Fome de Sentido

Observando a cidadela de sobreviventes humanos no vale abaixo, Ahmed se recorda de quando “morreu” há aproximadamente cinqüenta anos atrás, por causa de uma pneumonia, no período do jejum no mês do Ramadan.

Ele foi um grande fiel do Islam por muito tempo, mas depois de sua “morte”, tudo mudou. Em seu coração, há ainda uma grande convicção de que foi graças às suas práticas espirituais que ele conseguiu passar pela transformação sem se tornar uma besta, como a maioria daqueles que povoaram o mundo recentemente, mas isso não o impediu de tornar-se um monstro.

Por experiência, ele sabe qual é a dificuldade de manter a sanidade durante o processo de “morte” e “ressurreição”, e também nos anos após. O corpo se enfraquece, a visão torna-se turva, a boca e as mucosas secam, para depois o corpo esfriar, o pulmão não mais se movimentar – dando uma sensação de afogamento –, o coração parar e a visão escurecer, criando um vasto terreno para alucinações. Ahmed teve uma visão do inferno durante seu falecimento, viu pessoas se devorando, sentiu na pele o desejo de devorar enquanto uma dor lacerante lhe dava a impressão de que estava sendo empalado e mutilado, porém sem perder a consciência em momento algum.

Ahmed observou tudo aquilo com grande esforço e orou para Alá pedindo misericórdia, pois após quarenta anos de servitude, não entendia o porquê estava sendo empurrado para o inferno. Seu corpo tencionava-se cada vez mais, ele sentia o estômago se revirando, espasmos que geraram estranhamento, já que seu corpo estava morto. Ele tentou respirar algumas vezes, por mero e forte hábito. Sua mente quase enlouqueceu de angústia quando percebia que não conseguia, que o esforço hercúleo não trazia benefício algum.

Ele se levantou com seu corpo já lavado quando seu irmão o estava enrolando com a primeira mortalha. Ahmed viu o terror no rosto de seu familiar, mas não sentiu nenhuma compaixão ou piedade. Sentia sim uma grande dor e vontade de tomar sua vida. Sentia que aquilo que lhe faltava, seu irmão possuía.

Seu irmão tentou fugir, mas a potência do corpo de Ahmed era maior por causa das tensões. Em uma explosão muscular, ele correu até seu irmão, o agarrou pelos ombros e o puxou, derrubando-o no chão.

Depois disso, houve apenas sangue e gritos, principalmente depois que seus outros familiares chegaram. Ahmed não os atacou, sabia que a probabilidade de ser “morto” era grande, então fugiu. Depois desse ocorrido ele foi “viver” na cidade de Lahore, no Paquistão, com sua grande população de islâmicos, entretanto não conseguiria sobreviver muito tempo se não agisse com cautela.

E assim o fez.

Por vinte anos conseguiu agir em Lahore sem chamar muita atenção. Assassinatos brutais deixaram a população temerosa, mas ele sabia como agir de forma que parecessem assassinatos religiosos, semelhantes aos dos antigos seguidores de Hassan. Suas vítimas sempre eram pessoas corruptas da comunidade islâmica ou raros infiéis: hindus, budistas, siques, e assim por diante. Porém, em um dado momento, uma de suas caçadas falhou. Ele chegou a morder sua vítima, mas essa conseguiu fugir e morrer horas depois, quando já havia espalhado boatos sobre a presença de ghul na cidade.

Foi graças a esse ocorrido que Ahmed percebeu que não precisava comer sua vítima até que ele morresse. Ele sentiu a vida dela aplacar seu sofrimento aos poucos, tendo seu efeito máximo quando ela faleceu. Entretanto esse fato também teve outros resultados.

Por máximo que a mente moderna negasse a existência de seres folclóricos ou mitológicos, a comunidade religiosa não o fez. Iniciou-se então uma caçada de alguns fanáticos à tal criatura. As autoridades legais não ficaram atrás, porém eles não caçavam um ghul, mas deixaram de temer que os assassinatos fossem obra de alguma seita xiita e passaram a acreditar que eram atos feitos por um pequeno grupo de assassinos sem fundamento islâmico, pois canibalismo não é bem visto pelo seguidores do Corão. Dessa forma ele preferiu partir para uma cidade menor, Okara, mas dessa vez, por medo de ser descoberto, se limitou por anos a alimentar-se de animais e de andarilhos.

