22º Post

Fui comer algo. Hoje é o dia de nos alimentarmos. Nessa casa onde estamos, pelo pouco suprimento que temos, estamos comendo dia sim e dia não, enquanto planejamos como sair dessa situação.

Após sairmos do laboratório viajamos pelas ruas de Campinas procurando algum local que parecesse suficientemente seguro. Encontramos uma residência em uma das ruas do Castelo, onde não tinha immortuos por perto; ou pelo menos aparentemente não tinha. Não comemos no dia que chegamos, não pela falta de suprimentos, mas porque ninguém realmente estava com estômago para fazê-lo.

No dia seguinte fizemos uma reunião para definir como sobreviveríamos e quais seriam nossos próximos passos. Optamos por nos alimentar nesse segundo dia e a partir daí, nos alimentaríamos (apenas almoço) a cada dois dias. Outra decisão que tomamos foi nos preparar para uma possível viagem, portanto, precisávamos de: combustível, alimentos, peças e ferramentas para eventuais concertos que teríamos de fazer e armas. Dessa vez Evandro não me levou em nenhuma das buscas. Ele optou por levar Carla, Marcela, Gustavo e os cientistas – divididos entre as buscas – a fim de que esses aprendessem a lidar melhor com situações de risco.

Eles conseguiram a maior parte do que precisávamos, porém ainda temos problemas com alimentos. Creio que hoje decidiremos o que fazer. Evandro e Marcela foram fazer mais uma ronda para procurar alimentos, assim que eles chegarem iremos fazer uma reunião de planejamento a respeito de nossos próximos passos.

Ontem, quando Evandro e Gustavo chegaram da bem sucedida busca por ferramentas, o policial veio conversar comigo. Ele percebia que sua presença estava me incomodando muito ultimamente, mas parecia não se importar.

“Dr. Sales, precisamos conversar sobre as experiências com humanos que você testemunhou”, disse ele com seriedade, “Tirei você de lá, pois percebi o quão emocionado estava, mas agora o senhor precisa agir como um cientista”. Olhei para ele com um certo asco: “Se você precisa de cientistas, temos três além de mim”, retruquei com rispidez. Ele deu de ombros, nem mesmo me ameaçou com o olhar.

“Você está preocupado com a nossa sobrevivência como seres humanos nesse mundo devastado, eles não. Estão apenas preocupados, inutilmente, em se sentirem seguros”, respondeu ele, “Preciso conversar com você”, finalizou incisivamente. Olhei com espanto para seu rosto. Aquelas palavras me confortavam de certa forma, mesmo me mantendo inseguro em relação às atitudes dele.

“Certo. Vamos conversar então”, respondi para Evandro que começou a falar sobre vários dados que estavam naquele laboratório, dados muito importantes para o arquivo.

Iniciarei pela “classe” dos infectas.

Os cientistas do laboratório tinham feito comparações deles com os bestia infecta e descobriram que na base comportamental, não havia diferença. O que diferenciava, não só os infectas dos bestia infectas, mas também uma espécie de animal para outra, era a forma de agirem, que eles mantinham um pouco (bem pouco) das atitudes de sua espécie. Um gato contaminado, por exemplo, não costuma atacar direto com mordidas, mas iniciaria arranhando seu alvo, para depois agarrá-lo e ai sim mordê-lo. Algo semelhante a essa informação foi observado no primeiro vídeo do espécime 28.

Já, os infectas, talvez pela ancestralidade primata da nossa espécie, costumam usar bastante a mão em confrontos. Algo que foi observado também no comportamento dos immortuos, que costumam agarrar antes de morder. Porém, ambas as “classes” não só agarram, mas também são adeptos da pancada, principalmente os immortuos. Os Infecta, preferem mesmo agarrar, creio que isso seja algum conhecimento instintivo que eles possuam a respeito de seus principais alvos. Um immortuos é capaz de atordoar um ser vivo ou fazê-lo sentir dor, um ser vivo não é capaz de fazer isso a um immortuos.

Outros pontos importantes são: eles perceberam que a tensão muscular nos infectas realmente os deixam mais fortes e que um ser humano seguia o mesmo padrão de tempo de infecção dos outros animais quando deixavam de ser alimentados por carne crua ou mal passada: seu estômago e intestino infeccionam e eles demoram entre 30 minutos a 3 horas para falecerem, dependendo de sua idade, peso e tamanho. Caso um infecta venha a falecer por outras causas, eles demoram entre 1 a 30 segundos para ressurgir como um immortuos, metade do tempo de um não infecta; na prática isso não faz tanta diferença, ambas transformações são extremamente rápidas.

Os infectas – tais como os immortuos – possuem os sentidos apurados, principalmente visão e olfato, enquanto os immortuos possuem principalmente o olfato/paladar (explicarei isso mais a frente) e o tato apurados.

Porém, apesar disso tudo, havia uma desvantagem em relação aos immortuos: os cientistas não catalogaram nenhum infecta, até o momento, que manteve sua inteligência, capacidade de dedução, etc, nem parcialmente. Não havia nenhum “Marcos” entre eles.

Por questões estratégicas, até o momento, era mais útil a utilização de bestia infectas em combate do que humanos, por causa das vantagens fisiológicas; essa observação foi feita pelos militares em um dos relatórios pego por Evandro.

