Senzala

Numa noite fria de julho, era possível escutar da senzala os gritos dos senhores na casa-grande. O vento soprava forte, uivando enquanto fazia o canavial se mover em uma dança ondulante e fantasmagórica. André, filho “mais moço” do senhor de engenho, chegou ofegante junto aos escravos naquela noite, trazendo medo e inquietações. Ele os libertou e lhes suplicou proteção. Aqueles gritos que eles ouviam tornavam desnecessárias quaisquer perguntas que surgiram na mente dos escravos a respeito da atitude do senhozinho André Malta.

Eles nada perguntaram para o sinhozinho, apenas o escutava murmurar baixo, enquanto olhava em direção à casa-grande:

– Minha irmã está morta. Minha irmã está morta.

Eles sabiam que a irmã de André, Maria de Andrade Malta, havia falecido por envenenamento a três dias e estava sendo velada na casa-grande, como era de costume. Porém, aqueles que conheciam português e entendiam os murmúrios de André, não compreendiam o significado daquelas palavras. Imaginavam, talvez, que sua irmã, que teve uma morte deveras sofrida, vítima de uma dívida de jogo de seu pai, tenha surgido como um espírito sedento para se vingar de sua família. Ninguém sabia ao certo, mas talvez eles estivessem certos.

Talvez.

A inquietação estava se tornando quase um tumulto, quando os gritos dos empregados da mansão cessaram e o silêncio caiu como uma pedra na senzala. Com ele uma grande tensão começou a se formar e tornou o tempo algo lento e rastejante.

Um vulto, veloz e barulhento surgiu na porta da senzala, fazendo todos os escravos se afastarem. Com a fraca luz da lua, eles conseguiam reconhecer a sinhazinha com olhar insano, gritando e correndo na direção de seu irmão, que, petrificado de medo, não havia saído do lugar e estava mais próximo da porta. André, ao vê-la se aproximar, entrou em pânico e tentou se esconder entre os escravos, mas esses não o protegeram, muito pelo contrário, o entregaram aos berros para aquele “espírito” que corria em sua direção. Eles imaginavam que aquilo deixaria o “espírito” satisfeito e ele iria embora, afinal, a vingança era contra a família, pensavam eles.

Mas algo no olhar de Maria, revelava que eles estavam errados.

Anúncios
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: