Ameaças

Ao mesmo tempo em que cumprimenta Evandro, Gustavo agradece a Deus por ter se mantido fiel àquele “assassino”. Ele nunca soube exatamente o que seu cliente fazia, após a ameaça, preferiu nunca perguntar, porém, com os atuais acontecimentos, ele suspeita realmente de que Evandro sabe algo sobre os cadáveres ambulantes que estão por toda parte.

Evandro já freqüentava a oficina mecânica de Gustavo a um ano, quando Joel, seu funcionário, encontrou várias marcas de sangue no porta-malas do policial. A partir desse ocorrido, Gustavo começou a cuidar pessoalmente do carro de Evandro após o expdiente, para que mais nenhum funcionário se envolvesse com aquilo.

O policial sempre foi um cliente sinistro. O mecânico o considerava “muito mafioso”, o que era assustador. Porém o mais grotesco aconteceu após um ano e meio de clientela.

– Joaquim, arruma essa calça! – disse Gustavo para um de seus subordinados – Os clientes não precisam ficar vendo seu cofre.

– Desculpe, senhor Gustavo. – Joaquim respondeu rindo enquanto arrumava sua calça.

– Você não sabe mesmo porque Joel faltou hoje? Ele nunca faltou sem avisar. – perguntou Gustavo sem deixar sua preocupação acabar com seu bom humor.

– Não sei não, senhor Gustavo. Talvez a mãe dele teve que ser internada de novo. – respondeu Joaquim parando o que estava fazendo para olhar para o seu chefe.

– Mmm. Pode ser. Vou ligar para ele e ver se está tudo bem. – comenta Gustavo.

Ele continuou observando o que seus mecânicos estavam fazendo, e depois retornou para o escritório a fim de ligar para Joel e resolver as questões burocráticas de compras de peças para a oficina. Sua oficina havia crescido nos dez anos de funcionamento, “Minhas duas filhas estão crescendo bonitas e saudáveis”, dizia ele se referindo a sua oficina e sua filha Sofia, mas ainda assim, sua prioridade no momento era saber como estava Joel.

Gustavo sempre teve muita consideração por seus funcionários. O bem estar deles era sua prioridade, sem hipocrisia, pois ele não dizia isso, não fazia propagandas de seu “bom coração”, mas as pessoas sabiam; ainda mais aqueles que conviviam diariamente com ele. Sua preocupação era sincera e aumentava a cada tentativa de telefonema frustrada. O telefone tocava e tocava e ninguém atendia.

Ocupado com as ligações e devaneios a respeito do que poderia estar acontecendo com Joel, ele não ouviu Evandro se aproximar da porta.

– Gustavo? – o chamou suavemente.

O mecânico deu um pulo na cadeira. Aquele homem lhe causava arrepios. Ele era a causa de suas más noites de sono e daquela frase sobre as duas filhas ter deixado de fazer sentido.

– Senhor Evandro. – Gustavo foi cumprimentar Evandro tentando não demonstrar o incomodo – Como o senhor está?

– Ótimo. – respondeu secamente – Estou com pressa, portanto tome a chave e cuide bem do meu carro.

Gustavo ficou perplexo, pegou a chave e demorou a dizer algo olhando o para o objeto que estava em sua mão. Quando foi se despedir, Evandro já havia partido. Sem demora Gustavo foi limpar o exterior do veículo e fazer o check-up completo, deixando para limpar o interior depois do expediente.

Quando todos os seus mecânicos foram embora e sua mulher e filha estavam assistindo tv, ele abriu o porta-mala da blazer e iniciou a limpeza interna de trás para frente, a fim de tirar qualquer cheiro “esquisito” que tivesse impregnado o veículo, mas para sua surpresa, ele percebeu que talvez a fonte daquele cheiro não havia sido retirada da pick-up.

No porta-malas havia uma caixa marrom. Por estar sem cadeado, Gustavo pensou que sua suposição estaria errada. Ele limpou as manchas de sangue da caixa e resolveu abri-la para limpar dentro, mas aquela foi a maior idiotice que ele fez em sua vida. Dentro da caixa havia um cadáver mutilado com sua cabeça em cima das outras partes, como se tivesse sido posta para encarar quem ousasse abrir a caixa.

