Família

Foram mais de quinze anos sem falar com seu pai. Ele havia trocado sua mãe por “uma qualquer” e isso era imperdoável para ela. Mesmo com seu pai fazendo várias tentativas de se reaproximar, Cássia se recusava a vê-lo quando ele a visitava e não fazia questão de atendê-lo ao telefone. Quando seus irmãos tocavam no assunto “pai”, inicialmente ela se revoltava com a atitude “conivente” deles, posteriormente ela simplesmente passou a ignorar.

As coisas mudaram. Sentindo o tremor nas mãos de seu pai, Cássia sente empatia novamente por aquele que lhe concebeu e criou. Ela sabe o quanto ele está aflito, pois é a mesma aflição que ela sente; ou pelo menos é o que ela imagina. Eles estão aguardando o sinal para saírem do apartamento. O risco é enorme e eles sabem disso. Hoje em dia, tudo é muito arriscado, mas não há alternativa, não no condomínio onde eles se encontram. Ela não quer morrer, principalmente agora que conseguiu perdoar seu pai.

Principalmente agora que ela está criando coragem para dizer isso a ele.

Desde que tudo começou – de que os mortos começaram a levantar-se e devorar os vivos – as coisas mudaram muito, não só no mundo ao seu redor, mas internamente. Cássia ainda estava sem se falar com o senhor Fábio na semana anterior da “epidemia”, quando sua mãe passou mal e foi hospitalizada. Irene havia tido um grave AVC e seria induzida ao coma. Aquilo foi um baque para toda a família, inclusive para o senhor Fábio.

Cássia visitava sua mãe diariamente, buscando notícias que a tranqüilizasse e a permitisse dormir novamente, mas nada veio durante seus cinco dias de espera. Foi no quinto dia, que as coisas começaram a piorar.

O hospital começou a separar alas para suspeitos da “nova doença”, ninguém explicava o que estava acontecendo, os médicos nem mesmo pareciam saber exatamente o que era aquilo com o que estavam lidando, os pacientes estavam temerosos e os familiares, principalmente daqueles que estavam sendo levados para a nova ala, ficaram apreensivos com a falta de informações. Todos os que estavam correndo risco de morrerem, eram colocados na nova ala, pois eram “suspeitos de contaminação”; o que apenas confundia e amedrontava ainda mais os freqüentadores do hospital, já que o único “sintoma” era extremamente abrangente.

Quando os médicos optaram por levar Irene para a ala dos “suspeitos da nova doença”, sr. Fábio estava junto e discutiu com os médicos para não a levarem, pois aquela medida era “incabida”, mas foi inútil.

Entretanto, aquela preocupação de seu pai tocou levemente Cássia, que no momento oportuno, puxou conversa com ele, surpreendendo-o. Ele estava abatido e magro, não só por causa do estado de sua mãe, mas também, como ela ficou sabendo durante a conversa, porque a “puta” havia o deixado. Essa informação gerou apenas raiva e uma sensação de vingança concretizada em Cássia. Ela queria sentir “pena”, “dó”, “compaixão” – ou seja lá como chamam – por seu pai, mas não conseguia, não ainda.

Cássia começou a cutucar seu pai, dizendo que ele estava lá apenas porque se sentia carente, mas antes de ter uma resposta, uma balbúrdia na ala dos “suspeitos” os interrompeu. A preocupação com sua mãe, levou Cássia correndo até a porta da ala, acompanhada pelo sr. Fábio. Ao chegarem, o susto tornou-se pavor. Eles ouviam tiros e gritos selvagens e aterrorizados vindos de lá.

Sr. Fábio, temeroso, ameaçou em abrir a porta, quando ela se escancarou, dando passagem para cinco policiais, que a trancaram novamente.

– Vão embora! – gritou um deles para Cássia e seu pai, sem nem mesmo olhá-los.

Ela tremeu e sentiu se pai estremecer ao mesmo tempo.

– Não posso. Minha mulher está ai! – disse o sr. Fábio, deixando Cássia ainda mais surpresa com a escolha da palavra naquele momento angustiante.

– Se ela está ai, já está morta. Agora vão embora antes que vocês também morram. – disse o policial sem nenhuma sensibilidade pela dor deles.

– Tenho pelo menos o direito de saber o que está acontecendo. – retrucou Fábio, firme, encarando o policial.

