Predadores

Ao se imaginar novamente em um grupo de sobreviventes, agente Paiva – mais conhecido como Evandro – sente que fez a coisa certa ao deixá-los. Ele achou que poderia ajudá-los, mas seus métodos eram distantes demais da realidade emocional daquelas pessoas.

Para sobreviver em um mundo como o atual, com poucos seres vivos e milhares de immortuos, as pessoas devem ser mais pragmáticas e objetivas se realmente não quiserem ser devoradas. Naquele grupo, ele via isso em um ou dois companheiros, mas infelizmente era a extrema minoria, principalmente depois que uma delas, Lúcia, havia morrido. O mundo está cada vez mais perigoso, e apenas aqueles capazes de encarar essa periculosidade de frente é que realmente sobreviverão.

Com o número de immortuos imensamente maior, a periculosidade aumentou não apenas por questões numéricas, mas também pela presença de um número maior de debile immortuos e, quem sabe, sapiens immortuos. Esses seres são sagazes, inteligentes, capazes de emboscar um ser humano como um gato faria com um rato, ou qualquer uma dessas metáforas; o que foi feito uma vez com Paiva e seu grupo, porém o jogo mudou, o policial, nessa nova situação, não é um rato, dessa vez ele é um cão de caça.

Esse foi o outro motivo que o fez se afastar do grupo: ele precisava caçar aquele que organizou a emboscada que quase os dizimou. Infelizmente, não importa o que fizesse, Carla não voltaria à vida. Evandro – agente Paiva –, se lamenta realmente pela morte da “mulher do mecânico”, pois imaginava o quanto àquela perda deve ter derrubado a única pessoa com quem ele teve algum real contato social nos seus trinta anos de profissão; dez de treinamento, vinte de caçada.

Além disso, ele havia falhado em sua missão auto-imposta de proteger o “mecânico e sua família”, aqueles que o aproximavam de sua humanidade. Porém, agora ele sabia: ele não é humano, não importa o quanto ele se esforce para se sentir assim.

Não foi tão difícil de encontrar os rastros de sua presa o que o trouxe até a esquina onde se encontra. Agente Paiva voltou ao local onde ocorreu a emboscada e observou bem o terreno. “Se você liderou seu bando nessa região, deve ter sido de algum ponto estratégico. Mas qual?”, era o que o policial pensava enquanto observava aquele local cheio de mato, com condomínios de escritórios ao longe.

Ao ver uma torre de caixa d’água em um dos condomínios, as esperanças de Paiva reascenderam e foi lá que ele buscou vestígios do debile immortuos, líder daquele bando. Foi lá que sua caçada realmente começou.

Olhando por detrás do muro da casa de esquina, o policial vê quatro insanus immortuos esparsos em estado avançado de decomposição caminhando lentamente sem rumo. Seu orgulho lhe faz pensar que seria fácil passar por eles, porém, seus anos de experiência lhe dizem que isso seria extremamente imprudente, afinal, sua presa está a espreita em algum lugar, o aguardando como se ela própria fosse o verdadeiro predador.

Paiva respira fundo, deixando o ar sair lentamente de seu pulmão, observando como está a situação ambiente. Ao respirar ele percebe o quão rançoso está o ar, com o cheiro de podridão quase o intoxicando. Ele sente o vento leve tocar sua pele e se dirigir ao sentido oposto ao que os immortuos se encontram, o que o contenta por confirmar aquilo que suspeitava: sendo espantoso o faro das criaturas, eles já o teriam sentido se o vento não estivesse ao seu favor. Seu único desejo é que não haja mais nenhum outro immortuos a pelo menos cem metros em sua retaguarda.

Percebendo que passar por aquela rua não é uma das melhores opções, Paiva, sem guardar seu revolver com silenciador, retorna duas casas e pula o muro, optando por fazer seu caminho por dentro.

Sem muita dificuldade ele abre a porta. Ela estava trancada, mas a fechadura era simples, nada que o policial nunca tivesse aberto antes. Ele caminha dentro da casa, buscando algum mantimento que não esteja estragado, pois sabe que não terá muitas outras oportunidades. No armário da cozinha ele encontra algumas bolachas com a data de vencimento para daqui dois meses, pega-as e as coloca em sua pequena mochila.

A casa está silenciosa, mas isso não quer dizer muita coisa quando se está caçando um debile immortuos – como é o seu caso – ou um sapien immortuos. Sentindo um pequeno incomodo, o policial opta por vasculhar a casa, ao menos para ver se sua presa passou por lá.

A porta do corredor está aberta e, ao entrar, ele se depara com sangue seco espalhado por todas as direções, além de pedaços de carne em putrefação, centenas de moscas e larvas. Aquilo lhe causa um certo enjôo pelo cheiro forte – algo que é difícil de se acostumar – e um estranhamento por todo esse sinal de luta, mas nenhum sinal de arrombamento nas portas de entrada da casa, entretanto, nada disso o impede de continuar em direção aos quartos.

Seus instintos de predador estão excitados. Algumas poucas vezes Paiva se confundiu entre sua natureza predatória e sua natureza sobrevivente, o que acabou lhe colocando em enrascadas. Porém, para ele, não é isso que está ocorrendo dessa vez, depois que entrou naquela casa, ele soube que há algo lá que vai lhe ajudar em sua caçada.