Gustavo vomitou pelo menos umas cinco vezes seguidas, tentando não fazer muito barulho para que Carla não resolvesse ver o que estava acontecendo. A impressão que ele teve foi de que o rosto era de alguém conhecido e aquilo o incomodou ainda mais. Assim que conseguiu se recuperar, o mecânico olhou novamente para o rosto do cadáver e fechou rapidamente a caixa, horrorizado.

– Joel… – se lamentou enquanto pegava um cadeado para trancar a caixa. Ele assim o fez, deixando a chave no porta-luvas da blazer.

Suas emoções eram um misto de angústia, raiva e medo. Mesmo sentindo a miscelânea de sensações, Gustavo prosseguiu com seu trabalho com lágrimas nos olhos e foi tentar dormir, mas não conseguiu. Ele rolou de um lado para o outro da cama, fazendo com que Carla o expulsa-se para o sofá, já que ele tentou ao máximo esconder o verdadeiro motivo da insônia para ela.

Assim que ele abriu a oficina na manhã seguinte, Evandro já estava aguardando para pegar seu veículo. Gustavo não falou nada, nem mesmo o cumprimentou, apenas o levou até o escritório para entregar a chave. Ele queria falar para o policial que ele era um monstro e que desistia de tê-lo como cliente, que não queria ser seu cúmplice, mas ao mesmo tempo tinha medo. E se ele tivesse matado Joel justamente por ele ter visto o sangue em seu porta-mala? E se ele falasse algo que fizesse Evandro querer descontar em sua família? Essa confusão o estava corroendo.

Evandro pegou a chave e virou-se.

– Evandro? – Gustavo chamou sua atenção com uma voz carregada – Gostaria de conversar com você.

O policial olhou para ele, mas não demonstrou nenhuma surpresa. Aquilo parecia premeditado. “Será que ele deixou o cadáver para que eu o visse?”, se perguntou Gustavo.

– Seja breve. Tenho que fazer uma entrega de material. – disse Evandro secamente.

– Eu não quero mais participar disso. – respondeu Gustavo, controlando seu desespero – Vi o “material” que você tem para entregar, e ele era meu amigo. Como você pôde… – ele dá uma breve pausa – Não quero mais ser seu cúmplice.

O olhar de Evandro tornou-se ainda mais frio e agressivo.

– Espero que não esteja pensando em fazer besteira. – ameaça Evandro o encarando.

– Não. Não vou falar com ninguém, apenas não quero mais participar. – retrucou Gustavo quase gaguejando.

– Ele não era mais seu empregado, nem mesmo estava entre nós. Eu não mato nada que já não esteja morto. – disse com a voz fria, fazendo Gustavo engolir em seco ao escutar aquelas enigmáticas palavras – E acredite: me ajudar será benéfico para você e para sua família. – aconselhou o policial, fazendo Gustavo tremer ainda mais ao perceber a ameaça escondida naquelas palavras.

Ele não conseguiu dizer mais nada. O policial o cumprimentou e partiu.

Na época Gustavo não havia entendido. Agora, descendo da fiorino na garagem da casa de Evandro, sabendo o que tem lá fora, Gustavo não sente mais aquele medo e arrepio que sentia, na verdade, ele se sente mais seguro em sua presença.

– Cadê sua filha? – pergunta Evandro amigavelmente.

– Morreu. Foi pega por um “deles”. – respondeu Gustavo com pesar.

– Uma pena. – respondeu Evandro.

Gustavo queria lhe perguntar o que havia acontecido com Joel, mas preferiu não fazê-lo. Sua suspeita de que Evandro sabe sobre o que está acontecendo não é uma certeza, e ele prefere manter essa sensação de segurança que não sentia desde que tudo começou. Infelizmente essa segurança não o conforta completamente, pois junto com a sensação, está a tristeza da culpa pelo que ocorreu com Sofia.

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