeras de vigilância, etc; caso o assaltante passasse pelo portão principal, ainda assim, isso não garantiria que ele teria sucesso em chegar no apartamento desejado. O único ponto não muito seguro era que o estacionamento que ficava a céu aberto, mas isso era um mero detalhe perto de tudo aquilo.

Creio que essa descrição física do local basta. Agora deixe-me descrever a situação na qual nos encontrávamos.

Havia quatro grupos de pessoas, um em cada bloco, querendo sobreviver de sua maneira. Não dava para dividir os grupos como sendo “policiais e bandidos” ou “índios e mocinhos”, mesmo assim, havia uma guerra lá dentro. Nesses grupos eram identificáveis duas classes de pessoas: uma pequena formada por pessoas com poder de fogo e uma classe maior formada por pessoas sem armas de fogo. É desnecessário que eu diga qual classe era dominante.

Os dois blocos da frente, que davam acesso ao portão principal, haviam se unido na luta contra os dois outros blocos. Motivo: suprimento acabando. Os outros dois blocos tinham uma quantidade vasta de suprimentos, segundo boatos, porém não se aliaram contra os blocos da frente, e sim lutavam entre si também.

Aqueles que nos salvaram, portanto, pertenciam à aliança AB. E assim que entramos, eles confiscaram nossos mantimentos e nossas armas. Nós estávamos em grande desvantagem, o que fez com que nenhum de nós, nem mesmo Lúcia, tentasse reagir.

Nos três primeiros dias eles nos trataram como cães ômegas. Comíamos apenas se sobrava comida, caso não, passávamos fome. Três dias desde nossa chegada, alguns de nós estávamos entrando em melancolia, se não depressão, porém outros, que vocês já devem saber quem são, estavam observando para pensarem em uma tática de fuga.

Soubemos como havia tantas armas por lá. Policiais e militares, viram o potencial de sobrevivência que aquele condomínio proporcionava. Desacreditando que chegariam até a base militar no laboratório médico em Barão Geraldo, eles preferiram se estabelecer ali. Porém, chegando lá, eles encontraram uma pequena resistência: um dos moradores do bloco D era um Coronel adicto do exército que vendia armas para traficantes da Vila Brandina, Pq. Brasília e Moscou, que se sentiu ameaçado pelos recém chegados. Se ele estivesse sozinho estaria bom, seria fácil para tomarem seu poder, mas assim que os mortos começaram a levantar, esse tal Coronel chamou seus “camaradas” para o condomínio, ou seja, criou seu exército.

Como aqueles que chegaram formavam por si só um mini-exército, eles resolveram lidar à força com a resistência e tomaram os blocos A e B. Os blocos C e D, tiveram uma rixa, quando um dos traficantes resolveu não mais servir ao Coronel e levou com ele, alguns de seus comparsas. O bloco A e B tiveram problemas entre eles quando foram decidir quem estava no comando.

Tudo isso parece que precisaria de meses para acontecer. Talvez em uma situação “normal” sim, porém, não estávamos em uma situação normal; as atitudes dementes dos seres humanos acontecem com mais velocidade em climas constantes de tensão. Os barulhos de tiros e as mortes que ocorriam lá dentro, chamaram a atenção dos immortuos do bairro que se concentraram na frente do condomínio, mas isso não preocupou aqueles que estavam armados, porém, trouxe bastante medo e sofrimento para os “civis” inclusos nesse jogo todo. O cheiro da morte estava tanto dentro quanto fora do condomínio e os algozes se movimentavam por toda parte, seja como um ser vivo ou como um cadáver faminto.

Nós estávamos fazendo parte da classe dos “civis” do bloco AB e víamos com seus olhos; sentíamos um temor que com certeza era semelhante ao que eles sentiam. Dava realmente medo todos aqueles mortos fétidos e repugnantes lá na frente, e aquele bando de imbecis instáveis atirando uns contra os outros. Havia montes de cadáveres nos cantos dos muros, com suas cabeças cortadas e em estado de decomposição; a maioria desses que formavam os montes eram “civis”, que acabavam pagando pela estupidez alheia.

No quarto dia, após algumas conversas com os militares, Evandro conseguiu melhorar a situação de alguns de nós: Gustavo, Ricardo, Lúcia e eu, pois éramos os que estávamos, aparentemente, menos chocados com a situação e havíamos sofrido menos com a parca alimentação. Assim que conseguiu ficar a sós conosco, o “nosso policial” nos contou seu plano de fuga daquele inferno.

