24º Post

Deu tudo errado. Impressiona-me ainda ter sobrevivido nós quatro do grupo. Era uma multidão deles. Tentamos salvar Carla, mas acabamos piorando a situação. Foi horrível.

Isso aconteceu no caminho para o Laboratório Médico, relatarei sobre isso, mas não darei grandes detalhes. Esse relato não acrescenta muito para o arquivo de sobrevivência, talvez só o fato de que os immortuos também são imprevisíveis; e os infecta são incontroláveis.

Estávamos no tapetão a caminho para a base de sobreviventes. Estava chovendo naquela manhã e a pista estava escorregadia, talvez pelo sangue se diluindo na água, ou algo do gênero.

Estávamos próximos da bifurcação para Barão e Paulínia. Quando vimos um grupo de muitos – não consigo nem ter idéia de quantos, immortuos vindo de Barão. Paramos o carro e manobramos para retornar. Pensamos em algum outro caminho, mas nada vinha em mente.

Tomando novamente o tapetão, aceleramos o máximo que podíamos, pois aquele grande grupo de immortuos corria atrás de nós com ferocidade. Estávamos muito rápido, já vendo as criaturas ficando para trás, quando fomos surpreendidos por outro grande grupo que saiu do matagal, como em uma tática de guerrilha, justamente no momento certo para formarem uma barreira em nosso caminho.

Aquilo foi surpreendentemente assustador. Eles não eram inteligentes. Não entendíamos o que estava acontecendo. Acredito que todos estávamos questionando o que significava aquilo, mas ninguém verbalizou alguma pergunta, simplesmente porque não deu tempo. Evandro, tentando evitar que colidíssemos com a barreira de mortos, virou com tudo o volante e capotamos.

O policial conseguiu sair com facilidade, Marcela idem. Eu e Carla tivemos um pouco de dificuldade na hora de sair, mas foi Gustavo e os três cientistas – Fernando, Kátia e Alessandra – quem tiveram mais problemas para sair. Evandro estava bem armado e começou a atirar nos immortuos. Eu e Carla nos arriscamos a fazer o mesmo, enquanto Marcela ajudava aqueles que ainda estavam no carro.

Quase todos conseguiram sair; faltavam apenas Fernando e Alessandra. Os immortuos estavam quase em cima de nós quando Alessandra se safou, mas, infelizmente, Fernando não.

Alguns immortuos pararam para se alimentar de nosso companheiro, mas nós não paramos. Corríamos o máximo que podíamos, a fim de nos distanciarmos daquelas criaturas.

Não poderíamos voltar na estrada, portanto tivemos que correr para o mato até encontrarmos algum lugar seguro para nos abrigar; o que possivelmente iria demorar, pois estávamos longe de alguma área residencial. Pensei em tacar fogo no mato, mas com aquela chuva, seria inviável. Então, tudo que podíamos fazer era correr.

Tomamos uma boa distância deles, mas infelizmente alguns immortuos, os mais rápidos do grupo nos alcançaram e pegaram Carla. O positivo era que não eram muitos, portanto conseguimos dar cabo neles, mas não antes dela ser mordida.

“Eu daria de meia à uma hora para você se transformar. O que você quer?”, disse Evandro em uma atitude totalmente diferente da normal. Em outra situação ele simplesmente meteria uma bala na cabeça dela e voltaria a correr como se nada tivesse acontecido, e assim que parássemos, ele pediria uma desculpa, por formalidade, para o familiar, Gustavo. “Eu não quero morrer!”, disse ela. Ele a levantou e gritou para nós: “Então corram!”, se abaixando e tirando uma faca do cinto. Com ela, ele cortou com facilidade uma fatia do braço de um dos immortuos que acabamos de destruir, levantou-se e correu. Ele corria rápido e logo nos alcançou. Carla ficou um pouco para trás, mas como estava desesperada, corria bem mais rápido do que antes.

Alguns de nós estávamos perdendo o fôlego e a velocidade estava diminuindo. Evandro pediu para que ninguém além dele atirasse, temendo que atingíssemos algum membro de nosso grupo a toa. Ele atirava enquanto corria, mas infelizmente, era difícil acertar a cabeça naquela situação, porém conseguiu derrubar um ou outro.

