Ossos do Ofício

Não era fácil se tornar um agente do “Project Immortuos”, pois devia-se não só treinar o corpo e as capacidades de investigação, como durante os dez anos de treinamento passava-se também estudando medicina tradicional chinesa, tibetana, indiana e ocidental. Só após os testes de conhecimento a respeito de sintomatologia baseadas nesses estudos é que o policial tornava-se um agente e começava a “caçar”.

No Brasil, isso não é diferente. Leandro Paiva, que recebeu a intimação para participar do “Projeto Immortuos” assim que ingressou nas forças armadas brasileiras e se destacou pelo seu preparo físico, foi dado como morto para a sociedade, recebeu o nome de Evandro Alberto de Oliveira e iniciou seu intenso treinamento diário, no qual acordava às quatro da manhã e dormia à meia-noite. Um agente em treinamento não tinha fim de semana ou feriado, os dez anos eram intensos e reveladores, além de o tornar um predador quase perfeito.

Mesmo isolado e sentindo-se uma criatura a par da humanidade, é graças a esse treino que Evandro sobrevive atualmente.

Ele escuta o som de um carro na frente de sua casa e pragueja pela ignorância do motorista; provavelmente ele está chamando a atenção de vários immortuos na região. O veículo parece parar e ele escuta a campainha tocar.

Com todo seu conhecimento, Evandro sabe o quanto deve-se ter cautela na “nova situação mundial”. Com certeza devem haver centenas de debile e sapiens immortuos espalhados por ai. Seria tolice dele atender a campainha.

O carro logo desliga e Evandro sorri, caminhando até a porta, de onde escuta barulhos de pancadas e estalos na cerca elétrica. Após escutar o segundo baque de alguém pulando o muro, ele a abre e vê um vulto pulando para dentro de sua residência. Sem pestanejar ele saca sua arma e derruba a “criatura” com um tiro no pescoço e outro na cabeça.

As outras duas “criaturas” pulam para trás de seu carro na garagem se escondendo de sua vista e gritando algo como: “Pare, por favor!”. “Se forem immortuos, são dos inteligentes”, constata Evandro resolvendo iniciar uma conversa:

– Quem são vocês?

– Somos vivos! Viemos buscar ajuda! – responde um deles com uma voz ansiosa.

Cautelosamente, Evandro prossegue:

– Vieram realmente buscar ajuda? Ou querem tomar minha casa? Ou, talvez, comer a minha carne?

Há um breve momento de silêncio, um possível sinal de surpresa por ele estar certo, ou espanto de alguns sobreviventes que achariam estranho alguém tentar conversar com os immortuos.

– Viemos pedir ajuda para Evandro Alberto de Oliveira! – responderam eles, surpreendendo o policial – Temos companheiros vivos do lado de fora da casa, entre eles o mecânico Gustavo que cuidava da blazer cinza dele!

“Gustavo?”, pensa o policial tentado a acabar com aquela conversa e ajudar o bom mecânico. O tal mecânico e sua família, mesmo não tendo uma relação real de amizade com ele, foram os únicos seres humanos com os quais Evandro se simpatizou após seu treinamento.

– Digam seus nomes. – ordena ele.

– O meu é Lúcia. – responde a mulher da dupla.

– Meu nome é Paulo Vieira Sales. – responde o homem logo em seguida.

– Venham até algum local que eu possa vê-los. – as duas pessoas caminham lentamente com as mãos na cabeça – Agora tirem as roupas.

Ambos se olham estupefatos, ouvindo o policial chamar suas atenções:

– Andem logo!

Afinal, não é porque eles sabem seu nome e o do mecânico que ele não se certificará dos sinais. Foi graças aos orientais que os agentes do “Project Immortuos” conheceram esses sinais, permitindo assim a identificação prévia de pessoas que tornariam-se immortuos após falecerem; porém, não era algo fácil de ser percebido. Evandro lembra de quando teve que matar um dos mecânicos que trabalhavam para Gustavo, ao perceber que tal funcionário possuía pelos menos três dos sinais da “doença”.

