Espíritos Malígnos

Com cuidado o velho feiticeiro deposita o poderoso pó em três cabaças diferentes. Infelizmente aquele pó mágico era difícil e demorado para se preparar. Sua tribo inteira, localizada em uma reserva no Congo, estava morta ou haviam partido. Todos os corpos foram queimados e, naquele lugar, só residiam ainda Nzingu e três de suas cinco filhas.

O velho feiticeiro sabia que não adiantaria partir de lá. Que os nkadi-o-mpemba – espíritos do mau – estavam se espalhando pelo mundo. Que ele e suas filhas estavam mais protegidos lá, em seu território.

Nzingu é pai de cinco mulheres, para sua tristeza, não teve nenhum filho homem, nenhum herdeiro de seu conhecimento. Uma delas foi morta pelo nkadi-o-mpemba que rodeia sua tribo e se alimenta dos vivos que nela habita, enquanto a outra partiu com seu marido. As três que ficaram estavam viúvas e preferiram aceitar a poderosa proteção de seu pai.

O feiticeiro olha para as cabaças com o poderoso pó e sente uma breve hesitação, pois sabe que depois de feito o ritual, não terá mais volta. Porém, mesmo que demonstre a mais pura confiança para suas filhas, Nzingu sabe que aquela é uma medida desesperada. Que ele não vê como sobreviver no novo panorama do mundo que se descortinará em breve. As coisas estão mudando, os makulu – espíritos ancestrais – lhe disseram, e não é para melhor.

Ele ascende pilhas de madeira e ervas enquanto suas filhas ficam sentadas esteiras de palhas, uma fumaça grossa começa a erguer das pilhas incandescentes e cobrir todo o ambiente da cabana. Para olhos desacostumados, não se vê nem mesmo um palmo a frente do nariz, mas para o velho feiticeiro, aquilo é apenas semelhante a estar de olhos abertos embaixo d’água límpida do riacho próximo de lá. Essas ervas, diziam seus antepassados, servem para acalmar todos os ianda – espíritos –, com ela purificando o ar, nenhum deles é capaz de causar malefícios a qualquer ser vivo.

O velho feiticeiro inicia seus cânticos e toca seu atabaque com grande energia, elevando seus pensamentos aos nzambi de seu povo. Ao sentir a influência no recinto ele grita: “Tat’é!” parando de tocar e, em transe, deixa-se guiar pelas mãos divinas. Ao perceberem que o toque do atabaque cessou, as filhas deitam-se nas esteiras.

Utilizando-se de pedaços de planta de bananeira, usadas como pás, ele espalha o pó mágico pelo corpo de suas filhas e as cobre com folhas inteiras de bananeira. Elas morrerão em pouco tempo. Nzingu, e o nzambi que o guia, sabem que tradicionalmente o correto seria enterrá-las, para que tivessem que cavar sua saída e assim completarem realmente a transformação, mas eles sabem muito bem, que o principal efeito que eles querem, é causado apenas pelo pó.

Terminando de cobri-las, o velho se senta no centro, saindo do transe. A fumaça ainda cobre todo o espaço da cabana, quando ele escuta algo adentrando pela porta de palha solta. O nkadi-o-mpemba surge urrando. Parado no mesmo lugar, aquele ser, que já foi homem um dia, deseja encontrar algo vivo para se alimentar. Ele bufa e vira sua cabeça e seu corpo de um lado para ou outro procurando algo, mas nada encontra. Seus olhos selvagens se perdem na fumaça das ervas e parecem passar por Nzingu como se ele não estivesse lá.

O velho feiticeiro sabe, que ao fim do ritual, suas filhas serão vistas como iguais por tal ser, mesmo sendo diferentes. Elas retornarão como suas servas nzumbi e não mais serão alvos de tal criatura.

O nkadi-o-mpemba procura e procura, mas nada consegue perceber com aquela fumaça. Há algo nela que perturba seus sentidos, que o faz ficar confuso. Atordoado, ele parte.

O velho feiticeiro ri consigo mesmo, afinal, o que mais esperar de ervas que servem para acalmar os ianda?

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    • Luiz Paulo
    • 18 de maio de 2011

    Que foda!!!!

    É de algum lugar ou você inventou tudo? Muito bom!

    • É a visão tribal dos Immortuos rs

      A história eu inventei, porém os termos pesquisei aqueles que se encaixariam com o cenário ;)

      Abraço

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