21º Post

Fazem quatro dias que não escrevo nada e muitas coisas perturbadoras ocorreram. Como disse no meu último post estávamos esperando o sinal de Evandro para fugirmos daquele laboratório.

O sinal veio. Conseguimos fugir. Uma fuga tortuosa, sanguinolenta e cruel.

Vou tentar resumir esses quatro dias que se passaram mais para contextualizar, pois como é um arquivo de sobrevivência creio que há poucas informações novas contidas neles; a conversa que tive com o Evandro, aqui na casa onde nos alocamos, é de maior importância no quesito sobrevivência. Porém, tem um questionamento que martela minha cabeça desde que saímos do laboratório: Para sobreviver, devemos realmente sacrificar tantas pessoas? Sei que Evandro nos salvou, guiando nossas ações em vários momentos, porém, pensando em retrospectiva, talvez estejamos agindo de forma equivocada.

Contextualizarei a fuga nesse post. Creio que ficará claro de onde surgiram esses questionamentos, principalmente se nossa fuga do laboratório for comparada à que tivemos do condomínio; post do dia 20/04/2011.

Enquanto aguardávamos o sinal, Evandro conversava com Gustavo, para que ele preparasse veículos para a nossa fuga. Não sabíamos ainda o que Evandro pretendia fazer, mas todos estávamos de acordo em sair dali, afinal, eu já tinha espalhado as informações sobre os experimentos que estavam fazendo com humanos no laboratório para todos do grupo; e principalmente qual era o paradeiro de Ricardo, Sônia e Beto. Além disso, todos confiávamos em Evandro, mesmo temendo-o.

Quando Gustavo retornou, ele nos deu algumas coordenadas superficiais sobre o plano de Evandro. Pediu para que eu conversasse com os outros civis assim que encontrasse uma brecha e dissesse a eles para se prepararem para fugir dali. Se fosse necessário, ele liberou que eu contasse o que vi naquele laboratório.

Assim que os vigias nos deram uma trégua, conversei com aqueles que pareciam ter maior influência no grupo dos “civis”; o complicado de ficar dividindo as pessoas em grupos, é que isso nos distancia delas, ficou ainda mais comprovado isso com as experiências que tivemos desde que tudo aconteceu. Eles me escutaram com atenção e pareceram determinados a fugir conosco, mesmo que temerosos, já que o local era mantido por militares armados.

Voltei para o meu grupo e aguardamos. O sinal veio ao entardecer não como eu esperava – da boca de Evandro – mas como um alarme soando dentro do laboratório. Os vigias ordenaram que não saíssemos da área em que estávamos, ou seja, da área dos civis, e foram até a porta ver o que estava acontecendo. Ouvíamos gritos e tiros no laboratório, o que nos aterrorizava. Sem mais delongas agimos como estava no plano de Evandro, porém desde o começo as coisas começaram a dar errado.

Eu me aproximei para ver o que estava acontecendo e criar uma situação de discussão com os vigias. Estava sendo bem sucedido, mesmo com muito medo, não só daquilo que estava ocorrendo, mas também da tensão na qual o vigia se encontrava. Lúcia e Gustavo se aproximaram dos vigias furtivamente, porém, não foram tão furtivos quanto deveriam. Um dos vigias virou-se para atirar neles e Lúcia reagiu, desviando a arma do vigia – um fuzil – que atingiu outras pessoas. Lúcia conseguiu atingir dois golpes de sua arte marcial no militar que caiu desacordado, ela era realmente forte. Gustavo e eu agarramos com dificuldade o outro militar, um garoto de no máximo 20 anos, e conseguimos desarmá-lo também, porém o problema já fora causado.

Com as armas dos militares em mãos, ouvimos gritos vindo das pessoas na sala. Carla e Marcela se juntaram a nós rapidamente, seguidas pelos outros civis, que corriam aterrorizados. Consegui ver dois vultos agarrando um homem que caiu ao chão e teve partes de seu corpo devoradas. Lúcia ordenou que todos saíssem da sala e fossem para o corredor, mas escutávamos gritos de lá também. O caos havia se instalado no laboratório.

Fui o primeiro a sair com o revolver que peguei do vigia – o fuzil ficou com Gustavo – e assim que vi a situação do corredor, já tive que usar a arma. Um militar, por reflexo, atirou na minha direção, por pura sorte ele não me atingiu e eu atirei nele. Não, não o acertei, mas ele percebeu que eu não era um immortuos e gritou: “Pare com isso! O que você está fazendo com uma arma? Volte para sua área que é mais seguro!”. Respondi que havia immortuos na nossa área e que os vigias haviam sido mortos por eles; os dois vigias ainda estavam vivos, mas um deles, provavelmente só acordaria quando estivesse sendo devorado. Ele então gritou: “Então corra até aqui!”.

Quando o último civil conseguiu sair da nossa área, corremos em direção do militar. Ele estava só no fim do corredor que se bifurcava. Haviam portas trancadas, que preferi não saber o que continham. Quando chegamos próximo dele, seu olho esquerdo estourou, quando uma bala atravessou sua cabeça. Todos paramos e recuamos momentaneamente, mas para nossa sorte era Evandro. “Por que você fez isso?”, perguntei a ele, que me respondeu friamente: “Por que ele queria usá-los como isca para conseguir chegar até seu pelotão”. Não sabia como estava a situação, portanto não o questionei, mesmo duvidando das palavras dele, apenas o acompanhamos quando nos chamou, porém a merda estava feita.