Ele entra em um dos três quartos da casa. O fedor está mais forte e ele se prepara para qualquer possível perigo. As venezianas estão fechadas, o que impede a entrada da luz do sol pela janela, mesmo assim é possível ver que a cama está ocupada por alguma “massa ondulante”. Ele clica no interruptor para ascender a luz, mas não tem energia, “Por que fiz isso?”, se pergunta já que a falta de energia não é uma novidade para ele. De sua mochila ele saca uma pequena lanterna e varre o local com sua luz, iniciando pela cama – onde há dois corpos com a cabeça estourada cheios de vermes se movimentando – e seguindo por todo o quarto.

Não há nada ali. Ele desliga a lanterna e caminha para o outro quarto, não aquele que está mais próximo, mas para o do fim do corredor. A porta está trancada, o que ele estranha, mas não se intimida. Com presteza e cuidado ele a destranca, quase sem fazer nenhum barulho; entretanto, não é com a mesma “delicadeza” que ele a abre. Após virar a maçaneta, Paiva a empurra com o pé, apontando sua pistola para todos os cantos daquele quarto, procurando um possível habitante.

A janela do quarto está escancarada, o que o torna completamente iluminado, sem possibilidades das sombras esconderem alguma surpresa. Não encontrando ninguém aparente, com cautela, Paiva se agacha para ver embaixo da cama, mas não encontra nada. Depois revista os armários e, novamente, nada. Ele se aproxima da janela gradeada, para ver se há alguém no quintal, mas não vê sequer um movimento.

Pensando que talvez aquela sua intuição investigativa, na verdade tenha sido um mero incomodo por sua situação, Paiva se afasta ainda olhando para o quintal e vê algo que o chama a atenção: um pingo de sangue fresco na beirada da janela.

Ele se aproxima para se certificar e sente a adrenalina aumentar quando uma mão desmorta toca a grade ao mesmo tempo que um berro monstruoso sai da garganta de seu dono. Por reflexo Paiva aponta sua arma para a testa da criatura e puxa o gatilho. Contudo, quando aquele cai, outros mais aparecem. “Merda! É uma armadilha!”, pragueja o policial correndo para a fora do cômodo.

Mais urros daquelas criaturas ecoa pela casa, Paiva chega até a entrada do corredor e se depara com vários já dentro da residência. Com três tiros ele derruba dois insanus immortuos e fecha a porta, correndo de volta para o quarto, enquanto escuta a madeira espatifando no chão.

Ele fecha a porta do quarto onde encontrou a gota de sangue e vê uma aglomeração de seres decompostos na janela. Encostando-se na porta ele recarrega sua arma e pega um objeto oval em sua mochila. “Hora de te usar”, comenta mentalmente enquanto se afasta da porta e aponta para aquela direção. Com a boca Paiva segura o pino da granada e o retira, a segurando sem deixar a alavanca cair.

Os insanus immortuos derrubam a porta, urrando insanamente, enquanto começam a cair pelos tiros de Paiva, que solta a alavanca da granada. Após o quinto tiro – e 3 segundos contados – ele arremessa a granada pelo espaço entre o batente da porta e a cabeça das criaturas, voltando a atirar logo em seguida. Antes da granada chegar ao nível das cabeças a explosão ocorre, elas são destroçadas pelos estilhaçoes e pedaços de cadáveres voam para dentro do quarto.

Sem perder tempo ele corre por cima do aglomerado de carne e já prepara sua segunda e última granada. Indo em direção a porta do corredor, ele vê mais um grupo de insanus immortuos o encarando. Um urro diferente interrompe todos os rosnados daqueles que o encaram na entrada do corredor, fazendo-os recuar. Mesmo desconfiando do que está acontecendo, Paiva caminha lentamente até a copa e depois para a cozinha: mais nenhum outro immortuos é encontrado.

Abrindo a porta dos fundos ele se espanta pela repentina ausência das criaturas, guarda a granada e corre até o muro, subindo nele. Agarra-se no telhado e o sobe, buscando ter um local estrategicamente melhor para lidar com a situação.

Olhando para todo seu entorno, Paiva percebe o jogo sádico no qual se encontra. Centenas de immortuos estão cercando a casa onde ele está. Ele sorri, reconhecendo o potencial de seu “inimigo”, e de algum lugar ele escuta uma risada sinistra e disforme.

“Finalmente um pouco de dificuldade”, comemora intimamente o policial com arrogância, trocando o pente de sua arma.

– Está na hora de definirmos melhor quem é o predador e quem é a presa. – desafia em voz alta o agente Paiva, escutando um berro que parece aceitar seu desafio.

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  1. Mto foda!!!

    Melhor post até agora, acho que eu gosto das partes de ação/suspense, hahahahha.

    Paiva é braddock!

  2. Hahhahahah Paiva é Braddock foi massa! rs

    Ainda tem mais um conto focando nele e outro apenas com a participação.

    O 2º livro, terá mais a presença do agente Paiva. Irei começar a escrever em janeiro :D

    Abração

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