Covardia

Ricardo sente o suor frio escorrer em seu rosto enquanto olha para a casa, na qual Paulo, Lúcia e Reinaldo pularam o muro. Enxugando a gota, ele torce para ninguém ter visto, e até certo ponto, torce também para que a casa esteja vazia. A apreensão que ele sente, consegue até mesmo acabar com sua preocupação a respeito dos mortos-vivos que podem surgir a qualquer momento.

A aproximadamente cinco anos atrás, quando estava praticando tiro ao alvo no clube da polícia civil, um homem branco, alto, de cabelo castanho e encaracolado, com feição mal humorada, começou a praticar na cabine ao lado da sua. Ricardo se espantou com a precisão dos tiros daquele homem: todos atingiam na cabeça, freqüentemente entre os “olhos” do alvo.

Após a seção de tiros, o advogado foi conversar com o tal policial, seu nome era Evandro Alberto de Oliveira e já era policial a vinte anos. Ricardo não conseguiu tirar outras informações daquele homem no primeiro dia de conversa, nem no segundo, nem mesmo um mês depois de conversarem quase que todos os dias.

As conversas eram sempre puxadas por Ricardo, pois Evandro era um homem silencioso, com olhar frio e, até certo ponto, bastante antipático. Porém algo chamou a atenção de Ricardo. Como advogado, ele tinha uma grande sensibilidade para possíveis casos com os quais ele poderia ganhar dinheiro. Aquele homem fazia o tipo “policial psicopata” e provavelmente precisaria, uma hora ou outra, de um bom advogado para defendê-lo.

Sua “sensibilidade” não falhou. No terceiro mês, Evandro o chamou para tomar uma cerveja e conversar. Buscou Ricardo no fórum com sua blazer cinza e o levou até o bar. O advogado estranhou o local, era um boteco no Parque Brasília, na entrada da favela. Ele não se esqueceu do nervosismo que passou enquanto eles tomavam cerveja e eram encarados por alguns possíveis “maus elementos”.

– Vou precisar de uma ajuda sua. – disse Evandro encarando Ricardo como se ignorasse todas as outras pessoas no bar – Não tenho como ficar escondendo minhas “atividades” o tempo todo, alguns policiais da minha divisão, suspeitam de mim.

O policial ficou em silêncio, aguardando uma resposta de Ricardo que o olhou sem entender, se esforçando ao máximo para esconder seu medo. Ao perceber que era sua vez de falar, o advogado se arrumou na cadeira.

– É… eu… bem, como posso te ajudar? – Ricardo respirou fundo para retomar a postura, pois não queria perder a confiança daquele homem. – Se precisar defendê-lo de alguma acusação, posso fazê-lo.

Evandro sorri com meia boca, fazendo Ricardo sentir um calafrio.

– Vocês advogados são bem espertos. – retrucou Evandro fazendo um pequeno silêncio em seguida, tirando Ricardo levemente de sua postura confiante – Na verdade tenho contatos que me impedem de ser pego, porém sempre a pessoas suficientemente chatas para quererem me atrapalhar. Preciso ser julgado por um crime e quero que você me defenda.

“O que eu estou fazendo aqui?”, se perguntou Ricardo sentindo o enorme incomodo que aquele lugar e aquele homem lhe causava. Não sabia exatamente o que falar. Aquela conversa estava estranha demais, mas ele sentia que seria muito perigoso dizer não para ele.

– Aceito ajudá-lo sim, mas terei que cobrar. – disse o advogado com receio.

– Isso é óbvio. É o seu trabalho. – respondeu Evandro, o que fez Ricardo respirar mais tranqüilo – Não importa quanto, darei um jeito de te pagar. – a preocupação retornou imediatamente, fazendo Ricardo esbarrar em seu copo de cerveja, o qual esparramoui seu conteúdo pela mesa, respingando em sua calça.

– Droga! – praguejou enquanto se afastava da mesa.

– Senhor Evandro! – chamou um jovem rapaz, com pinta de pequeno traficante, na porta do bar. – Eles chegaram.

Evandro sorriu e se levantou, enquanto Ricardo tentava prestar atenção nele, ao mesmo tempo em que enxugava sua calça e arrumava o copo.

– Aonde você vai? – perguntou Ricardo.

– Não se preocupe, você irá junto. – novamente o policial deixou seus lábios esboçarem o sinistro sorriso.

Na fiorino, Ricardo vê o portão abrir e Gustavo manobrar o carro para dentro. O coração de Ricardo acelera. “Você é um idiota! Porque não deixou essa gente morrer?”, se perguntou lembrando que só estava naquela casa, indo para a toca do lobo, porque Paulo, Gustavo e Carla estavam vivos, graças a ele.

Gustavo para o carro e desliga. Ele escuta a voz de Evandro vindo cumprimentar o mecânico e pedindo para que todos saíssem rápido do carro. Todos assim o fazem. Ricardo vê um por um sair da fiorino e sente a ansiedade aumentar. Ele respira fundo para não tremer ou demonstrar qualquer outro tipo de sinal de nervosismo, não há vantagem alguma de seus “colegas” descobrirem que ele conhece aquele policial.

Ricardo sai da fiorino cuidadosamente, enquanto escuta os pais de Marcela e ela chorarem por verem Reinaldo morto no chão. Evandro lhes chama a atenção rispidamente e pede para que todos entrem na casa. Ricardo caminha junto com Lúcia, evitando ser visto pelo policial. Eles adentram a casa e esperam na sala todos os outros entrarem.

