Fúria Feminina

– Paulo! Vem nos ajudar, porra! – grita Lúcia, enquanto leva as portas dos armários, junto com Ricardo, para reforçar o portão. Ela não ouve resposta alguma, o que a irrita ainda mais. – Filho da puta.

Ela e Ricardo continuam carregando as portas, enquanto sr. Fábio e José Fernando, pai de Marcela, as pregam no portão de madeira. Alguns mortos vivos começaram a se aproximar da casa por sentir o cheiro deles, agora eles tinham que dificultar ao máximo a entrada deles.

Lúcia está fazendo de tudo para sobreviver e ajudar os outros a sobreviverem, mesmo que suas esperanças a respeito do futuro da raça humana sejam quase nulas. Foi graças a ela que o grupo sobreviveu no caminho da casa da Marcela para a casa do sr. Fábio, mas ela não quer reconhecimento. Na verdade, consideraria bastante hipócrita de sua parte se buscasse elogio, já que ela os está ajudando para aumentar sua própria chance de sobrevivência, ou pelo menos é nisso que ela quer acreditar.

Pensando no que eles passaram até aquele momento, Lúcia se irrita ainda mais com Paulo.

– Paulo, caralho! Vem nos ajudar! – grita ela novamente quando entram na casa para pegar mais duas das seis portas restantes.

Novamente, o silêncio é a resposta.

Quando eles estavam na casa da Marcela, todos do grupo estavam presentes na sala, reunidos para decidir o que fazer. Durante a reunião, Paulo estava focado em escrever, fez uma ou outra anotação no seu laptop e começou a montar o design de um blog. Isso a deixou “p da vida” e, como ela nunca foi de meias palavras, soltou o verbo.

– Para de escrever nessa merda, seu folgado! – disse ela interrompendo Paulo em uma de suas anotações, apotando o dedo na cara do psiquiatra. – Ou você nos ajuda a pensar em algum plano para sairmos daqui, ou eu vou quebrar a sua cara.

Paulo a encarou como se tentasse analisar o que aquela atitude de Lúcia escondia, o que a deixou ainda com mais raiva.

– Vai ajudar ou não? – perguntou ameaçando-o com o olhar.

– Você é uma mulher bonita, Lúcia, porque se estraga usando esse linguajar? – questionou Paulo tentando desviar do assunto.

– Não foge. Agora levanta daí e vem nos ajudar. – ordenou ela.

– Estou ocupado preparando um arquivo de sobrevivência, Lúcia. – Paulo olhou para a tela do seu laptop encerrando o assunto.

– Você seria mais útil, NOS ajudando a sobreviver. – retrucou Lúcia, mas o psiquiatra a ignorou. – VAI SE FODER! – ela virou-se para sair da sala, quando Paulo a interrompeu.

– Você quer participar? Posso dividir meus dotes com você antes de me curtir.

A ironia de Paulo fez com que a fúria de Lúcia inrompesse. Ela correu na direção dele, pronta para chutar-lhe. Com medo, Paulo levantou-se rapidamente e se afastou, enquanto Ricardo, José Fernando e Sônia a seguravam com dificuldade.

– Eu vou arrebentar a sua cara, seu médico de bosta!

Paulo tentava controlar seu medo forjando um sorriso no rosto, mas ele sabia que não a estava enganando. Lúcia, percebendo a situação na qual se encontrava e não querendo machucar ninguém além de Paulo, parou de tentar pegá-lo e saiu da sala. Naquele momento, não compensava se meter naquele tipo de conflito.

Porém, com a reincidência de ocorrências como aquela, Lúcia estava começando a perder a paciência novamente. Ela pega mais uma porta e começa a caminhar, na silenciosa companhia de Ricardo.

– Lúcia, minha querida. Não de atenção para aquele doutor safado. – diz Sônia com uma voz suave e carinhosa, se aproximando de Lúcia. – Não vale a pena.

Sônia chama Paulo de doutor safado pela forma que ele olha para Lúcia e Marcela, sempre tentando seduzi-las de alguma forma. Lúcia age de forma indiferente em relação ao apelido, concordando com sua nova amiga em silêncio.

– Não dá Sônia. Ele é muito folgado e coloca a todos nós em risco. – responde ela.

– Você sabe como ele é inteligente, Lúcia. Tenho medo dele colocar os outros contra você. – confessa Sônia com sinceridade.

Lúcia dá de ombros.

– Ele não faria isso. Eu sou infantaria do grupo.

Sônia ri baixo, mesmo não entendendo o que Lúcia quis dizer.

– Ainda assim, me preocupo com você. – retruca Sônia.

Lúcia entrega a porta do armário para sr. Fábio.

– Agradeço, amiga. – ela sorri para Sônia – Mas confie em mim.

Lúcia, Sônia e Ricardo voltam para dentro da casa. Ricardo vai pegar mais porta de madeira e Sônia, triste, volta para a cozinha na companhia de Marcela e sua mãe. Lúcia sobe as escadas que levam até o escritório onde Paulo está escrevendo seu arquivo de sobrevivência. Ela pensa em cinco formas de ensiná-lo a ser mais cooperativo, porém as cinco o deixaria inutilizado por no mínimo seis meses e no máximo a vida toda.

– Paulo, desliga essa merda e vem ajudar. – diz rispidamente Lúcia, optando por resolver o conflito através de uma conversa amigável.

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