15º Post

Acabamos de almoçar.

A enxaqueca está bem mais fraca, o remédio já fez efeito. Nem consegui terminar o último post, mas prefiro deixar daquele jeito a editá-lo. Só para finalizar a frase: “enfermidades causadas pelas mordidas das criaturas”.

Agora, antes que minha enxaqueca piore novamente, vou relatar o que vi no “Laboratório I: Bestia”.

Há dois setores no laboratório que visitei, que eram separados por um vidro fume com visibilidade do setor I para o II. O laboratório tem uma única porta e para passar de um setor para o outro, primeiro adentra-se o setor I, e através de uma outra porta, bastante segura, adentra-se no setor II. Nas placas do setores lê-se: Setor I: Bestia Infecta e Setor II: Bestia Immortuos. O que poderia ser traduzido para: animais infectados ou contaminados e animais “mortos vivos” (imortais) ou animais immortuos, respectivamente.

Isso já me causou uma certa surpresa, afinal, não seriam os animais immortuos a mesma coisa que animais infectados? Pelo que vimos, qualquer mamífero complexo (o que inclui o ser humano) que morre por qualquer causa, torna-se um deles, então efetivamente, não estariam todos contaminados? Seriam, portanto, os “Bestia Infecta”, animais vivos simplesmente? Todas essas questões surgiram em minha mente como um lampejo. Fiquei muito curioso com tudo aquilo.

Quando adentrei o primeiro setor, o cheiro lá dentro não era tão agradável quanto imaginei que seria; o lugar cheirava carniça, mas era tolerável. Era um local grande e havia jaulas com cães, gatos e sagüis, mas não dava para considerá-los normais. Tais como aqueles cães do estacionamento, eles tinham uma aparência doentia, em alguns pontos de seus corpos faltavam pêlos, seus olhos eram vidrados e avermelhados – não como efeito de cannabis sativa e sim como se tivesse tido um derrame – os poucos espaços “brancos” de seus globos oculares tinham cor amarelada. Seus músculos eram tensos o que dava a eles a aparência de serem maiores e mais fortes. Eles mostravam as presas para “alvos invisíveis” a quase todo momento, mostrando seus dentes amarelados e suas gengivas extremamente avermelhadas, agindo como se procurassem algo.

Perguntei a cientista “amiga” de Evandro o que era tudo aquilo. Ela explicou com cautela, sabendo que eu estava lá para adquirir informações e posteriormente publicá-las em meu arquivo. Não sei se ela me contou tudo, mas já são informações aterradoras o suficiente – e de grande importância para nossa sobrevivência – para se ter arquivadas no momento.

“Aqui no setor 1”, disse ela, “Estão os espécimes que denominamos comumente como contaminados”. Pedi, com uma certa ansiedade e arrogância, para ela explicar melhor isso, afinal, essa informação era dedutível pela própria placa do setor. Eis que ela, após sorrir para mim com um pequeno desafeto, provavelmente fruto de seu incomodo, respondeu: “Tenha calma, explicarei. É importante entender algumas coisas, Dr. Sales”, Evandro provavelmente tinha falado sobre mim a ela, “De certa forma, todos estamos ‘contaminados’, se pensarmos no fato de que qualquer um que morra, sem ter sua cabeça ou seu cérebro destruído, voltará como um immortuos. Porém, ao invés de vermos isso como uma contaminação, já que até o momento não conseguimos provar a existência de nenhum vírus ou bactéria nos seres vivos atualmente que causaria isso, optamos por definir esse fenômeno – erguer-se como um immortuos – como um efeito ‘natural’ da morte”.

Olhei com estranheza ao escutar aquele raciocínio. Percebendo isso a cientista retrucou meu olhar com palavras: “Isso é uma definição momentânea, até que tenhamos algo mais concreto com o que trabalhar, Dr. Sales”, em sua voz foi perceptível que seu incomodo aumentou, mas ela não se estendeu no assunto, “Esses animais estão contaminados com algum tipo de bactéria neuroestimulante, presente na ‘carne morta’. Alimentando-se de carne crua, não importa se veio de um immortuos abatido ou de um ser vivo abatido, eles desenvolvem uma espécie de histeria psicótica, além de um vício profundo por ‘carne morta’. A sua histeria é estimulada pela visão ou cheiro da fonte de seu vício – principalmente por immortuos, porém ainda não descobrimos o motivo disso – e a todo momento ficam em estado de vigília, procurando algo para saciar sua ‘fome’”.

Enquanto ela explicava, fiquei observando aqueles animais e eles pareciam realmente me ignorar. Arrisquei até mesmo a colocar minha mão próxima da jaula, bem na frente do focinho de um cachorro, e ele não reagiu de nenhuma forma diferente das reações “paranóicas” que estava tendo desde nossa chegada. Perguntei então: “O quanto isso é perigoso?”, e ela respondeu: “Depende para quem você está se referindo”. Fiquei olhando para ela esperando que ela complementasse, mas ela continuou em silêncio e começou a mexer em seu computador: “Venha ver isso”.

Gostaria de continuar a escrever agora, mas não estou em condições. A enxaqueca está voltando a ficar forte. Continuo mais tarde.

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