Nessa fuga, perdemos Kátia, que acabou ficando lenta e caindo ao chão, mas conseguimos nos distanciar deles com uma ação quase suicida. Passamos por dentro de um posto de gasolina na estrada, que felizmente não estava destruído. Sabendo que Marcela fumava, Evandro pediu para que ela deixasse seu isqueiro aceso – não sei o nome desse tipo de isqueiro, mas era daqueles que tem uma tampa e fica com fogo constante até que a tampa seja fechada – no centro da área coberta. Ela assim o fez e continuou correndo.

Quando os immortuos se aproximaram do posto, Evandro atirou nas bombas de gasolina, sem parar de correr. Os combustíveis começaram a vazar, espirrando para todos os lados. Não sei exatamente como se deu a combustão, poderia dizer que algumas gotículas passaram perto do fogo e esse se alastrou, mas soaria falso demais, já que eu estava preocupado em correr e não observar o que estava acontecendo com nossos perseguidores. Sei apenas que senti o calor da explosão e do incêndio quando o combustível entrou em combustão.

Continuamos correndo. Carla começou a ficar mais para trás, provavelmente pela dor que sentia. Evandro foi até ela e a fez comer a carne que havia retirado do immortuos abatido. Ainda tinha algumas criaturas nos seguindo, mas o grupo já estava bem menor.

De início Carla se recusou. Evandro a olhou seriamente: “Então fique e seja devorada”, dentro dessa perspectiva ela resolveu arriscar, mas assim que comeu, as reações começaram a surgir. Ela voltou a correr um pouco, mas logo parou para ajoelhar e vomitar. Assim que se levantou, seus olhos já estavam vidrados.

Gustavo correu até ela junto com Evandro, discutindo com ele. Perguntando, desesperado, o que ele tinha feito. Evandro respondeu simplesmente que deu a ela uma chance de sobreviver. Porém, a chance era pequena, pois assim que olhou para trás e viu o bando de immortuos, ela tentou correr em direção a eles, mas foi derrubada por Evandro. “Precisamos fugir!”, gritava ele nos ouvidos dela, mas o que era esperado ocorreu, ela o ignorou, levantou-se novamente, derrubou ambos os homens que tentavam impedi-la e correu para o bando de immortuos.

Não sei quanto tempo ela durou. Sei apenas que corríamos o máximo que ainda conseguíamos. Gustavo, mesmo inconformado, corria também. Estávamos exaustos quando, de volta ao tapetão, encontramos um condomínio de escritórios. Nos trancamos em um deles e ficamos por lá. Cansados, com câimbras, dores musculares diversas e para deixar tudo ainda mais complicado: eu e Gustavo ficamos com febre. Evandro, assim que amanheceu o outro dia, já não estava conosco. Ele deixou um bilhete dizendo: “Alguns lobos devem sobreviver sozinhos”, senti culpa naquelas palavras.

Nos dias que ficamos lá, passando fome e fedendo, não quis ligar meu laptop – sim, eu estava agarrado com a mochila quando o carro capotou – preferi tentar ajudar meus amigos a se recomporem.

Saímos de lá ontem e chegamos nessa residência onde nós estamos. Tivemos que matar dois immortuos que estavam presos dentro da casa, em avançado estado de putrefação. Provavelmente não se alimentaram desde que tudo começou.

Comemos algumas comidas em conserva que ainda estavam dentro da validade e repousamos. Durante a madrugada fiquei acordado, refletindo sobre tudo aquilo que passamos. Aqueles immortuos agiram estrategicamente, porém nenhum deles parecia ser dotado de inteligência. Como aconteceu isso? Será que eles haviam sido adestrados por algum ser inteligente? As possibilidades me incomodam muito.

Não sei o que será de nós sem carro, sem comida, com poucas armas e munições, sem alguém que saiba atirar, sem energia elétrica, e sem o Evandro e a Lúcia. Marcela está subnutrida. Gustavo ainda está em luto e passa a maior parte do tempo “distante”. Alessandra está quase em choque.

E eu? Bem, eu simplesmente não sei mais o que fazer.

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