Era um plano suicida, mas que poderia dar certo. Ele disse que precisaríamos da ajuda do Beto e que eu devia, como “cientista da mente”, ajudá-lo a se recompor em pouco tempo; Beto estava bastante chocado com tudo aquilo. Eu tentei argumentar dizendo que era um cientista e não um mágico, e ele foi bastante enfático em sua resposta: “Então você é inútil”, sem pensar duas vezes retirei o que disse e me propus a fazer o que ele estava pedindo. Não entendia de início o porquê ele escolheu o Beto, mas percebi, quando estávamos em sua casa, que ele observava bastante todos nós.

Evandro disse a cada um o que nós iríamos fazer. Depois que todos tiramos nossas dúvidas, nós nos separamos e esperamos o sinal para iniciarmos o plano.

Em dois dias eu consegui o que precisava com o Beto; não consegui ajudá-lo, mas fiz ele “ligar o foda-se”, o que permitiu que ele nos ajudasse mesmo se colocando em um enorme risco. Na noite desse mesmo dia o plano foi posto em prática: Beto levando uma garrafa d’água e bolachas, sorrateiramente, abriu com um arame a cabine do porteiro que estava trancada – já que a chave estava em posse de alguém do Bloco AB, ou talvez do Coronel – e se trancou lá dentro; ele conseguiu fazer isso sem chamar nenhuma atenção, até mesmo os immortuos no portão não perceberam direito a ação do adolescente. Lá de dentro ele abriu os portões do condomínio e as criaturas adentraram sedentas deixando os “guardas” aterrorizados.

Gustavo, quando escutou os urros e os primeiros tiros, começou a dar partida no maior número de carro que pôde – não foram muitos, mas o suficiente para ajudar algumas pessoas – deixando para dar partida nos dois veículos de Evandro quando o visse vindo com Lúcia, e os deixou ligados. Lúcia e Evandro, que estavam conversando com alguns soldados, aproveitaram o susto deles com a invasão e os desarmaram. Lúcia desarmou dois que estavam próximos e Evandro matou os outros friamente; segundo a “Thor” me disse posteriormente. Eles pegaram o máximo de armas possíveis que estavam lá e foram em direção aos carros.

A minha ação e de Ricardo, na verdade, começou antes das outras. Conversamos com todos os “civis” possíveis, incluindo Marcela, Sônia, Carla, Cássia, sr. Fábio e os pais de Marcela, sobre o que ia acontecer e para que todos eles se preparassem para fugir, pegar algum carro ou – se não tivesse como – fugissem a pé. Alguns “civis” ficaram temerosos, porém entenderam que se a situação continuasse do jeito que estava eles morreriam de qualquer forma, então era tudo ou nada.

Quando Ricardo viu pela janela a porta da guarita abrindo, um vulto entrando e ela se fechando, ele deu o sinal. Descemos com tudo. Parecíamos um bando de immortuos pelas escadas do prédio, desesperados para sairmos de lá antes que fosse tarde demais. Por sorte, os “civis” ficavam no andares mais baixos, enquanto os “poderosos” na cobertura. Os militares que estavam de guarda no caminho foram atropelados e desconheço se sobreviveram ou não a turba.

Quando saímos, víamos aquela multidão de immortuos correndo para os prédios. Muitas pessoas, em desespero, empurravam umas as outras na direção de nossos algozes. Nesse processo, os pais de Marcela morreram e Cássia e sr. Fábio também. Nós tínhamos ampliado o caos naquele condomínio, ainda não sei se foi a melhor coisa que poderíamos ter feito.

Corremos para onde estavam Evandro, Lúcia e Gustavo e adentramos nos carros. Alguns tiros rasparam em nossos veículos. Os líderes dos blocos estavam tentando, inutilmente, impedir que os “civis” fugissem; porém os imbecis estavam sim criando mais das criaturas.

Para parar nossa fuga já era tarde demais.

Contornamos um dos blocos para desviarmo-nos dos vivos e atropelamos vários immortuos para abrir caminho. Por terem entrado no condomínio, eles não mais formavam um bloco coeso, estavam mais esparsos, o que permitia que nós passássemos por eles, sem o risco dos carros pararem.

Fugimos daquele inferno. Só de lembrar daquela situação, me angustio com as possibilidades de futuro da raça humana nesse planeta devastado.