– Fiquem a vontade. – diz Evandro secamente. – Vocês parecem famintos. Irei preparar algo para comerem.

Ricardo percebe os olhos do policial passarem por ele como se ele não estivesse presente, o que o alivia. Porém, logo ele sente seu estomago embrulhar novamente com a memória borbulhando em sua cabeça.

Ele lembra exatamente o que Evandro quis mostrar-lhe, mas não descobriu até hoje o porquê daquele “sadismo”. Após o “pequeno traficante” chamar Evandro, eles caminharam duas quadras dentro da favela, indo em direção a uma biqueira onde alguns policiais militares estavam recebendo seu “abono”.

– Você mata policial corrupto? – perguntou baixo Ricardo.

– Silêncio. – respondeu quase sussurrando Evandro, enquanto virou em uma viela, saindo da rota que os levariam até os policiais e traficantes.

Ambos passaram por três casas de alvenaria, até encontrarem uma que misturava as duas formas de arquitetura presente na favela: a maior parte era construída em alvenaria, porém o restante eram madeiras pregadas umas as outras, formando um “meio barraco”.

Evandro se aproximou da casa silenciosamente, evitando fazer qualquer tipo de barulho. Eles entraram por uma porta que os levava até o quintal e Evandro sacou sua arma com silenciador. Ricardo começou a ficar extremamente preocupado com o que aquilo significava, mas preferiu manter-se em silêncio.

Eles caminharam até um quartinho no fundo da casa. Estava trancado. Não apenas com chave, mas com quatro cadiados.

– O que tem ai? – Ricardo não resistiu em fazer a pergunta.

– Quem eu quero. – Evandro respondeu com um sussurro seco.

O policial se escondeu e fez com que o advogado também o fizesse. E eles esperaram. Ricardo não sabia exatamente o que eles estavam esperando, mas esperaram por quase uma hora, até que um senhor de aproximadamente sessenta anos e um garoto de doze, se aproximaram da porta com um cachorro vira-lata no colo.

O cachorro começou a chorar, como se pressentisse que algo ruim ia acontecer com ele e o garoto segurou seu focinho com força. O senhor destrancou os cadeados e quando estava preste a destrancar a porta, Evandro colocou sua arma da cabeça dele.

– Termine de abrir. – disse ameaçadoramente.

O senhor tremia de nervosismo e o garoto também. Mesmo assim, enquanto destrancava lentamente a porta, o senhor preocupado com o que havia lá dentro implorou.

– Não façam nada com ele. – lágrimas rolavam em seu rosto. – Ele é meu filho, ele só precisa de tratamento.

– Não há outro tratamento para o que ele tem, acredite. – respondeu Evandro friamente enquanto a porta se abria.

Aquele quartinho cheirava carniça e haviam várias carcaças de cachorros apodrecendo no chão. No canto do quarto, com uma coleira amarrada em uma corrente, havia um jovem com olhar alucinado, que ao ver eles entrando, correu na direção até o máximo que a pequena corrente permitia.

Evandro não pensou duas vezes e atirou no centro da testa do jovem, que caiu “morto”. Ricardo ficou chocado, enquanto o pai daquele menino e seu irmão choravam agachados perto do corpo.

– Por que você me trouxe aqui? – perguntou Ricardo.

– Porque eu sou seu cliente. E é bom que você saiba o que eu faço, assim posso confiar mais em você. – respondeu Evandro em um tom que Ricardo não sabia definir se era irônico, cínico, ameaçador, ou cruelmente pragmático.

Evandro coloca a comida na mesa e chama a todos para se alimentarem. Ricardo retoma sua atenção no momento e caminha até a mesa junto com os outros, porém agora opta por não se esconder. Ele olha para o rosto do policial, que simplesmente o ignora. “Será que ele não me reconheceu?”, se pergunta Ricardo.

Evandro foi levado a julgamento por corrupção no ano em que “contratou” Ricardo, mas esse não o defendeu. Nem mesmo foi ao seu julgamento. Temia se envolver com aquele homem que matava outros seres humanos friamente e protegido pela autoridade de ser um policial. Ele ouviu dizer que Evandro foi suspenso da polícia por um ano, que no julgamento eles conseguiram um advogado qualquer de última hora que o defendeu razoavelmente bem, mas parece que o juiz optou por abrandar bastante a pena.

Eles jantam e sem muita demora se preparam para saírem daquela casa. Evandro entrega algumas armas para os colegas de Ricardo e eles saem por uma espécie de porão que os leva uma casa vizinha, onde há outra pickup estacionada.

– Vão, podem entrar, ela está aberta. – diz Evandro apontando para o veículo. Ricardo se encaminha para uma das portas de trás, quando sente uma mão no seu ombro. – Você sabe atirar?

Ricardo acena afirmativamente, petrificado pelo toque.

– Que bom. Você poderá ajudá-los bastante a sobreviverem. – diz Evandro tirando a mão do ombro de Ricardo e se virando para abrir a porta e entrar no carro.

Ricardo se mantém por alguns instantes no mesmo lugar, quando a própria voz de Evandro o tira do pseudo-transe no qual ele se encontrava.

– Só não deixe eles na mão.

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    • Luiz Paulo
    • 3 de junho de 2011

    Muito bom!!!

    Evandor é true! Lúcia é true!

  1. Tem mais coisa do Evandro por vir, aguarde ;)

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