Atualmente, os sinais da “doença” são insignificantes, pois todo mundo os tem. Porém, os sinais daqueles que já se transformaram são outros, e são esses sinais que Evandro quer se certificar de que a dupla não possui.

– Virem-se, deixe-me ver se vocês não são como ‘eles’. – ordena Evandro para o casal pelado a sua frente.

– Só o fato de estarmos falando não seria prova suficiente de que não somos mortos vivos? – perguntou a mulher, que parecia ser mais corajosa, gerando um pequeno olhar de inveja por parte de seu parceiro. “Ele queria ter feito a pergunta”, comenta a si mesmo o policial, percebendo como aquele homem se sente incomodado pela figura de liderança que aquela mulher representa.

– Não. – sua resposta é seca, o que faz com que os dois o obedeçam sem mais questionamentos.

Ele observa com cuidado e vê alguns dos “sinais menores” mais óbvios que ele aprendeu na medicina oriental: peles um pouco ressecada, veias levemente atrofiadas, olhos com pouco brilho, baixa sudorese. Porém, nada dos sinais “maiores” que os caracterizariam como immortuos.

– Ótimo, seus amigos estão esperando na frente? – pergunta Evandro escutando o carro ligar novamente.

– Sim. Por favor, abra logo o portão, deve ter criaturas se aproximando. – responde Paulo.

Evandro pega o controle de seu bolso e abre o portão.

– Vistam-se. – diz ele para Paulo e Lúcia, enquanto vê o mecânico entrar com a fiorino.

O policial suspeita que a idéia de ter ido procurá-lo, tenha sido de Gustavo. Talvez, finalmente, ele tenha entendido o recado de sua “ameaça” e de que, na verdade, Evandro nunca representou perigo para ele e sua família.

Quando Evandro percebeu os “sinais menores” em Joel – um homem gordo, que se encharcava de suor em pouco tempo, mas estava seco após quatro horas de trabalho – sentiu um pequeno incomodo, pois saberia que aquilo colocaria seu “amigo” Gustavo em risco. Na mesma noite em que percebeu os tais “sinais”, Evandro começou a investigar Joel mais de perto, para certificar de que ele possuía os outros sinais: mucosas esbranquiçadas, diminuição do apetite, calcificação nas unhas, e assim por diante. Para isso, o policial, após analisar algumas fotos que tirou do tal Joel, optou por destruí-lo.

Ele foi até a casa de Joel e esperou dar 20:00hs, o horário que o mecânico deixava sua esposa e seus filhos em casa e ia tomar “uma dose”. Chegando na primeira esquina de sua rua, Joel foi interceptado por Evandro que o estrangulou, sem deixar brecha para perguntas como: “Por que?”, ou súplicas. Aquele homem não tinha culpa, era mais uma vítima do acaso genético ou seja lá o que for, Evandro não saberia o que lhe dizer e, portanto, preferia não conversar com sua presa.

Assim que Joel caiu desacordado, Evandro sacou sua pistola com silenciador e atirou na cabeça dele, no mesmo instante que esse abriu seus olhos famintos. Com um certo esforço, o policial levou o corpo de Joel para um terreno baldio próximo e lá esperou a pequena movimentação do bairro diminuir. Quando deu meia noite, foi que Evandro começou a mutilar o corpo para guardá-lo em sua caixa, sem sentir o mínimo de arrependimento, pois sabia que estava cumprindo seu dever.

Evandro passou aquela noite pensando como “contar” para Gustavo sem revelar exatamente o que ele fazia; ele não queria perder o contato com o mecânico. Foi assim que ele optou por não dar fim no corpo e levar seu carro para o mecânico logo de manhã.

Ao ver o mecânico estacionando o carro e o portão terminando de fechar sem nenhum immortuo adentrar, ele se aproxima para cumprimentá-lo. Ele é uma das poucas pessoas que o policial tem real consideração, e proteger a ele e sua família, trará alguma humanidade para sua vida novamente. “Com certeza trará”, conclui Evandro, sem refletir sobre como sua presença afetará a vida do “bom mecânico”.

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