De lá fomos para o laboratório. Evandro retornou dois dias depois para resgatar Beto, que estava quase morto de inanição. Ele nos disse que ainda havia sobreviventes nos prédios, mas não deu detalhes.

Chegamos no laboratório naquela mesma noite e ficamos aliviados de perceber que, aparentemente, o local não havia sido invadido, além disso, vimos que a casa era (e ainda é) grande e segura, como a mini fortaleza de Evandro. Tem um pequeno portão que leva para a recepção e um portão maior da garagem no subsolo, de resto, um grande muro que impede a visão do laboratório. De fora, nem mesmo dá para imaginar o quão grande é esse local.

Evandro desceu do carro e eu tomei a direção. Dava para escutar ao longe os urros de alguns immortuos, o que nos dava calafrio e ansiedade para entrar logo no local e sentirmos novamente a sensação de segurança; faço questão de destacar a palavra sensação, pelo simples fato de que, como já havíamos percebido, segurança é algo ilusório hoje em dia, ou talvez sempre foi. O “nosso policial” tocou o interfone e foi rapidamente atendido; provavelmente havia sido visto pela câmera de segurança. O portão da garagem começou a abrir e entramos com os carros, enquanto Evandro entrou correndo a pé. Vimos alguns cães dentro da garagem com olhos vidrados, farejando o ar como se fossem immortuos à procura de carne viva. Temi por um momento por Evandro e percebi que ele também ficou um pouco apreensivo, mas não com os cães, e sim com o fato de que quando o portão estava se fechando, algumas criaturas se aproximaram e um deles conseguiu entrar.

Evandro tinha deixado a sua arma no carro. Pensei em atropelar os cães, mas eles eram rápidos e quando voltei a atenção a eles, já tinham sumido. Parei o carro e vi que Evandro estava descendo a rampa fugindo do immortuos e vi os cães correrem na direção de nosso colega. Em minha mente a imagem da morte de Evandro se formou instantaneamente e fechei os olhos. Estaríamos perdidos sem ele.

Porém Ricardo, impressionado, me chamou a atenção: “Olhe lá!”. Os cães estavam destroçando com ferocidade o immortuos que havia entrado. E Evandro estava descendo tranqüilamente a rampa, seguro de que estava a salvo. Fiquei impressionado. Aqueles cães pareciam estar infectados, mas ao mesmo tempo eles não queriam carne viva. Fiquei confuso.

Logo após devorarem o cadáver, os cães correram para o portão, rosnando e latindo, farejando histericamente os outros immortuos que estavam lá fora. Enquanto estávamos sem reação olhando aquela paisagem, um militar chegou pelo elevador e nos recepcionou: “Bem vindo, agente Paiva”. Olhei para o Evandro. Esse era seu nome verdadeiro, mas sinceramente, não me interessava. Eu estava ansioso por respostas.

Saímos do carro e continuamos atônitos olhando para os cães: “Evandro, por que aqueles cães ‘zumbis’ não te atacaram e atacaram o ‘morto vivo’?”, perguntei, mas a única resposta que Evandro me deu foi um gesto para que eu ficasse em silêncio. Entendi a situação e obedeci. Entramos no laboratório em silêncio. O militar nos levou junto aos outros civis; Evandro foi conversar com outros militares. Foi graças a essa primeira conversa que começamos, desde o início, a ter tratamento preferencial.

Sem a resposta, fiquei imaginando possibilidades do que seriam aqueles cães. Pensei que eles poderiam ter treinado aqueles cães para atacarem as criaturas, mas a aparência dos cães era diferenciada. Não só pelos olhos vidrados e pelo comportamento, mas eles pareciam ser mais musculosos, ou pelo menos mais tensos, e doentios. Eram aterrorizantes.

Todos estávamos abismados e cautelosos, tanto pelo que aconteceu no condomínio, quanto o que vimos na garagem do laboratório. Temendo não ser bem compreendido, não abri meu laptop até Evandro dar o aval; três dias antes de eu iniciar os posts aqui do laboratório.

Pelo menos aqui, a situação não é igual a do condomínio; ao menos não aparentemente. Mesmo tendo a divisão dos civis, eles estão menos aterrorizados, porém o medo ainda está lá, de forma diferente, pois aqui, há um olhar de paranóia entre eles.

Esse é o panorama geral e tudo que é necessário saber da retrospectiva. Amanhã falarei sobre o que vi hoje: o que são aqueles cães e o que os cientistas aparentemente fazem nesse laboratório.

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