26º Post

Muito tempo se passou. Muitas coisas mudaram. Conseguimos sobreviver, creio que 60% foi por sorte, 30% por boa vontade de outros e 10% por habilidades nossas.

Não podemos negar que uma das nossas vantagens – dos seres humanos em geral – em relação aos immortuos, é que eles não se procriam. Para que um deles passe a existir, deve haver quem morra. Com o aumento no número de immortuos, houve uma diminuição no número de vivos. Não sei exatamente se eles começaram a apodrecer em algum recanto enquanto buscavam animais longe dos centros urbanos, ou se simplesmente já não sabiam o que fazer sem ter de quem se alimentar e começaram a apodrecer em lugares exclusos das cidades. Realmente não sei. Sei apenas que o número deles decaiu muito. A maioria dos que estão por ai, estão em estados diferenciados de putrefação e o que os deixam lentos; até mesmo os animais immortuos são raros de serem vistos. Isso me deixa realmente preocupado, principalmente que nenhum daqueles que tive contato nesses últimos meses apresentavam algum sinal de inteligência. Onde estão eles? A imagem da emboscada que sofremos em minha memória ainda me faz refletir bastante sobre esse assunto.

De qualquer modo, após sermos encontrados pelos militares, aproximadamente um mês depois dos últimos ocorridos que postei, eu, Gustavo, Marcela e Alessandra fomos levados para o Laboratório Médico da UC, atualmente uma Necropoli Militar. Também estranhei esse termo de início, tal como a maioria das pessoas ao redor do mundo deve ter estranhado quando essa palavra: “Necropoli”, começou a designar não mais cemitérios e lugares onde os mortos “moram”, mas onde os sobreviventes, os seres vivos que restam, vivem.

Passei todo esse tempo sem postar por vários motivos. Desde adaptação à Necropoli Militar que estávamos – afinal, precisava conhecer as pessoas com quem eu estava lidando – até problemas tecnológicos que passaram a existir. Na época que parei de escrever, a bateria do meu laptop havia esgotado completamente, fui descobrir isso quando tentei recarregá-la no Laboratório Médico, mas ela não só não recarregou como meu laptop sofreu algum curto. Consegui resgatar o que tinha no HD assim que adquiri um novo computador, o que demorou muito para acontecer.

Parece que as Necropolis de Campinas não foram as únicas a se erguerem. Em todo o mundo tiveram novas sociedades surgindo, soubemos de algumas graças às tecnologias de comunicação que ressurgiram após o período de escuridão pelo qual passamos.

Certo. Estou jogando um monte de informação, talvez porque esteja um pouco ansioso após esse longo período sem escrever. Tentarei esclarecer melhor como vivenciamos tudo isso em Campinas.

O período de escuridão durou aproximadamente dois meses, onde não tínhamos mais fontes de energia. Não sei exatamente o que levou a esse apagão, sei apenas que ele não durou muito, pois os cientistas e os militares já estavam contando com esse tipo de evento. Assim eles começaram um processo de desenvolvimento de baterias solares, transformação do gás metano dos cadáveres em combustível e dínamos movimentados por energia cinética; física não é meu forte, portanto não entrarei em detalhes sobre isso.

Durante esses dois meses, nossas luzes eram basicamente: tochas e lamparinas, além de lanternas com o mesmo mecanismo de dínamos cinéticos que mencionei no parágrafo anterior. Ao fim dessa fase, ou seja, recentemente, já com energia, os meios de comunicação foram sendo restaurados. Graças a isso estou escrevendo aqui novamente.

Na Necropoli Militar do Laboratório Médico, tinham por volta de três mil sobreviventes; bastante para a área reduzida onde ela foi formada. A relação militares e civis era bem melhor que no antigo laboratório, mas há razões para isso, a principal era que: dos três mil habitantes, um pouco mais de dois terços eram civis (contando com alguns cientistas). Maus tratos lá, com certeza gerariam tumultos entre outras situações bastante tensas; o que acabou ocorrendo uma hora ou outra.

Recentemente, após uma grande reunião e votação democrática na Necropoli Militar, decidimos por criar, em outro espaço, mas bem próximo, a primeira Necropoli Civil. Aproveitamos a diminuição no número de immortuos para fazê-lo, claro que com a ajuda dos militares.

A nossa Necropoli Civil da Cidade Universitária foi erguida com bastante suor. Fechamos uma área de aproximadamente duzentas residências com cercas e barricadas, que mantivemos até que terminássemos de construir muros altos o suficiente para que os immortuos tivessem dificuldade de pulá-los. Essa construção demorou razoavelmente, pois tivemos que fazer excursões para outros lugares em busca de materiais, porém, todos os civis estavam envolvidos em alguma atividade, o que acelerou bastante o levantamento do muro propriamente dito. Até mesmo a “esterilização” auxiliada pelos militares foi feita na maior parte por civis.

Caçamos e destruímos cada immortuos que se encontrava em nossa área. Limpamos todas as casas, desinfetamos com produtos químicos fortíssimos e as dividimos em repúblicas; infelizmente ainda não há como dividir por famílias, pois precisaríamos de uma área bem maior, o que é proporcionalmente arriscado. Para as necessidades atuais, duzentas residências já estão de bom tamanho. Não posso negar que a divisão das repúblicas foi um processo complicado, já que nem todo mundo se sentia agradado com as decisões, mesmo que essas tenham sido feitas democraticamente.

Cada república, ou “mausoléu” como alguns dizem, contam com pelo menos duas bicicletas – sim, no momento é inviável manter automóveis, mas os cientistas, engenheiros mecânicos (incluindo Gustavo), entre outros, estão pesquisando novas formas de “combustível” para carros, motos, etc – além de possuírem um comunicador direto com a base militar.

Na extensão dos muros temos vinte guaritas altas, na qual ficam dois vigias por turno. Esses vigias não possuem armas de longo alcance e têm em mãos um sistema bem simples de comunicação, o papel deles é simplesmente deixar as pessoas avisadas da proximidade de immortuos e em casos de risco, eles também possuem comunicação direta com os militares. Até o momento tivemos poucos problemas para resolver.

Nas escolas tivemos que priorizar além das ciências exatas – que nos ajudará a reformular a tecnologia futuramente – a pratica de esportes. Todos sabem da importância de ter um bom preparo físico para sobreviver esse tipo de calamidade, portanto: atletismo, le parkour, artes marciais (principalmente as que mexem com armas brancas), etc, passaram a ser parte do currículo não só como “educação física”, mas como disciplinas a parte; o estudante escolhe pelo menos dois esportes que quer treinar.

As decisões da Necropoli são feitas em “praça pública”, onde todos têm o direito de opinar e votar, porém é opcional, vai quem quer. Preferimos assim, pois nos dá uma sensação de retorno a democracia e a vida, não a “sobrevida”.

Com o tempo vou falando de como estamos vivendo em nossa Necropoli e os planos de ampliação futuras. Quem sabe um dia, poderemos povoar o mundo novamente e tornar isso tudo mais seguro, ao contrário do que acreditava Lúcia.

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