30º Post

Não sei por onde começar. Estou atônito, confuso e com muito medo. Toda a perspectiva apontava para a melhoria da situação humana no mundo. As coisas estavam voltando a progredir. Essas criaturas podres estavam sumindo.

Simplesmente sumindo.

Já imaginava mesmo que algo estranho estava acontecendo. Tinha esperanças de que eles estivessem morrendo em áreas selvagens, procurando seres vivos dos quais se alimentarem, ou algo assim.

Sinceramente, queria que todos esses últimos ocorridos fossem algum tipo de pesadelo. Que eu estivesse dormindo e logo acordaria.

Depois da tentativa de invasão de immortuos “novos” nessa tarde, os moradores de nossa Necropoli, tanto a civil quanto a militar, ficaram bastante ansiosos com os presságios que isso nos trazia. Era o sussurro rastejante de uma noite sombria e aterrorizante e, pior, de um futuro ainda mais sombrio e amedrontador.

Os grupos de immortuos não retornaram, mas tivemos outra visita: uma sobrevivente. Ela chegou desnutrida com seus cabelos desgrenhados, com a pele imunda – cheia de sangue seco, terra, fuligem, e seja lá mais o que pode deixar a pele extremamente encardida –, roupas rasgadas, dentes podres e feridas pelo corpo, talvez resultado de alguma micose ou outra doença de pele. Seu olhar fundo é desesperador, de quem passou por horrores indescritíveis, algo semelhante ao olhar de sobreviventes de Auschwitz ou de testemunhas de algum crime hediondo. Seus olhos são inquietos, um sintoma grave de stress.

Quando ela apareceu no Portão 2, nossos vigias acionaram o alarme dos comunicadores e não a deixaram entrar, acreditando que essa mulher era mais um deles. Ela não falava nada inteligível, apenas gritava e grunhia em desespero, tentando inutilmente balançar as grades do portão, enquanto olhava aterrorizada para trás, como se estivesse sendo perseguida. “Deixe-me entrar!”, gritou ela com sua voz rouca – segundo os relatos dos vigias, eles acreditam que ela já estava gritando isso antes, mas eles não conseguiram compreendê-la –, mesmo assim, eles não abriram, pois havia uma ordem dos militares de não abrirem os portões para ninguém, mesmo que essa “pessoa” falasse. Eles obedeceram, mesmo sem saber o porquê.

Mas ela não desistiu. Quando os militares chegaram, ela continuou tentando abrir o portão, cansada, arfando, e só parou quando eles apontaram a lança para ela. “Por favor, deixe-me entrar”, ela chorava com a voz falha, e caiu de joelhos em pranto. Os militares arriscaram. Preferiram deixá-la entrar e examiná-la, para ver se não era nenhuma sapien immortuos, pois se não fosse, aquela mulher precisava seriamente de ajuda.

Ela foi trazida até meu consultório, acompanhada de soldados, médicos e o Comandante Rodrigues. Perguntei o que estava havendo e o Comandante respondeu: “É uma sobrevivente. Ela está falando algo sobre um ‘criadouro’, mas não conseguimos entender. Precisamos que você a acalme”. Vendo o estado da mulher, respondi: “Ela não se acalmará tão fácil, nem tão rápido”, e, com um olhar sério o militar ordenou: “As informações dela podem ser de extrema importância para nossa sobrevivência, dr. Faça o que for necessário”.

Eles me deixaram a sós com ela. Ela não parou de tentar falar sobre o “crriaadourro”, mas era muito difícil compreender sua fala. Pedi para que os soldados, que esperavam do lado de fora do consultório, trouxessem comida e água para ela. Da minha parte, optei por dar tranqüilizante àquela mulher. Não queria que ela fosse interrogada, porém ela insistia: “Nã… p… dorrmirr. Q…falarrr…”. A observando de perto, percebia sinais de desidratação. Não sei se ela teve sorte de ter sobrevivido, pois com certeza ficará com seqüelas físicas e mentais.

Os militares trouxeram o que pedi. Ela se alimentou vorazmente e bebeu água, pedi para ela não exagerar, pois passaria mal, mas entrou em um ouvido e saiu pelo outro. Ela vomitou grande parte do que tinha ingerido pouco depois. Após vomitar, ela bebeu água, mas dessa vez sob minha orientação, comeu algumas bolachas e sentou-se.

“Você precisa se acalmar, por favor, tome o tranqüilizante”, disse a ela com um tom calmo de voz. Ela me olhou e falou de vagar, engasgando um pouco: “Eu… preciso falar…”. Respondi a ela: “Esse remédio não irá derrubá-la, apenas deixará você mais tranqüila. Você poderá falar”. Ela negou com a cabeça e disse: “Não… quero… ficar grogue”. Garanti que não ficaria, que lhe daria uma dose apenas para baixar sua ansiedade, ela, mesmo desconfiando um pouco, aceitou e tomou o remédio.

Assim que o engoliu, pediu para que eu chamasse o Comandante. Então pedi para que os soldados o chamassem e, junto a ele, pelo menos um médico para examiná-la direito. Enquanto esperávamos pelo militar, sugeri a ela que tomasse um banho, já que meu consultório era o quarto de uma das residências da Necropoli. Ela aceitou. Pedi para uma das moradoras emprestar-lhe uma roupa e ajudá-la com o que fosse necessário. Antes de sair, perguntei seu nome: “Suzana”, respondeu-me.

