Infecta

A dor é lacerante. Segurando seu antebraço esquerdo mutilado com a mordida do insanus immortuos, o agente Paiva tenta pensar em uma solução para seu novo problema – enquanto foge de vários immortuos que o persegue – antes que a necrose tome todo seu braço e antes que as bactérias o matem.

Em sua mochila ele carrega a cabeça do debile immortuos que ele estava caçando. Um presente a um amigo, que ele não entregará se não fizer algo, e rápido. Correndo por um matagal, Paiva se recorda da perseguição que ele e o grupo de Paulo sofreram, e também recorda da morte de Carla, “a mulher do mecânico”.

Sem pensar duas vezes, Paiva vai na direção de um mercado que vê a quase cem metros de onde se encontra. Suas balas acabaram, tudo que tem agora é um pedaço de ferro que conseguiu no caminho e sua faca, algo não muito eficiente contra algumas dezenas de insanus immortuos.

Chegando no mercado, ele procura uma forma de subir ao telhado e, por sorte, encontra uma escada de marinheiro. Paiva sobe rapidamente – o mais veloz que esse tipo de escada permite – enquanto escuta alguma das criaturas tentando subir a escada também.

Ao chegar no telhado, Paiva sorri por seu plano estar dando certo, enquanto aguarda a criatura. Ele sabe que sua situação atual se difere em muito daquela na qual estava há meia hora atrás, quando sua presa tentou encurralá-lo dentro da residência e ele demonstrou não ser apenas mais uma vítima.

No momento em que o debile immortuos retirou sua tropa para que Paiva saísse da casa e visse o seu poder, o policial entendeu que a criatura não o deixaria ser morto por seus subordinados. Aquilo era um desafio entre titãs, e todos aqueles lacaios, nada mais eram do que meros artifícios de seu adversário para cansá-lo.

Paiva subiu ao telhado e observou sua situação. Após uma rápida análise, ele traçou o seu plano e subiu no ponto mais alto da casa, sua caixa d’agua, para ter uma visão completa do terreno e determinar de onde vinham as ordens.  Ao avaliar a provável direção, ele correu pelos telhados saltando de um para outro, alternando casas de forma a criar obstáculos para seus algozes; observando as criaturas persegui-lo com dificuldade pelas partes baixas.

Ao chegar no último telhado, no fim do quarteirão, Paiva pulou da casa e correu para a rua. Porém, sua atitude contrariou até mesmo seu bom senso. Ao invés de fugir de seus perseguidores, foi de encontro a eles. Derrubou pelo menos sete com tiros certeiros na cabeça, mas isso não foi o suficiente, os insanus immortuos se aproximaram e tentaram agarrá-lo, entretanto, ele foi muito bem treinado para enfrentar tais criaturas. Sacando sua faca com a outra mão, ele conseguiu derrubar mais três de seus inimigos, dois com tiro e um com uma facada precisa no centro da cabeça.

Após o corpo do terceiro cair estatelado ao chão, Paiva foi agarrado e tentando se desvencilhar, acabou sendo mordido no antebraço ao contrapô-lo à mordida que visava seu ombro, próximo ao pescoço. Mesmo pensando já estar morto, ele continuou lutando, e acabou sendo salvo pelo urro de seu real adversário.

Por causa da ordem do debile immortuos, o insanus o soltou e, enquanto todos se afastavam, ele fez um torniquete em seu antebraço com um pedaço de sua camisa. Após isso, agachou-se e pegou sua faca que ainda estava cravada no immortuos inanimado no chão, com sua mão tremendo devido a dor que sentia.

– Voooccê… seeeerrráa… grande…. aaajuuudaaa… nóos… – disse o debile immortuos aparecendo na entrada do grande corredor que se abriu.

Paiva ignorou. Como se nada estivesse ocorrendo, ele pegou de seu coldre mais um pente de sua pistola e se preparou.

– Ajuda? – perguntou Evandro respondendo ao seu adversário, que se aproximava cautelosamente – Mmm. Me mostre que você é digno de minha ajuda.

O debile entendeu o desafio e começou a se aproximar mais rápido. Paiva guardou sua faca e atirou em um dos joelhos do immortuos, que caiu no chão por inércia.

– É só isso que você tem a oferecer? – provocou o agente, percebendo o ódio da criatura aumentar.

Para sua surpresa, o debile também sacou uma arma e disparou, mas para sua sorte, o immortuos não parecia ter tanto treino quanto ele.

Paiva saltou rolando no chão e começou a correr em direção do final do corredor, por onde tinha vindo. Antes de passar os últimos immortuos que formavam o paredão, ele virou-se e atirou em seu adversário.

Como calculado corretamente, a criatura estava se preparando para soltar um de seus urros, que provavelmente ordenaria a seus subordinados para que o parassem. Seu tiro atingiu exatamente na garganta do débile, destruindo-a sem decapitá-lo, emudecendo-o.

Sem comemorar o ocorrido, o agente atingiu quatro dos immortuos que estavam em seu caminho e correu. O debile immortuos, não mais conseguindo dar outra ordem para seus lacaios e sabendo que não poderia contar com eles até o efeito da ordem passar, começou a caminhar mancando rapidamente atrás de Paiva. Seu ódio era imenso, o que obscureceu sua paciência.

Paiva esperou seu perseguidor, escondido atrás de um muro de uma casa aberta. Aguardou-o com toda cautela de um atirador de elite. A criatura surgiu bufando, como se tivesse perdido sua pequena capacidade mental.

Sentindo o cheiro do agente, ele olhou em direção do muro onde Paiva se encontrava, mas antes de conseguir vê-lo, um tiro estourou parte de sua cabeça, derrubando-o.

O policial, com sua faca, arrancou a cabeça de seu adversário – o que não foi tão difícil graças ao estrago que seu tiro havia feito – e a guardou, começando a correr logo em seguida. Ele sabia que os outros immortuos começariam a perseguí-lo a qualquer momento, o que não foi diferente.

Ele escuta os urros no estacionamento do mercado, enquanto espera a cabeça do insanus immortuos que está subindo a escada aparecer. Ele prepara o ferro e assim que a criatura aparece, crava-lhe sua “arma” na cabeça dele.

Paiva sente a dor no antebraço novamente quase lhe tirar a consciência. Ele retira a faca de seu coldre e corta um pedaço da bochecha do immortuos que está dependurado na entrada da escada.

Ele sabe o que fazer, mesmo não tendo certeza de que irá funcionar. “Se existem os sapiens immortuos, porque não seria possível existir infectas que conseguem manter sua mente intacta?”, se pergunta o Agente Paiva, se convencendo para fazer aquilo que deve fazer, “Além do mais, se eu não fizer isso, serei um deles logo logo”.

Sem mais argumentar, ele morde o pedaço de carniça crua e engole com grande esforço, vomitando em seguida. Ele se ajoelha e continua vomitando mais e mais, até seus vômitos serem apenas sangue.

Exausto, ele cai no chão e sente a tensão em seus músculos. A transformação é extremamente dolorida. Ele sente como se seus músculos e pele estivessem rasgando, e um grande calor começa a queimá-lo por dentro. Uma grande quantidade de adrenalina atinge seu cérebro e seus sentidos ficam extremamente excitados. Quando Paiva abre os olhos, vendo o mundo em matizes de vermelho, ele percebe que sua mente mudou profundamente.

Olhando para do telhado para os immortuos na vastidão do estacionamento, Paiva sorri. Ele quer mais, e sabe como conseguir.

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