– VAI EMBORA, PORRA! A MERDA SAIU DO CONTROLE! AGORA SE VOCÊ QUISER SOBREVIVER JUNTO COM ELA, VAI EMBORA! – a raiva do policial fez sr. Fábio dar um passo vacilante para trás, quase caindo. Cássia o segurou pelo braço e começou a guiá-lo para longe dali. Ele não gerou resistência alguma, estava aterrorizado. Tremia muito, como “vara verde”, ele diria.

No condomínio, ela sente algo semelhante que fez sua memória a transportar para aquele dia. A mão de seu pai está tremendo convulsivamente apertada na sua, que com sua própria tremedeira, apenas amplia a vibração. Ela olha para seu pai e eles sabem que terão que passar por algo semelhante ao que passaram ao fugir do hospital. Correria, empurra-empurra, sufocamento, pânico, histeria.

Ricardo faz algum barulho que eles associam rapidamente ao sinal que estavam aguardando. Cássia e sr. Fábio, junto com os outros, correm para fora do apartamento e descem a escada do segundo andar ao térreo, gritando o sinal para os outros moradores. Os demais inquilinos passam esbarrando uns nos outros, desesperados por sobreviverem, sabendo que em poucos minutos o pátio estaria cheio daquelas criaturas famintas que tentavam a todo custo entrarem no condomínio.

Eles se aproximam da porta do prédio e escutam tiros e gritos selvagens e aterrorizados vindos de fora. Cássia sente um arrepio e, lutando ao máximo contra o pânico querendo paralisá-la, ela abre a porta do prédio e vê a multidão de criaturas mutiladas correndo através do portão escancarado do pátio.

Aquela visão desperta em sua mente imagens semelhantes que ela presenciou no hospital, o que torna o fato ainda mais aterrorizante. Quando ela e seu pai obedeceram à ordem furiosa do policial, eles caminharam poucos passos quando ouviram um estrondo seguido de alguns tiros vindo do fim do corredor. Eles olharam para trás e viram uma multidão ensangüentada e ensandecida atacando os policiais que cuidavam da porta. Cássia teve tempo de ver uma das criaturas morder o pescoço de um dos policiais e arrancar um pedaço com violência, deixando o corpo cair ao chão sem vida, antes de sair correndo junto com seu pai e se misturar na aglomeração de vivos enlouquecidos.

Cássia continua correndo, agora em outro lugar, outro momento, mas dessa vez sente um tranco em seu braço, fazendo-a perder o equilíbrio. Ela olha desesperada para trás acreditando que algum dos mortos havia pego seu pai, mas fora pior. Algumas pessoas, fugindo desesperadamente sem rumo, trombaram com seu pai, que caiu com o pé torcido.

– Vai sozinha filha! – grita senhor Fábio aterrorizado.

– Não, pai! Levanta! – retruca Cássia puxando ele para seu ombro, surpreendendo sr. Fábio com a palavra que a tempos não ouvia da boca da filha. Senhor Fábio tenta se levantar, reanimado por como sua filha lhe chamou, porém tarde demais.

O resto da multidão de vivos correndo apavorados tromba nos dois, fazendo o senhor Fábio cair de rosto no chão e ser pisoteado. Cássia, também caída, consegue se levantar o suficiente para não sofrer grandes danos, mas sente uma imensa aflição ao escutar os sons dos ossos de seu pai quebrando embaixo das dezenas de pessoas que o atropelavam.

– NÃO! – grita inutilmente a filha chorando copiosamente.

Assim que a principal massa da multidão passa, ela se estende até o corpo do seu pai e o puxa para perto dela, ignorando a aproximação dos mortos-vivos. Ao aproximar o corpo dele ao dela, Cássia sente sua mão gélida apertar seu braço.

Horrorizada, ela se esforça ao máximo para ignorar aquele olhar insano e aquele corpo semelhante a um saco de ossos quebrados, e imaginar seu pai saudável a sua frente. Ela começa a fala, mas é interrompida por uma dor agonizante em seu ombro, quando ele a morde. Mais uma vez ela se esforça para ignorar aquele fato e imaginar seu pai saudável, tomando coragem para dizer:

– Pai, eu te … – mais uma vez ela é interrompida, mas não por uma única mordida, porém por várias, em muitos lugares de seu corpo. Cássia sente sua consciência ir embora, como se tivesse caindo no sono, anestesiada pela dor.

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