Suzana demorou bastante no banho, talvez para tentar tirar o grosso da sujeira, nisso o Comandante chegou. Sabendo que ele não era um homem sensível, conversei brevemente a respeito do interrogatório que faríamos: como fazer as perguntas e até onde ir; já que iríamos interrogar uma pessoa em choque. Ele concordou, mesmo tendo deixado sua impaciência tomar conta da conversa em alguns momentos.

Suzana voltou, ainda encardida, mas aparentemente mais limpa. Pedimos para que ela se sentasse e contasse o que ela queria nos dizer. Colocarei os trechos mais importantes da conversa:

Suzana: Eu sobrevivi… (Pausa, olhando para o espaço a frente como se estivesse em outro lugar. Seus olhos ficaram úmidos). Sobrevivi… (Mais uma breve pausa). Aquele lugar… horrível! O cheiro! O ambiente! A tensão… A morte era certa… Era inevitável… inevitável. (Chora copiosamente).

Eu: Suzana. (Pausa. Ela chora mais um pouco e depois me olha). Quer falar sobre isso outra hora?

Suzana: (Desesperada) NÃO! Vocês não sabem o que é aquilo! Vocês não sabem o perigo que correm! (Levanta-se).

Eu: Por favor, Suzana, acalme-se. (Pausa). Você pode falar. Que lugar é esse?

Suzana: Um criadouro! (Pausa. Suzana senta-se, balançando as pernas ansiosamente). Eles nos capturam e criam como se fossemos animais. (Chora mais um pouco).

Comandante: (Impaciente). Eles quem?

Suzana: Os mortos. Os mortos nos colocam para viver em grandes valas. Nos alimentam como porcos. (Olha chocada para a parede branca, como se deslumbrasse exatamente a cena em sua frente). Eles queriam que nós procriássemos! (Volta a chorar).

Eu: (Atônito). Os mortos faziam isso com vocês? Esses mesmos mortos que a estava perseguindo?

Suzana: Não! (Olha para os meus olhos. Olhar desesperado). Outros! Esses não sabem o que fazem… Eles me perseguiram porque os outros descobriram que nós fugimos.

Comandante: Quem são “nós” e os “outros”?

Suzana: Eu não fugi sozinha… Fizemos uma rebelião… Éramos alguns, mas só eu sobrevivi. (Pausa). Meus amigos foram devorados e se tornaram amigos deles.

Comandante: (Desconfiado). Os que te perseguiam eram seus “ex-amigos”?

Suzana: Não só. Alguns poucos eram. (Pausa). Bem poucos… A maioria não.

Comandante: Eles não estavam apodrecendo…

Suzana: Não! Eles se alimentavam de nós e de animais! O criadouro é pra isso! Para eles terem alimentos!

Comandante: (Ainda mais impaciente). Mas por que um criadouro humano?! Demoramos demais para ter filhos.

Suzana: Não tinha só o nosso! (Pausa). Vi criadouros de coelhos e ratos também.

Comandante: (Pensativo). O que eles faziam com vocês?

Suzana: Só nos alimentavam e queriam que procriássemos! (Pausa. Chorando). Mas não dava! Não lá! Não daquele jeito!

Comandante: (Perdendo a paciência). Se eles se alimentavam de animais, pra que criar humanos? Nós damos mais problemas para eles do que meros animais! Me diga o que eles faziam com vocês? Por que eles queriam que procriassem?

Suzana: NÃO! (Em choque). Não!

Eu: Suzana! Está tudo bem. (Com voz calma e amigável). Você está salva. (Pausa). Por favor, acalme-se. (Pausa maior). Nos fale quem são os “outros”.

Suzana: (Chorando, tentando se acalmar). São os líderes… (Pausa). Eles olhavam diferente. Falavam… (Pausa). bem lentos… Pareciam débeis mentais.

Comandante: (Constatando). Debile Immortuos.

Eu: (Confirmo com a cabeça).

Suzana: (Olhando desconfiada). Eles só pareciam débeis mentais… Eles não eram.

Eu: (Confidente). Acreditamos em você, Suzana.

Suzana: Principalmente o dono. (Pausa). Ele nos ameaçava. Dizia que se não procriássemos, seríamos levados para alimentar seus “irmãos”, ou algo parecido. (Pausa). Ele falava como se estivesse vivo.

Comandante: (Olhando para mim). Você sabe o que é, não?

Eu: Sim, Comandante.

Comandante: (Olhando para ela). Quem é esse dono?

Suzana: Não sei seu nome. Mas era um morto.

Eu: Você o viu? Pode descrevê-lo?

Suzana: Não o vi. Apenas sua sombra, quando eu fugi. (Pausa). Ele nos disse: “Inútil fugir! Não há portas que sejam capazes de impedir a morte de pegá-los”. (Grifo meu).

O interrogatório não foi muito além disso, mas aquela frase está me perturbando. A semelhança é muito grande. O Comandante disse que enviará amanhã um grupo de busca ao local que Suzana nos indicou; pedi para ir junto.

Eu realmente preciso saber. Preciso acabar com minhas dúvidas.

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    • luizmariano
    • 12 de agosto de 2011

    Que massa!

    Turba de zumbis, hehehe, gostei!

    Cara, o Dr. vai se ferrar se for ver o que tá rolando na cidade Zumbi, coitado.

  1. Heheheh

    Como diz o ditado: “Pau no @#$ do curioso!” :P

  2. vc desenha muito bem professor mais é so caveira que vc desenha ????

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