Sobre os immortuos, algumas coisas interessantes foram descobertas.

Evandro me explicou o que eram aqueles diferentes immortuos das jaulas, o porquê alguns estavam em estados diferentes de decomposição e assim por diante.

Catalogarei de forma estruturada:

1 – Alimento e decomposição:

Os immortuos precisam se alimentar de “carne viva” uma vez a cada duas semanas aproximadamente; esse período varia um pouco de acordo com o tamanho da criatura. Caso não o faça, o processo de decomposição se inicia como em um cadáver normal, se estancando assim que ele se alimentar novamente, iniciando-se de onde parou se ele deixar de se alimentar novamente pelo mesmo período. Isso é assustador, afinal, essas criaturas são capazes de “viver” por tempo indeterminado enquanto conseguirem se alimentar.

Caso eles cheguem a ter rigor mortis, que começa 3 a 4 horas após o período de falta de alimentação, e tem seu efeito máximo 12 horas depois cessando apenas 36 horas mais tarde, eles basicamente ficam sem movimento. Importante ressaltar que essas medidas de tempo são variáveis e aproximadas. Durante o efeito moderado, o immortuos fica mais forte e resistente devido a tensão muscular, porém mais lento, duro e sem coordenação motora. No efeito máximo do rigor mortis, o immortuos simplesmente fica paralisado até o relaxamento completo, que vem quando o rigor mortis cessa; nesse ponto o immortuos volta a ter a velocidade e agilidade de antes e também a resistência e força anterior.

Por fim, quando os immortuos vão se decompondo a níveis extremos, seus músculos vão se endurecendo e tencionando novamente. Eles voltam a ficar mais resistentes e fortes, porém, lentos e estabanados.

2 – Percepção:

A maioria deles é cega, porém nem todos. Aqueles que não são, possuem uma percepção visual limitada; é o único sentido defasado deles. Porém, mesmo a maioria deles sendo cegos, seu olfato/paladar, sua audição e principalmente seu tato, permitem que eles se locomovam sem problemas.

Questionei como eles sentiam cheiro e emitiam sons sem respirar, Evandro respondeu: “Pelo que os cientistas perceberam, essas duas funções não possuem grande relação. Eles emitem sons como forma de intimidação e para isso forçam a respiração, tanto que aqueles que não possuem pulmões, são bastante silenciosos. Por outro lado, o olfato deles sofre uma alteração, que o conecta ainda mais ao paladar, os aromas que flutuam no ar tocam seus canais olfativos e suas bocas semi-abertas, e eles ‘saboreiam o cheiro’”.

“Eles se reconhecem pelo cheiro?”, questionei e ele me respondeu: “Pelo que os cientista descobriram, não. Porém, não conseguiram entender como eles se identificam”.

Fiquei ainda mais impressionado com as respostas. Porém, após isso, Evandro veio com uma boa notícia: “Descobriram que algumas substâncias confundem seus olfatos e eles estavam estudando possíveis bombas de gás para ajudar em nossa sobrevivência, mas ainda não tinham finalizado os estudos”.

3 – Destruição:

Já a respeito de como destruí-los, os cientistas não obtiveram nenhuma descoberta nova, infelizmente. Continuamos com o velho: destrua o cérebro, não importa a forma.

4 – Inteligência:

Por fim, sobre o immortuos semi-inteligente, eles não conseguiram descobrir o que os diferenciava fisiologicamente para que alguns desenvolvessem uma inteligência parcial. Na verdade, eles nem mesmo sabiam se essa inteligência parcial poderia ser adquirida posteriormente – algo como Bub no Dia dos Mortos – ou se era apenas algumas pessoas que surgiam como immortuos já com essa faculdade mental diferenciada.

Perguntei para Evandro a quanto tempo aqueles testes eram feitos e ele me respondeu: “Antes de tudo ‘começar’”. Sabia que aquilo estava estranho, mas descartei a possibilidade daquele fenômeno ter se iniciado no Brasil, principalmente em Campinas. “O que você sabe sobre isso?”, questionei.

“Que essas coisas existem há muito tempo. Que temos relatos que remontam à antigüidade”, Evandro me olhava friamente enquanto respondia minha pergunta, aquilo me aterrorizou, tanto a resposta quanto o olhar. Além de terror, minha feição denotava dúvida, e eis que sem perguntar, Evandro me contou: “Eu os caço há vinte anos. Quando surgiam uns ou outros perdidos por ai. Era algo relativamente raro”.

Após conseguir digerir parte da informação, perguntei: “E o que aconteceu?”.

Evandro sorriu. Foi a primeira vez que o vi sorrir espontaneamente, sem parecer forçado: “Eu não sei. Creio que ninguém sabe. Uma semana antes de tudo se espalhar, os índices de ocorrência começaram a aumentar. Nos perdemos agindo para que aquilo não vazasse achando que teríamos tempo para erradicar a ‘doença’, mas não foi possível. Em uma semana, uma estimativa aproximada de um a cada um milhão de falecidos se tornar um immortuos, caiu para um a cada duzentos mil falecidos, e na outra semana já tinha caído de um pra um”.

Fiquei em silêncio, assustado e pensativo. Evandro saiu do cômodo onde estávamos sem dizer mais nada.

Anúncios
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: