Sobrevivência

Os gritos abafam os sons das sirenes, enquanto uma chuva forte começa a cair deixando as calçadas escorregadias. Cada passo é instável e inseguro, mas o medo faz com que os corredores se esforcem ao máximo para manter a velocidade e o equilíbrio. A queda deles significaria a aproximação dos mortos vivos e possivelmente uma dolorosa morte para os fugitivos.

Sem olhar para trás, Sônia e Beto se mantêm com dificuldade em seus ritmos de corrida em direção a rotatória conhecida como Balão do Bela Vista, pois é lá que Ricardo disse que esperaria eles com seu carro. Mesmo ambos estando na mesma situação árdua, fugindo do bando de cadáveres famintos, a idade e agilidade de Beto lhe dão grandes vantagens, o que lhe faz tomar a dianteira.

Sônia vê Beto se distanciar enormemente e entra em pânico. Por reflexo ela olha para trás e percebe o quão próximos dois de seus perseguidores estão. Sônia sente um desconforto descendo para a altura de seu abdome, suas pernas começam a fraquejar e uma pressão na garganta a incomoda enormemente, fazendo-a chorar enquanto cai no chão, sentindo sua esperança despedaçar e o mundo escurecer ao fechar os olhos em atitude submissa aos seus algozes que se aproximam. Ela nem mesmo escuta os gritos de Beto chamando-a, incentivando-a a correr e lutar por sua sobrevivência. Acreditando que está tudo acabado, Sônia começa a rezar quando escuta dois baques secos seguidos, e um líquido viscoso atingir seu rosto junto com as fortes gotas da chuva.

– Levanta! – ela escutou enquanto sentia uma mão forte lhe colocando de pé. Sônia abre os olhos e se surpreende ao ver uma mulher loira e vigorosa, mas ainda assim uma mulher, a sua frente. Com aquela força e firmeza que havia sentido ela pensou que, com certeza, estava sendo salva por um homem.

– Obri…

– Corre logo! – Lúcia grita, empurrando-a. Sônia quase perde o equilíbrio, mas consegue se firmar e correr. Mesmo com a fraqueza e o cansaço ainda lhe atrapalhando, ter sido salva lhe deu um novo ânimo.

Lúcia a acompanha, quase lado a lado, mas um pouco mais atrás. Diferente de Beto, ela não tenta tomar a dianteira, pois sabe que aquela mulher que acabara de salvar, não sobreviveria nem mais alguns segundos.

Sônia, ainda temerosa, tenta olhar para trás:

– Olha para frente! – repreende Lúcia com firmeza – Ignore-os!

A frente esta o Balão do Bela Vista, por onde cruza a Avenida Norte e Sul. Nela há vários carros parados, que já davam para ser visto. Pessoas correm de um lado para o outro, fugindo de alguns poucos cadáveres, sem saber o que fazer ou para onde ir. Lúcia não se surpreende ao ver aquilo, afinal, ela deixou seu carro mais a frente na avenida e se esgueirou pelas ruas para longe da multidão que se encontra mais adiante.

– Estou indo para a casa de uma amiga aqui perto. – diz Lúcia, sem nem mesmo perder o fôlego, o que surpreendeu ainda mais a exausta Sônia. – Para onde vocês estão indo?

– Pra… Encon.. trar… com… o… Ricardo…. aqui no… Balão… – se esforça para responder Sônia enquanto se aproximam de Beto, que está as está esperando na esquina.

– Corram mais rápido! – grita Beto, assustado com a aproximação daquelas outras criaturas.

Ao chegarem na rotatória, elas vêem que ainda há bastante pessoas vivas, o que de certa forma, trás uma inocente sensação de contentamento à Sônia. Aquele pensamento lhe dá mais vontade de sobreviver o que a ajuda a retomar muito de seu fôlego. Elas aceleram a corrida, e passam por Beto chamando-o a juntar a elas.

Ao perceberem que o bando de mortos havia se dissipado ao chegarem na rotatória, por causa da maior opção no cardápio, o trio dá uma pausa para respirar.

– Então, para onde vocês vão? – pergunta novamente Lúcia, percebendo a aproximação de um morto vivo. Antes de seus novos companheiros responderem, ela corre em direção ao cadáver ambulante e quebra-lhe a cabeça com uma porrada de seu taco de bets. Logo em seguida retornando próxima aos dois. – Então?

– Estamos esperando um playboy. – responde Beto estupefato com a atitude de Lúcia.

– Ele disse que nos encontraria aqui com seu carro. – complementou Sônia após tomar um ar.

– Ele foi pegar um carro e deixaram vocês para fugirem daquele bando a pé? – Lúcia balança a cabeça negativamente, como se quisesse apagar aquele pensamento – Não importa. O que importa é que não tem para onde ir de carro por aqui. Lá para frente está pior. Vocês dois venham comigo.

– Tudo bem. – responde Sônia, guiando-se pela confiança que está sentindo pela mulher forte que lhe salvou.

Antes de Lúcia pedir para eles acompanhá-la, Beto a interrompe:

– Olha o “zé porvinho”! – ele aponta em direção oposta da qual eles estavam indo.

Mesmo sem entender ao certo quem seria o “zé povinho”, ambas mulheres viraram para olhar. Sônia reconheceu Ricardo, mas Lúcia continuou sem entender.

– Vamos! Precisamos sair daqui. – disse Lúcia dando de ombros.

– É o Ricardo. – comenta Sônia – Vamos esperá-lo. Não é certo deixá-lo sozinho.

Lúcia faz sinal de que ia retrucar rudemente aquele comentário, mas opta por se silenciar.

Ricardo as vê e corre na direção do trio. Alguns mortos vivos se aproximam daqueles que o esperam e Lúcia consegue derrubar dois rachando seus crânios, enquanto Ricardo, após três tiros com sua pistola, derruba o outro.

– Cadê o carro? – Sônia pergunta quase chorando, agarrando Ricardo pelos braços.

– Estamos sem carro. – responde Ricardo desconcertado, se desvencilhando dela – Precisamos pensar para onde ir.

– Nós vamos com ela! – retruca Sônia apontando para Lúcia, sentindo raiva do advogado que lhes prometera levar para um lugar seguro.

– Quem é…

– Chega de conversa. – Lúcia interrompe Ricardo, apontando para os vários mortos-vivos que estão na direção de onde eles vieram – Vamos embora! Me acompanhem.

– Para onde vamos? – pergunta Ricardo quando eles começam a correr em direção ao pontilhão que leva ao Parque Taquaral.

– Para a casa de uma… – Lúcia se assusta com o estrondo de uma batida que os fazem parar. Lúcia olha para trás e vê Ricardo voltando para ajudar as pessoas que saíram de uma blazer cinza vítima do acidente.

– O que você está fazendo? – pergunta para Ricardo, enquanto Sônia se aproxima dela buscando proteção.

– Vou ajudá-los. – responde o advogado continuando seu caminho ainda com a arma na mão.

– Por que? É perigoso! – questiona Sônia preocupada com toda aquela situação.

– Talvez eles possam nos ajudar. – sem parar para responder, Ricardo corre até uma distância segura para atirar em um morto vivo que se aproxima de um dos sobreviventes da blazer. Após quatro tiros, o deixando quase sem munição no pente, ele o derruba.

O sobrevivente o olha espantado, ao mesmo tempo que olha em direção a família que saiu da mesma blazer que ele.

– Vocês tem para onde ir? – pergunta Ricardo.

– Não. – responde o homem.

– Então venham conosco. – retruca agilmente Ricardo, percebendo que os companheiros daquele homem se afastavam dele.

Ricardo o ouve gritar para seus amigos, mas não se atenta muito as palavras, pois está perdido em pensamentos ao olhar novamente a blazer: “Afinal, não deve existir muitas blazers cinzas em Campinas”, pensa ele sentindo um calafrio, “Muito menos blindada”, Ricardo volta sua atenção ao que está acontecendo e procura mortos vivos próximos, mas por sorte muitos estão se afastando para os locais de maior aglomeração de carros.

Aliviado, antes de voltar sua atenção àquele que ele salvou, Ricardo bate o olho no vidro da blazer, onde tem colado um adesivo da polícia federal. “Será que eles o conhecem?”, pensa o advogado ouvindo gritos de uma mãe desesperada que o impede de se distrair novamente.

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    • Luiz Paulo
    • 9 de maio de 2011

    “- Olha o “zé porvinho”!” HAHAHAH, gostei!

    Ficou massa, juntou as histórias de um jeito interessante.

    Lúcia é foda! Não queria que ela tivesse morrido, hahahah..

  1. Acho que vc vai curtir o conto que vou postar no dia 20/05, ele foca na Lúcia. :)

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