Situação Internacional

– Isso é inacreditável. – comenta amargamente a primeira oficial do secreto “Immortuos Project”, ex “Undead Project”, da área de investigação e combate ao terrorismo e crimes contra a segurança pública da Interpol ao seu superior, sem tirar os olhos da tela do computador, onde a imagem de uma ampliação do mapa europeu está a mostra. No mapa vários pontos vermelhos, que representam “focos da epidemia”, tomam quase toda a área.

– Concordo que seja impressionante a velocidade com que isso se espalhou em tão pouco tempo. Algo que aparentemente estava sob-controle. – responde o superintendente do projeto, fazendo-a olhar para ele.

A Interpol criou o “Undead Project”, em 1946, quando o quartel general da polícia internacional era em Paris, graças às notícias a respeito de experiências feitas pelo Eixo com cadáveres reanimados e uma possível arma biológica que faria cidades inteiras se extinguirem em uma onda de canibalismo intenso. Posteriormente, os resultados de alguns experimentos foram extraviados e caíram nas mãos dos EUA e URSS, que iniciaram seus próprios experimentos durante a Guerra Fria. Eles, tanto a Interpol, quanto o governo dos EUA e URSS, nunca souberam exatamente como o Eixo conseguiu desenvolver tais experimentos, mesmo que a maioria, por sorte, não tenha dado certo. Todas essas informações nunca chegaram ao grande público, porém, em 1963, durante a Conferencia Geral que ocorreu em Monrovia, Libéria, eles receberam “ilustres” visitantes que exigiram uma reunião privada com os membros da polícia internacional. Foi nessa reunião, que eles souberam que a situação era mais obscura do que poderiam imaginar.

Christine Swan discorda de seu superior com a cabeça.

– Nunca esteve sob-controle, senhor. – sua voz não esconde seu nervosismo e tristeza – Agora muito menos…

James Stevenson se mantém em silêncio. Ele realmente não sabia o que responder, sabia que, de certa forma, a oficial Swan estava certa, e prefere deixá-la desabafar.

– Há quanto tempo aquelas instituições sabem a respeito dos immortuos? Não é a um ou dois séculos, mas a mais de um milênio! – sua fala é alta, quase gritando, e lágrimas escorrem por seu rosto – Faz mais de um milênio que nós, seres humanos, sabemos da existência desses seres e não descobrimos NADA! Nada que nos fizesse ter real “controle” sobre a situação!

James desvia o olhar do rosto de sua subordinada e observa a grande tela do computador por de trás dela, refletindo sobre as perguntas que ouviu enquanto vê a tela com grandes áreas vemelhas.

– Oficial Swan, se acalme. – sua voz é suave – Tente entender que tudo isso não é tão simples assim. – Christine ameaça retrucar, mas a lembrança de com quem ela estava falando a fez se controlar – Por vários milênios o ser humano foi muito supersticioso, isso influenciou muito os resultados das pesquisas. Além disso, as questões políticas, disputas de poder, e todas essas coisas, atrapalharam qualquer ação conjunta que elas pudessem ter feito. Em todo o mundo várias instituições foram responsáveis por manter esses fatos e outros em segredo, além de proteger as pessoas, e elas em sua maioria eram religiosas. Sem nenhuma capacidade de fazer uma pesquisa científica correta até aproximadamente o começo do século XIX.

Christine inspira profundamente e se controla virando-se para olhar a tela, vendo os pontos vermelhos aumentarem no computador. Ela se levanta e vai pegar um copo para beber água.

– Entendo o que você quer dizer, mas e durante a Segunda Guerra, senhor? Ou durante a Guerra Fria?

James aperta um botão no teclado para diminuir o mapa e ver a situação mundial, o que torna a situação ainda mais desesperadora. Graças a informações das bases da Interpol localizadas em outros países, as marcações cobrem os continentes como se fossem núvens cobrindo o céu. Não há sequer um país que não esteja tingido de vermelho.

– Os casos sempre foram raríssimos. Nessas épocas, nossos cientistas ainda viam os “boatos” a respeito de “motos-vivos” como lendas. – James da uma pausa para refletir – Lembre-se que fundamos o “Undead Project” apenas após o Eixo ser derrotado quando, ao invadirmos laboratórios deles na Renânia, Boemia, Áustria e Japão, descobrimos seus experimentos. O que me impressiona, na verdade, é que nenhum governo tinha informações sobre esses seres, ou pelo menos, nenhum expôs tal conhecimento.

