20º Post

Nunca senti tanto medo quanto estou sentindo agora. Esses caras não escondem só informações, mas escondem coisas desumanas e sórdidas. Evandro descobriu o que aconteceu com Ricardo, Beto e Sônia, e provavelmente o que aconteceu com todos os civis que sumiram até agora.

De madrugada ele veio me acordar para acompanhá-lo, pois queria me mostrar algo. Caminhamos pelo laboratório furtivamente, evitando todas as câmeras e vigias. Ele me levou a um corredor escuro, logo após o laboratório dos animais.

O clima daquele corredor já dava calafrios, mesmo sem eu saber o que iríamos encontrar. Caminhamos cautelosamente até uma porta que se encontrava em seu fim. Evandro deu três toques na porta e essa foi aberta vagarosamente e adentramos em uma espécie de sala de esperas de algum consultório médico. Havia um cientista lá dentro, com feição melancólica, como se não agüentasse mais a vida que levava. “Venham logo”, disse ele para nós.

Não tínhamos muito tempo. Ele explicou que o vigia voltaria em trinta minutos e havia muita coisa para eu ver; ele não citou Evandro, pois, provavelmente, o policial já tinha adentrado esse local. O cientista abriu a outra porta e foi quando tomei o choque: era mais um grande laboratório, porém, agora, ao invés de animais, havia “humanos”; se é que ainda dava para chamá-los disso.

Novamente o local era dividido em dois setores. “Setor 1: Infecta” e “Setor 2: Immortuos”, diziam as placas. “O que é isso?”, verbalizei minha indignação. Evandro respondeu: “Até onde ser humano é capaz de ir”, mas foi o cientista melancólico que realmente me deu uma resposta mais satisfatória: “Esse é o laboratório onde estudamos o fenômeno immortuos nos seres humanos”.

No setor onde estávamos havia pessoas com características semelhantes aos Bestia Infecta: com musculatura tensa, aparência doentia, olhar vidrado, olhos vermelhos como se tivessem tido um derrame e atitudes de fissura, como se tivessem constantemente procurando por sua “droga”. Eles nos ignoravam quase completamente.

Não me conformava com o que estava vendo e questionei: “Quem fez isso com eles?”, mas minha questão ficou sem resposta verbal. O cientista melancólico abaixou a cabeça em sinal de vergonha, provavelmente ele se sentia, pelo menos, cúmplice de tudo aquilo, portanto, deduzi que aqueles ‘Infecta’, foram criados naquele laboratório. “Vocês são desumanos!”, não me contive.

O cientista foi até a porta do setor 2 em silêncio. Ao tocar a maçaneta ele olhou para mim e disse: “Achei que estávamos pesquisando uma cura, mas não é bem isso que está acontecendo”, ele olhou para Evandro que acenou negativamente com a cabeça, o cientista voltou a olhar para mim, “Não há cura a ser encontrada”, disse ele abrindo a porta do setor 2.

Percebendo que ele e Evandro estavam escondendo algo de mim, me irritei e gritei, para sobrepor a balburdia que estava ocorrendo nos dois setores, pois tanto os Infecta quanto os Immortuos rosnavam e urravam histericamente: “O que vocês estão escondendo de mim?! Estamos correndo risco nesse lugar! Exijo saber o que está acontecendo!”. Evandro me encarou com seu olhar psicopata, eu gelei, mas ainda assim mantive a pose de indignado. “O que está acontecendo aqui, já está acontecendo a muito mais tempo do que você imagina. Porém, agora, em proporções bem maiores do que suspeitávamos que algum dia ocorreria”. Senti um calafrio por toda a espinha. Aquilo não respondia muita coisa, mas eu estava com medo de saber mais.

O cientista pediu para que eu me aproximasse da porta do setor 2, onde vi Ricardo, Beto e Sônia desmortos em uma mesma jaula. Senti minha pressão cair. Olhei para Evandro encolerizado e ele simplesmente balançou a cabeça, como que se dissesse que não sabia o porquê eles estavam lá.

Olhei para as outras jaulas e vi mais immortuos em situações diferentes. Alguns estavam em estado de decomposição e lentos, outros aparentemente imóveis, enquanto outros com aparência próxima a de um ser vivo. As grades das jaulas daqueles que estavam em processo de decomposição avançado eram mais fortificadas. Em uma das jaulas havia um immortuos com marcas de decomposição, mas com atitudes diferentes das dos demais. Seu olhar era astuto, mesmo que leitoso, parecia que ele observava e analisava as coisas; bem semelhante àquele que vi na loja de eletrônicos.

Mesmo com tudo isso, não consegui elaborar perguntas. Agora que estou escrevendo estão surgindo um monte, mas na hora simplesmente pedi para Evandro me tirar dali. Ele concordou com uma certa relutância e disse: “As informações que existem aqui podem ser importantes, mas você não está em condições de coletá-las”, vendo meu olhar chocado com tudo aquilo e com muito medo, pois me aterrorizava o pensamento de que uma hora ou outra seria eu e meus outros amigos naquelas jaulas, ele complementou, “Arrume suas coisas e peça para seus amigos fazerem o mesmo. Iremos embora o mais rápido possível”.

Terminei de juntar minhas coisas um pouco antes de começar a escrever esse post. Agora estou esperando. Acho melhor fazê-lo com o laptop guardado.

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