Abusos

Há tempos que ninguém do grupo tomava banho de chuveiro. Os banhos, quando eles ainda estavam na casa do sr. Fábio, eram tomados com águas fervidas em panelas e deixadas para esfriar em baldes de plástico.

Inevitável não sentir o cheiro de plástico na água. Inevitável que os banhos fossem tomados com águas em temperaturas não condizentes com a vontade dos banhistas; ou estava muito fria, ou muito quente, mas dificilmente se encontrava da maneira desejada.

Aquilo, porém, era de extrema necessidade, supunham eles, afinal, como garantir que os mortos não haviam contaminado as reservas de água? Como garantir que a caixa-d’água, depois de esvaziada, não fosse enchida com água contaminada? Ou que o filtro de água, embutido na parede da cozinha, possuía real capacidade de eliminar as impurezas trazidas por pedaços de cadáveres em putrefação?

“É melhor prevenir”, dizia Sônia para seus colegas, durante os dias que passaram naquela residência no bairro do Taquaral. Era ela que cuidava “desses assuntos” – higiene e limpeza – para o grupo. Todo dia ela fervia a água que seria usada no banho e que seria tomada durante o dia. Uma vez ela tentou usar galões de água mineral para armazenar água para uns três dias, mas não conseguiu. Afinal, aquelas pessoas eram “mimadas”, dizia ela para si mesmo, tinham “personalidade forte”, dizia aos outros.

Agora no laboratório as coisas são diferentes. Ela não mais precisa ficar cuidando da água; da faxina sim, mas pelo menos uma responsabilidade a menos. Além disso, a cada dois dias cada civil tem direito a tomar banho de chuveiro, de uma água que vem de um reservatório próprio de lá. “Que bom”, pensou ela assim que soube da notícia.

Sentindo a água cair em seu corpo maltratado, de quem trabalhou desde a infância com trabalhos pesados para por alimento na mesa da família, Sônia se considera merecedora daquela regalia. Contenta-se por conseguir relaxar com um bom banho no final do dia de trabalho.

Mesmo sendo uma pessoa simples, com marcas de trabalho em seu corpo: mãos e pés calejados e rachados, algumas rugas aparecendo antes do tempo, pequenas cicatrizes de acidentes domésticos, ainda sim, Sônia era uma mulher bonita e vaidosa, forte, com cabelos bem cuidados, olhar meigo e amigável, e com um belo sorriso de quem se preocupa com sua saúde, assim como com a dos outros.

Como quase tudo na vida de Sônia, sua relação com a própria aparência caminhava em altos e baixos. Apesar de todos os cuidados, aquelas marcas das dificuldades pela qual passou – e ainda está passando – gritam mais aos seus olhos. Para ela, nunca alguém iria desejá-la além de seu marido. Por causa desse pensamento ela agüentou tudo o que passou nas mãos dele.

Mas agora isso é passado. Se há algo bom que os mortos trouxeram em sua perambulação faminta é a chance de renovação na vida das pessoas. Sônia sentia isso em seu íntimo, mas negava. Parecia um pensamento maldoso demais, ver esse “fim do mundo” como algo bom. Entretanto, sempre que pensava em seu passado, em seu marido, Sônia agradecia a Deus pelas coisas terem mudado, mas logo batia três vezes na madeira para afastar esse pensamento satânico. Essa alegria de ter deixado seus problemas para trás, enquanto várias pessoas sofrem com tudo o que está acontecendo.

Claro que Sônia também estava sofrendo com tudo isso. Ela havia, com certeza, perdido uma filha e um filho, seus pais, irmãos e avôs. Mas com a água caindo em sua cabeça e costas, Sônia se sentia aliviada, sem conseguir pensar em seus entes queridos. O toque da água do chuveiro em suas costas lembrava-lhe os dedos de um namorado que teve a muito tempo, pressionando os pontos tensos e fazendo-a relaxar.

Sônia abre os olhos com terror, a semelhança da pressão era grande demais. Ela tenta virar rapidamente, mas o soldado a impede, tirando-a de baixo d’água e arrastando-a para fora do box. Sônia pensa em gritar, mas logo vê que o soldado não está sozinho, que há um de seus companheiros apontando uma arma para ela. Ela engole o grito. Já havia passado por algo semelhante na adolescência; não desejava passar por aquilo de novo, mas gostaria de continuar vivendo.

O soldado que a está agarrando começa se despir em sua frente, enquanto ela se mantém estática, paralisada de medo e repulsa. Com o inferno solto na terra, ela foi tola em acreditar que os homens construiriam algum tipo de paraíso. “Os mortos estão andando e fazendo o que fazem, por causa dos nossos pecados”, disse ela uma vez para Paulo, o psiquiatra “safado” de seu grupo, que debochou da cara dela como um bom ateu.

Sônia se culpa por sua ingenuidade. E pensa em como sair daquilo, mas não consegue ver nenhuma possibilidade de escapatória sem se colocar em risco de morrer. Ela sabe que os militares mandam naquela base, então sua morte seria facilmente ignorada, o que a deixou mais temerosa.

“Por que eu não vim tomar banho com as outras faxineiras?”, se culpou mais uma vez Sônia enquanto o homem pelado em sua frente começava a lhe acariciar, deixando ela com mais repulsa e ódio. “Que Deus me perdoe!”, o homem nu cai ao chão curvado, urrando de dor. Ela sentiu os testículos dele esmagarem entre seu joelho e a pélvis do infeliz.

Sônia esperava escutar um som antes de cair morta, mas nada disso aconteceu. Ela nem escutou o som, nem caiu morta. Se afastou do soldado caído e olhou espantada para o outro soldado, que estava desarmado e paralisado olhando para ela com medo e um suor frio descendo em seu rosto.

– Vista-se. – disse Evandro para ela, enquanto mantinha sua arma apontada para lateral da cabeça do soldado. Junto com ele estava Beto e Ricardo. Beto apenas olhava tudo aquilo com curiosidade, já Ricardo havia se aproximado do soldado que estava agonizando no chão e apontava para a cabeça dele a sua arma. – E vamos sair daqui.

Sônia se enxugou rapidamente e se vestiu sem se preocupar com a presença dos outros homens no banheiro. Ela percebeu que eles estavam conversando algo sobre “o que fazer”, mas não conseguiu prestar atenção. Seu coração estava acelerado, mas agora era de alguma espécie de alegria e alívio.

– Vocês ficam e só saiam daqui, após dez minutos. Depois conversarei pessoalmente com vocês e seus superiores em um lugar mais apropriado. – disse Evandro aos dois soldados.

Sônia não entendia porque Evandro era tão temido e respeitado. Nem mesmo gostava dele, principalmente pelo que ele tinha feito com o irmão de Marcela, mas naquele momento ela percebeu que ele tinha um bom coração por baixo de todos aqueles calos. “Talvez ele só tenha sofrido muito nessa vida”, pensou.

– Muito obrigada, sr. Evandro. – agradece ela enquanto eles saiam do banheiro e iam em direção do dormitório dos civis.

– Não é a mim que você deve agradecer. – responde Evandro secamente, como se nem mesmo tivesse sido tocado pelo episódio – Agradeça a esse moleque punheteiro.

Aquelas palavras surpreenderam a todos, principalmente por estarem saindo da boca do policial. Sônia olha para Beto que instantaneamente fica vermelho, quase roxo de vergonha, enquanto a risada de Ricardo a deixa igualmente encabulada.

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