– Mas o Eixo sabia da existência desses seres. – retrucou a oficial Swan recebendo um severo olhar de advertência – Desculpe, senhor.

– Prosseguindo. A policia internacional ainda desconhecia a existência daqueles desmortos que surgem a milênios entre os vivos. Compreenda que tanto durante a Segunda Grande Guerra quanto durante a Guerra Fria, os governos estavam preocupados com os experimentos feitos pelo Eixo, EUA e URSS. Nunca tivemos prova de que esses experimentos deram origem a alguma “doença”… – nesse ponto houve um fraquejo na voz do superintendente que não passou despercebido pela primeira oficial – As pesquisas que encontramos, foram fracassadas em criar uma arma biológica tão terrível, porém, sabemos que os Nazistas destruíram algumas pesquisas desse projeto, antes de colocarmos as mãos nelas. Além disso, tanto os EUA quanto a URSS mantiveram suas pesquisas extremamente bem escondidas.

Um silêncio mórbido tomou conta da sala por um tempo.

– Você acha que o problema que estamos enfrentando no mundo seja resultado de alguma falha desses experimentos, senhor? – a oficial quebra o silêncio com a mesma pergunta que James se fazia mentalmente.

Ele reflete por algum tempo e responde afirmativamente com um balanço de cabeça e um olhar triste.

– As informações que as “instituições” nos trouxeram na Conferência Geral de 1963, nos falavam da existência de seres que “espontaneamente” tornavam-se “immortuos” após a morte. Porém, eles não mencionavam nada a respeito de que aquilo era uma doença contagiosa. Isso aparecia apenas nos relatos folclóricos e lendários, mas nada além disso.

A desesperança torna-se ainda mais presente nos olhos de Christine.

– O que faremos agora, senhor? – pergunta com um profundo desânimo na voz.

– Vamos nos preparar para o que está ocorrendo. Dê as ordens para a abertura do terceiro abrigo. Reúna um contingente e leve o máximo de civis possíveis para lá. Eu contatarei o exército para saber como estão indo as operações de sobrevivência.

– Sim, senhor! – responde a oficial Swan passando uma toalha em seu rosto e parte. Mais uma vez James releva a falta de trato da oficial e se aproxima do computador.

Vendo o mapa mundi ele se espanta mais uma vez com a quantidade e velocidade de “contágio”, e mais uma vez acredita em sua teoria de que algo deu errado com algum experimento. Até a última semana a proporção de immortuos eram de um para um milhão de mortos, logo no começo dessa semana essa proporção caiu para um pra cada quinhentos mil mortos, e hoje a proporção está estabelecida de um pra um.

Ao fim de sua reflexão, uma forte melancolia toma conta. Nunca sua arma esteve tão pesada em seu coldre.

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    • Luiz Paulo
    • 23 de julho de 2011

    No Seu post “Delas é o Reino do céu”, eu me lembrei muito de Rec 2… Foi proposital? Enfim, achei legal envolver a igreja no meio da trama.. Tá certo que depois fica evidente que a culpa foi dos experimentos, mas eu acho que a história fica mais “terror” quando envolve religião e tal.. Bem legal.

    No post “Abusos” Eu gostei da preocupação da água do banho ser ou não contaminada, acho que ninguém se importa com isso nas histórias de zumbi, hehhehe.

  1. Então, o “Delas é o Reino do Céu” escrevi em 2006, quando o cenário chamava-se “Necropolitan”, e reeditei para postar. O Rec 2 ainda não assisti, mas gostei muuuito do 1.

    Enquanto a culpa, bem, por enquanto são suposições, afinal já tinham casos de mortos caminhando a milênios, como eles dizem na “Situação Internacional”. Tem mais coisas por vim.

    hehhehe Particularmente, por mais simples que seja a história “Abusos” é uma das que mais gostei do resultado final. A que mais curti escrever será publicada meados do mês que vem e chama-se “Predadores”, acho que vc vai curtir.

    Abração!

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