Delas é o Reino dos Céus

Mesmo fazendo seu trabalho a mais de quatorze anos, Mihai não se acostumou com a idéia de ter de pregar a cabeça de defuntos em seus caixões. Essa não é uma das melhores formas de se ganhar a vida, mas é o que um homem de trinta anos com deformidades faciais consegue fazer sem chamar a atenção de camponeses supersticiosos.

Por trabalhar para a Igreja, Mihai não tem de se preocupar com acusações sérias a respeito de possíveis “relações com demônios” por causa de sua aparência e práticas no cemitério. Como poucos são aqueles que saem de suas casas após o pôr do sol, e menos ainda são aqueles que se aventuram pelo cemitério em companhia das luzes das tochas e dos pálidos brilhos do céu noturno, ele pouco é incomodado por coisas além dos pesadelos e do peso de esconder tantos segredos.

Uma ou outra vez ele já teve experiência que comprovaram a importância de seu trabalho. Mesmo tendo sido experiências raras, foram assustadoras o suficiente para terem impregnado a mente do “gropar”, como os membros da igreja denominam sua função.

Mihai realmente não sabe com o que ele mexe, o que são aqueles mortos inquietos com os quais ele tem que lidar. A Moldavia – tal como grande parte da Europa nessa época – é um reino cheio de superstições e lendas com criaturas sobrenaturais, controlado por uma Igreja ortodoxa que não tem a mínima intenção de que o conhecimento chegue as mãos do povo, ou mesmo de seus servos mais baixos. A Igreja os chamam de “diavol”, “blestemat”, “slujitorii lui Satan”, e um ou outro arcebispo fluente em latim o chamam de “immortuos”. Ele já escutou alguns moradores da vila e viajantes contarem histórias sobre “wampyr”, “strigoi mort” e “moroi”, enquanto os ciganos os chamam de “shilmulo”. Mihai já escutou muitas histórias diferentes a respeito de coisas parecidas, o que corrobora com sua impressão de que se há algum conhecimento sobre essas criaturas, está na mão da igreja, e ainda isso, deixa uma certa dúvida no coração do “gropar”.

Como eles voltam a vida? Por que isso acontece? Como Deus permite que tais criaturas andem pela terra, trazendo sofrimento para homens de bem? Essas são algumas das perguntas que passam por sua cabeça. A Igreja diz que pagões que não se arrependeram de seus pecados, após falecerem tornam-se um deles. Outras razões que a própria Igreja prega sobre os motivos que fazem os mortos voltarem a caminhar sobre o firmamento é: quando o falecido não teve o ritual funerário devido – o ritual funerário cristão – ou aquele que morreu fez algum pacto com satã ou até mesmo mexia com bruxaria. Todas essas e outras respostas apenas alimentam as dúvidas de Mihai, em seu íntimo ele desconfia que ninguém realmente sabe sobre esses monstros que resolvem se levantar de suas tumbas; e se alguém sabe, guarda consigo as respostas. A única coisa que ele tem certeza é que o prego na cabeça realmente funciona.

Algumas crenças populares dizem que o prego deve ser fincado dentro da boca, outras dizem que ele deve ser apenas posto cruzando os lábios do defunto; Mihai sempre ri quando lembra delas, pois não é assim que funciona. Normalmente ele utiliza um prego com um palmo e meio de comprimento o qual ele crava entre os dois olhos do defunto com a ajuda de um martelo. As vezes ele prega através de um dos olhos, quando ele acha que seu imenso prego não será suficiente para fixar a cabeça do defunto no caixão.

Nessa noite, especificamente, Mihai recebeu um prego menor do que o de costume, apenas um palmo de comprimento. Enquanto cava no túmulo indicado, ele não tem dúvidas de que o prego deverá ser posto no olho do defunto.

A terra está macia, pois o cadáver foi enterrado nesse mesmo dia, sem nenhum rito fúnebre. Isso facilita muito seu trabalho, afinal de contas: ele faz tudo sozinho.

Após uma hora de trabalho – que normalmente costuma ser duas e até três dependendo da terra – Mihai começa a retirar os pregos da tampa. É um caixão grande, mas quando ele o abre, se surpreende: o cadáver é de uma criança.

“Das crianças é o Reino do Céu”, comenta ele mentalmente horrorizado por ter de fazer seu trabalho em uma criança. Nesses quatorze anos de serviço, nunca haviam lhe ordenado a fazer algo semelhante. “O que deu nesses padres?”, se perguntou o “gropar”. Não fazia sentido uma criatura tão pura estar condenada a uma existência amaldiçoada.

Ele passa um bom tempo contemplando o rosto inocente daquele cadáver, – um rosto que ele nunca teve – o que faz sua tristeza aumentar. Ele sempre foi uma criatura condenada, mesmo quando era uma inocente criança. Com a ajuda dos padres ele recebeu uma oportunidade de se redimir, de aceitar sua sina enquanto faz um trabalho nobre em nome de Deus; é isso, segundo eles, que garantirá seu descanso quando ele falecer. Esse pensamento, que supostamente lhe daria forças, que lhe daria uma razão para executar seu trabalho sem questionar, na verdade o entristece mais.

Mihai vira-se de costas para aquele corpo, coloca as mãos em seu rosto e começa a chorar. Mergulhado em sua autopiedade, ele não percebe quanto tempo se passa até sua tristeza começar a se transformar em conformismo. Ele enxuga as últimas lágrimas e sente algo tocar em seu braço esquerdo. Antes de conseguir se virar, a dor de uma forte mordida – bem mais forte do que o esperado – o faz gritar e se debater, enquanto vê a criança arrancar um pedaço de seu tríceps. Rapidamente o “gropar” pega seu martelo com o braço bom e atinge precisamente a cabeça da criança que, com o impacto, se afasta alguns poucos centímetros dele, com a boca cheia de sangue, mastigando os pedaços de carne do braço ferido.

Sem perder tempo Mihai a atinge com mais duas fortes marteladas na cabeça e ela cai tremendo convulsivamente em seu caixão com seu crânio esmagado. Ele segura a cabeça disforme da criança para poder pregá-la, ignorando a dor da mordida que levara.

Foram necessárias três marteladas para realizar o serviço. Com muito esforço, Mihai cobre a cova novamente com terra. Suas mãos tremem, não só pela dor da mordida, nem apenas pelo susto, mas pelo frio que ele começa a sentir. Provavelmente ele terá febre nessa noite, talvez terão que amputar seu braço, mas seu maior medo vem na forma de uma pergunta: “Será que me tornarei um deles?”.

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