Um dos civis pegou a arma do militar morto e gritou para Evandro: “E como saber se vocês não estão querendo nos usar como isca também? Por que confiaríamos em vocês, que tiveram tratamento bem melhor que o nosso em menos tempo de estadia?”. Lúcia tentou acalmar o homem, mas esse não a escutava. Quando ela se aproximou para desarmá-lo, a nuca dele estourou, Evandro “O Psicopata”, havia agido novamente. Lúcia olhou para ele indignada e ele disse: “Não se preocupe com peso morto, temos que sobreviver”, porém nem ele, nem qualquer um, viu que outro civil, horrorizado com o que estava presenciando, pegou a arma do homem que Evandro executou e atirou gritando: “Vocês são loucos!”. Ele não tinha a mínima idéia do que estava fazendo, e antes que Evandro o executasse, ele atingiu três pessoas aleatórias, duas pertencentes ao seu “grupo de amigos”, uma pertencente ao nosso: Lúcia.

A cena me paralisou. Estava chocado e incrédulo. Podia ter alguns desentendimentos com ela, mas eu a respeitava muito. Muita de nossa – ou melhor, da minha – esperança de sobrevivência estava depositada nela. Fiquei sem reação, apático, olhando para tudo aquilo como se fosse um filme. Porém, isso foi muito mais do que apenas uma cena triste, foi um grande azar. Dos três atingidos, apenas Lúcia teve um ferimento fatal fulminante, o tiro a atingiu na área do coração, provavelmente estourando ele. Os outros dois foram atingidos no abdômen.

Ela caiu no chão, ensangüentada, sem tempo de dizer nada. Evandro estava longe, mas percebeu exatamente o que acontecera e tentou se aproximar, provavelmente com a intenção de estourar a cabeça de nossa colega. Entretanto, a multidão estava polvorosa, gritando e empurrando qualquer um no caminho. Lúcia levantou rápido e o desespero de todos se ampliou, principalmente o nosso, pois sabíamos que mais do que um mero immortuos, tínhamos que lidar agora com uma desmorta capaz de nocautear o Mike Tyson com um soco. Exageros a parte, a força dela, como já disse, era realmente impressionante.

Eu a vi atordoando três pessoas com pancadas e estraçalhando o pescoço de uma quarta, em poucos segundos. Comecei a sentir desespero e olhei ao meu redor, vi Evandro se movimentar sendo seguido pelos meus outros companheiros e sem pensar duas vezes fiz o mesmo, abrindo espaço no meio de todas aquelas pessoas. Por máximo que o cara tivesse um sério perfil de psicopata, ainda assim nós dependíamos dele; e, sinceramente, não vou dizer que tive qualquer pensamento altruísta naquele momento, queria apenas sobreviver.

O reboliço todo atraiu alguns immortuos para aquele corredor. Vimos os outros civis se desesperarem ainda mais. Nós também estávamos aterrorizados, mas tínhamos um guia que sabia o que fazer.

Evandro abriu uma das portas do corredor no qual escolhemos correr. Fomos parar na cozinha, que dava passagem para o elevador. Porém, ao abrirmos a porta que nos levaria ao elevador, nos deparamos com alguns cientistas. “Agente Paiva?”, disseram eles. Evandro respondeu um mero “sim” e continuamos, agora acompanhados pelos cientistas. Eles estavam segurando cães, Bestia Infecta, com coleiras. Marcela, Carla e Gustavo estranharam aquilo, mas não disseram nada.

Adentramos o elevador. “Preparem-se”, disse Evandro, apontando o revolver para a porta. “Preparem-se pra que?”, Carla perguntou, mas a resposta veio quando a porta se abriu. Achei que Evandro já tinha mostrado todas as suas cruéis artimanhas, mas sempre há surpresas vindas do diabo, não é mesmo?

Assim que a porta do elevador se abriu, fomos surpreendidos pela presença de alguns militares que também se preparavam para fugir. Não daríamos conta de todos, mas eles também foram pegos de surpresa. Evandro, sagazmente, percebeu quais eram as maiores ameaças para nós no momento e atirou em suas gargantas. Eram quatro. Sim, ele não estourou o cérebro deles. E logo saiu dizendo para acompanhá-lo. Nos escondemos atrás de um carro enquanto os militares atiravam em nós. Um dos cientistas que estava com os cães, foi morto pelos militares e os cães escaparam.

Eles farejaram os quatro militares mortos, que estavam se levantando para atacar seus companheiros, e foram se alimentar. Vendo aquilo, nosso “agente do manicômio” pediu para os outros cientistas soltarem os cães também. Quando os Bestia infecta se aproximaram dos militares, Evandro com precisão atirou nos cães, atingindo seus peitos – provavelmente o coração – e esses levantaram segundos depois como bestia immortuos, já atacando os militares.

Os outros cães contaminados do estacionamento correram para pegar suas presas e os militares estavam sem saber o que fazer, perdidos em meio a confusão. Aproveitando esse momento, entramos na pickup preparada por Gustavo e abrimos o portão.

Fugimos.

Alguns tiros rasparam em nosso veículo, mas nada significativo. Os militares não nos seguiram, pois o mecânico havia sabotado a maioria dos outros automóveis. Ao sair da garagem a ficha caiu: Evandro tinha planejado que sairíamos apenas nós daquele laboratório.

Mesmo sobrevivendo, meu coração se apertou.

Eu me sinto culpado por todas aquelas mortes.

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    • Luiz Paulo
    • 28 de abril de 2011

    Aaaaaaah, eu gostava tanto da Lúcia… hahahha.

    Evandro é foooooda! \m/

  1. heheheh

    Em duas Pequenas Histórias que estão para ser postadas, Lúcia tem papel central :) Acho que vc vai curtir.

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