Foram anos tortuosos que em alguns momentos fizeram com que Ahmed tentasse voltar à prática de sua religião, porém, depois da transformação, foi inviável manter suas crenças e práticas religiosas, sua atual natureza é incompatível com a fé, ou pelo menos, é para ele.

Ahmed passou pelo menos mais cinco anos em Okara, depois disso ano após ano peregrinou de uma cidade a outra, sem saber o que fazer de sua existência, além de lutar contra o constante sofrimento que sentia, se esforçando ao máximo para se manter são. A existência tediosa e sem sentido, o tornava, cada vez mais, um assassino cruel e calculista.

Matar, era a única coisa que o saciava. Que aplacava seu sofrimento. Ou, pelo menos, era essa a única percepção que ele conseguia ter de sua situação.

Foi há alguns meses atrás que o mundo se transformou no grande inferno que ele imaginou que um dia habitaria pela eternidade. Em pouco tempo, seres iguais a ele surgiam em todo o planeta, porém, poucos conseguiam sobreviver à transformação sem seqüelas mentais; e ele, cada vez mais, sentia o peso de seu ódio e de seu sofrimento em sua mente.

Com essa mudança, Ahmed desceu para a Índia, preferiu mudar de território, imaginando que isso, de alguma forma, traria respostas ou novas maneiras de lidar com sua condição. Lá ele entendeu como seus semelhantes menos capacitados podiam ser liderados por ele, e ficou surpreso com a empatia que voltou a sentir, porém, dessa vez, era em relação aos outros ghuls.

Esse retorno a um pequeno vislumbre de “sentimento humano”, lhe fez dar um novo sentido para sua “vida”. Assim, ele criou um exército de desmortos, que tinham como objetivo, extinguir quaisquer riscos as suas existências.

Ahmed retoma sua atenção à cidadela, repassando mentalmente o planejamento da invasão, para que eles tenham maiores chances de dizimarem aquelas ameaças. Ele urra fazendo com que seus soldados desmortos partam em direção ao inimigo. Cada tipo de urro fazendo-os agir de modos diferentes, conseguindo assim guiá-los estrategicamente na empreitada.

O velho morto-vivo sorri, percebendo que aquela sensação de poder e importância lhe dá mais um sentido para sustentar sua sanidade. Mas seu sorriso não dura muito. Um outro urro faz com que seu exército inteiro pare e retorne a posição inicial.

Mesmo estupefato, Ahmed tenta enviar novas ordens, mas isso demonstra-se inútil.

– Que diabos está acontecendo? – pragueja o paquistanês em urdu.

– O que você quer com isso? – uma voz áspera, na mesma língua, vindo de sua retaguarda, o faz ter sensações que ele acreditou que não serem mais possíveis. Um arrepio sobe sua espinha e um grande incômodo aflige seu coração.

Ele olha para trás e vê uma figura esquálida, alta, em estado de putrefação avançado.

– Quais seus objetivo com essa empreitada? – a criatura pergunta novamente em urdu.

– Quem é você? – Ahmed desvia da pergunta de seu interlocutor com outra questão.

– Qual dos meus nomes você quer saber? – responde a criatura, esboçando algo próximo a um sorriso.

– O seu verdadeiro nome. – responde incisivamente o paquistanês.

A criatura ri, fazendo-o sentir raiva, mas por alguma razão que Ahmed ainda não consegue explicar, ele não sente vontade de ferir seus semelhantes. A raiva apenas aumenta sua aflição e a vontade de tomar a vida de alguém; a única coisa que realmente alivia o sofrimento.

– Por que ri? – indigna-se Ahmed.

– Porque você é um tolo! Uma criança sem discernimento! – responde rispidamente a criatura – De que adianta ter mantido sua sanidade até agora, se você pensa como um animal?

O ódio começa a borbulhar em Ahmed. A dor e a angústia aumentam. Sua mente entra em uma violenta correnteza de sensações, imagens e pensamentos, que o torturam. Ahmed sente que está prestes a perder completamente seu autocontrole.

– AARRRGHHH! EU PRECISO DE VIDA! – grita o morto-vivo desesperado.

– Todos precisamos. Nós, eles, e qualquer outro ser. – retruca a criatura encarando Ahmed com seus olhos aparentemente cegos, esbranquiçados, mas que dão a impressão de olharem nas profundezas do espírito do ex-islâmico. – Você consegue perceber a fragilidade daquilo que você se esforça para manter?

