O Rei e O Cadáver – 6º ATO – Cena única 5ª PP (O Parentesco Indecifrável)

Cadáver: Pai e filho, membros de uma tribo montanhesa de caçadores, estavam rastreando suas presas com todo cuidado e atenção que verdadeiros caçadores devem ter.

(Abrem as cortinas. Ambos caminham de vagar olhando para o chão. Parando de vez em quando para tocar algo que eles encontram, cheirar a mão, etc).

Cadáver: Eles estavam seguindo uma presa que serviria de janta à sua tribo, mas um outro rastro atraiu mais a atenção dos dois caçadores.

Pai: Filho! Veja isso.

Filho: (Analisando com cuidado). São pegadas de pessoas.

Pai: (Com uma pequena pausa). Não de quaisquer pessoas filho. São pegadas de duas mulheres.

Filho: (Olhando mais atentamente). O senhor tem razão!

Pai: (Analisando as pegadas). Pelos traços, elas não aparentam ser muito pesadas e seus passos são determinados e seguros. As pegadas não apontam cada uma para uma direção, como se tivessem pés desleixados, mas apontam seguramente para onde vão.

Filho: (Espantado). O que você acha que isso quer dizer?

Pai: Que são mulheres da nobreza, meu filho.

Cadáver: Não foi a toa que essas pegadas interessaram tanto aos dois. O pai perdeu sua mulher a mais de cinco anos, quando sua tribo fora invadida por inimigos e esses a mataram. O filho era solteiro e não tinha nenhuma pretendente em sua tribo, já que as poucas mulheres que haviam sobrevivido ao ataque inimigo a cinco anos, já estavam prometidas ou já eram casadas, ou eram extremamente novas.

Filho: Vamos atrás delas pai?

Pai: Sim, iremos. Mas para evitar uma disputa entre nós, meu filho, vamos fazer um pacto.

Filho: Sem dúvida, pai.

Pai: Você percebe que uma das pegadas é levemente maior que a outra?

Filho: Sim.

Pai: A da pegada maior aparenta ser a mais madura das duas. Talvez seja uma mãe e uma filha. Assim, façamos o pacto de que a da pegada maior será a minha esposa, enquanto a de pegada menor, será a sua esposa.

Filho: (Apertando a mão do pai). Pacto feito, meu pai.

(A luz diminui).

Cadáver: Em acordo, pai e filho foram atrás de suas novas presas.

(A luz aumenta. No palco estão o Pai e o Filho se aproximando armados das duas mulheres que estão descansando de costas para eles).

Pai: Olá donzelas.

Rainha: (Mostrando tranqüilidade). Quem são vocês?

Pai: Somos caçadores.

Filho: (Sorrindo). E vocês são nossas presas.

Princesa: (Amedrontada). Não nos machuque.

Rainha: (Olhando com advertência para sua filha e depois voltando a olhar para os caçadores). Vocês pretendem nos ferir?

Pai: (Estranhando a postura da mulher). Não pretendemos, a não ser que vocês reajam.

Rainha: E o que querem?

Filho: Queremos tomá-las como nossas esposas!

Rainha: (Observa por um tempo ambos). Aceitamos. (A filha a olha indignada).

Princesa: Mãe…?

Rainha: (A adverte com o olhar novamente). Com certeza aceitamos.

Pai: (Espantado). Vocês entenderam que faremos de vocês nossas esposas?

Rainha: (Determinada). Sim! Entendemos.

Pai: (Estranhando). Mmm. E mesmo assim, não pretendem resistir a isso?

Rainha: Não temos nada a perder, apenas a ganhar com isso.

Pai: (Suspeito). É muito estranho ouvir isso da boca de uma nobre, quando essa está prestes a ser pega como esposa por caçador tribal.

Rainha: Não temos mais nada. Fomos obrigadas a fugir de nosso reino.

Princesa: (Amargurada). Éramos rainha e princesa daquele reino!

Rainha: (Levanta a mão para sua filha silenciar-se).

Pai: Rainha e princesa?

Rainha: Sim. Fui esposa do falecido rei. Ele foi assassinado e acusação caiu sobre nós!

Pai: Mmmm.

Princesa: (Triste). Agora estamos sem rumo. Sem saber o que fazer. E com certeza perseguidas pelos nossos antigos guardas.

Filho: Não se preocupem, protegeremos vocês.

Pai: (Olhando com curiosidade para o filho). Bem, então vocês virão conosco?

Rainha: Vocês não têm medo de serem atacados pelo reino?

Pai: Nossos inimigos são outras tribos e não o reino. Somos de uma tribo nômade, dificilmente os soldados do reino nos encontrarão.

Rainha: Então a resposta é sim.

Pai: Ótimo. Mas antes, precisamos cumprir um pacto feito entre eu e meu filho. Deixe-nos ver os seus pés.

(A Rainha e a Princesa se olham curiosamente).

Princesa: Se assim deseja. (E mostra o pé para o Filho).

Rainha: Veja. (E mostra o pé para o Pai).

(O Pai, querendo se certificar, olha para o pé da Princesa, e o Filho faz o mesmo com o da Rainha).

Filho: Pai! O pé maior é o da princesa!

Pai: Percebi filho.

Filho: O que faremos agora?

Pai: A palavra dada em um pacto não deve ser quebrada.

Filho: Pois isso pode trazer infortúnio para nós e para nossa tribo, certo pai?

Pai: Sim.

Filho: Então eu casarei com a rainha e o senhor com a princesa.

Pai: Exatamente filho.

(As duas se olham surpresas novamente. A luz diminui).

Cadáver: Um ano se passou após o casamento e cada uma teve um filho de seu respectivo esposo.

(A luz aumenta. Está a Rainha preparando comida, o Filho segurando um bebê e a Princesa ajudando sua mãe).

Filho: (Com cara de nojo). Hey, esse menino ta fedendo!

Rainha: (Sem virar-se). Esse menino é seu filho.

Filho: (Ainda com cara de nojo). Eu sei, mas ele está fedendo.

Rainha: Troque a fralda dele, oras!

Filho: Como?! Putz, isso é nojento!

Princesa: (Virando-se). Deixe que eu troco, seu fresco! Vai chamar seu pai e seu… (Parando de falar com confusão no rosto).

Filho: (Também confuso). Meu? O que ele é meu?

Cadáver: E nesse momento, eles encontraram um paradoxo…

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