As palavras da criatura o atingem como um soco. Ahmed percebe o quão delicado é esse “controle” que ele luta tanto para manter, ao mesmo tempo em que uma súbita compreensão o toma de imediato.

– Até quando lutar contra um inimigo externo lhe trás essa sensação de objetivo que te ajuda a manter sua sanidade? – pergunta a criatura.

– Até que não haja mais com quem lutar. – responde Ahmed, compreendendo o que a criatura quer lhe dizer. – Mas depois eu não sei como será. Terei novamente que lutar sozinho contra mim mesmo.

– VOCÊ É UM TOLO! – grita a criatura, surpreendendo o paquistanês. – Lutar contra você mesmo? Há duas mentes ai dentro?

Ahmed sente-se pressionado e não perde muito tempo refletindo:

– Uma boa e uma má. – responde imediatamente.

– Ignóbil! – a criatura atinge-lhe um soco que o faz cair ao chão por causa do impacto. Ele nunca havia sentido um golpe tão forte, mas o que mais lhe surpreende, é que ele não entende como a criatura é capaz de ferir um igual. É um impulso instintivo deles, não se digladiarem. – Terei que te destruir, pelo jeito. Você é estúpido demais para ser um dos que mantém suas capacidades mentais quase intactas. Você, com o poder que tem, irá trazer apenas mais sofrimento para todos nós, e para eles. – A criatura aponta com a cabaça a cidadela que Ahmed pretendia atacar.

– Mas… mas como? – pergunta o morto-vivo extremamente confuso. – Como você será capaz de me destruir?

A criatura ri novamente.

– Qual a diferença entre te destruir e matar qualquer ser vivo? – a criatura o encara – Mas por certo, você me pergunta isso, apenas para saber como adquirir mais poder e dar um sentido ainda mais estúpido para você tentar manter sua medíocre inteligência.

Ahmed sente uma grande vergonha se misturando com seu ódio.

– Não, eu…

– Cale a boca! – a criatura o interrompe – Não tente se enganar, criança. Você acredita ser eterno. Que eternamente terá que “lutar contra você mesmo”, nesse estado de esquizofrenia no qual você viveu até hoje. – um sorriso se esboça novamente em sua boca – Nós não somos eternos, o tempo nos degenera e o sofrimento torna-se cada vez mais insuportável. Fingir que isso não acontece de nada adianta e tampouco se agarrar a esses sentidos vãos que colocamos em nossas vidas, irão nos livrar de nossa angústia.

Em sua mente, Ahmed inicia uma discussão, tentando manter aquele sentido de “vida” que o fez se sentir mais forte nesses últimos tempos, que a cada palavra de seu interlocutor, desmorona e se transforma em pó.

– O que devo fazer, então? – pergunta Ahmed quase em desespero.

– Não sou seu pai, tampouco seu Deus. – responde a criatura – Tem apenas uma coisa que posso afirmar que você NÃO deve fazer: destruir essa cidadela.

– Mas por que não? – pergunta o desmorto.

– Simplesmente, porque eles são os únicos vivos dessa região. Nós apenas encontraremos outros em uma semana de viagem. – a criatura responde e vira-se para partir.

– É só para isso? Você vem até mim, faz tudo que fez, só para manter sua fonte de subsistência? – pergunta Ahmed indignado.

Ele escuta uma risada novamente.

– Nós precisamos de vida, fiel. – o óbvio da resposta deixa Ahmed ainda mais frustrado – Você quer tomar a vida de cadáveres? Por que não toma sua própria vida?

Ahmed nada responde, estupefato.

– Esses ghul, nossos semelhantes, só estão mortos, porque se deixaram prender completamente pela repetição do sofrimento comum a nós. O que te faz acreditar que tudo isso que você faz consigo mesmo, não te prende ainda mais ao seu sofrimento?

Uma forte angústia toma conta de Ahmed.

– Quem é você? – pergunta o paquistanês, em desespero – Me ajude.

– Meu primeiro nome foi Ravana, mas isso não tem importância e de nada o ajudará. Encare essa impotência e angústia que você está sentindo. Só assim você a compreenderá. Se não fizer isso, sua “sanidade” não durará nem mais uma década.

Ahmed curva-se em respeito.

– Agora deixe essas pessoas em paz.

Ravana caminha, sem mais olhar para trás, deixando Ahmed sem outra alternativa, a não ser encarar seu sofrimento, sentindo sua fome devorá-lo e o desejo de matar aumentar. Ele olha para a cidadela e a dúvida o divide ao meio.

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