Mudanças

– Filho da puta! – Gustavo escuta o comandante Rodrigues gritar, voltando a olhar pelo binóculo, tentando ver quem é o immortuos que está comandando o ataque.

A chegada da “sobrevivente” trouxe muitas perguntas para todos os moradores da Necropoli. Com Gustavo e Marcela não foi diferente.

– O que você está vendo? – pergunta Marcela.

– Não consegui ver nada além de um bando de insanus immortuos. – responde Gustavo, utilizando o termo que aprendeu com Paulo, que está desaparecido a mais de vinte dias com o grupo de busca que saiu atrás da localização do “criadouro humano”.

– E se eles invadirem a Necropoli? – pergunta Marcela preocupada.

– Não irão. Estamos seguros. – responde Gustavo vacilante.

Marcela desconfia da resposta.

– Você soube sobre o que aquela tal de Suzana falou, não soube? O que era aquele grupo de busca com o qual Paulo saiu? – questiona Marcela.

Gustavo acena com a cabeça e volta a observar com o binóculo.

– Ela sofreu muito, Ma. As coisas que ela fala não fazem sentido algum. – responde o mecânico tentando confortá-la.

– Mas olha o que está acontecendo agora. – sua voz é trêmula – Não quero ter que fugir novamente. – ela começa a chorar.

Gustavo coloca o binóculo de lado e se aproxima para confortar sua namorada.

Desde que eles construíram a Necropoli civil, Gustavo e Marcela sabiam que teriam que deixar o passado para trás e reconstruir suas vidas. Gustavo auxiliou bastante no desenvolvimento da Necropoli, além de auxiliar nas pesquisas de novos combustíveis para os automóveis. Enquanto Marcela teve que aprender novos ofícios, já que uma jornalista – em um momento que havia uma grande necessidade de mão obras – não era tão útil. Mesmo assim, Marcela não deixou por desejar, indo atrás de aprender tudo o que podia para ajudar a construir aquela “cidade dentro da cidade”.

Ambos foram morar em uma mesma república, ou mausoléu, como alguns chamam as residências. Uma casa de dois andares que dividem com mais três pessoas. Durante os meses que se passaram, Gustavo e Marcela tornaram-se cada vez mais próximos, até um inevitável relacionamento correr. Tudo parecia estar voltando a uma certa normalidade, eles já deslumbravam no horizonte um renascimento para a raça humana.

– Nós não vamos ter que fugir novamente.

Ela se desvencilha de seu abraço.

– Pare de tentar me confortar! – grita angustiada – Nem você mesmo acredita que estamos tão seguros!

Gustavo fica sem resposta. Um grande e incomodo silêncio entre os dois toma conta do lugar. O mecânico nem mesmo escuta os tiros dos militares contra a turba de mortos vivos.

– Ma…

– Não! Preciso de espaço no momento. – afirma afastando-o com as mãos.

Gustavo opta por respeitar, a fim de evitar uma possível discussão. Ele volta para a janela do quarto e pega o binóculo novamente, para ver que a multidão de immortuos havia partido após terem feito um grande estrago no portão um da Necropoli. Os militares se mantêm a postos, para caso eles voltem, mas aquela visão já lhe permite puxar assutno novamente com Marcela.

– Eles se foram. – diz ele.

– Mas vão voltar. – retruca ela.

– Sim, irão. – responde o mecânico novamente – É assim que o mundo está atualmente. No momento não temos o que fazer, a não ser nos defender.

– Até quando isso? – pergunta Marcela irritada.

– Não sei. Talvez para o resto de nossas vidas. Mas pelo menos estamos em uma situação melhor do que nos meses antes de virmos pra cá. – responde Gustavo, começando a se irritar.

– Talvez seja melhor morrer! – diz desesperada.

– E se tornar um deles? – questiona Gustavo – Não fala besteira.

– Claro que não! Estou dizendo morrer de verdade! Ter a cabeça arrancada e ser cremada. – responde ela.

– Ma, por favor, seja razoável. Nossa situação não é imensamente diferente da que vivíamos antes disso tudo ocorrer. – diz Gustavo com uma voz mais suave – Só que naquela época tínhamos outros problemas. Haviam…

– Juro que não quero conversar sobre isso agora. – Marcela encerra o assunto, saindo do quarto.

Gustavo senta-se na cama e fica pensando se a comparação que ia fazer entre a situação atual e a violência no mundo antes da “epidemia” era coerente. Entretanto, seus pensamentos flutuam de um assunto para outro – expectativas, cenas do passado, planos, esperanças, e assim por diante – impedindo que ele consiga refletir com profundidade sobre o tema.

“Se Evandro estivesse conosco”, pensa Gustavo sendo pego de surpresa pelo seu desejo de segurança. Mesmo com a morte de Carla, o mecânico não tinha rancor do policial. Ele sabia que a atitude dele tinha sido para ajudá-la, mesmo que tenha dado errado.

Duas batidas na porta do quarto tiram Gustavo do transe.

– Entra.

A porta se abre e um homem magro, alto, de cabelo comprido entra com uma caixa.

– Fala, Gustavo. Beleza? – cumprimenta o homem.

– Tudo bem sim, Lucas. – responde Gustavo olhando para a caixa – Aconteceu alguma coisa?

– Não, não! – gesticula Lucas enquanto fala – Só vim te entregar isso. – Lucas entrega a caixa para o mecânico.

– O que é isso?

– Os militares disseram que foi deixado na frente da guarita três hoje durante a troca de turno da tarde. – responde Lucas.

– E os militares não abriram para ver? – Gustavo pergunta suspeitando daquilo.

– Não abriram a caixa, apenas o bilhete.

– Bilhete? – a curiosidade de Gustavo aumenta, fazendo-o procurar o bilhete, que está em um envelope grudado em uma das laterais da caixa – Ok, Lucas. Valeu.

A sós com a caixa, ele abre o bilhete:

“Caro, Gustavo ‘Mecânico’,

Isso é para que você saiba que aquele que nos causou tanto sofrimento não mais caminha nesse mundo.

Atenciosamente,

Evandro”.

Sentindo um calafrio, pois sabe que a forma de agir, e provavelmente pensar, de Evandro não condiz com o de um ser humano normal, Gustavo abre cautelosamente a caixa. Assim que tira a tampa, um cheiro de carniça sobe até as narinas do mecânico, que imaginando o que é, fecha a caixa e sai do quarto com ela.

Ele desce a escada e passa pela sala onde Marcela está assistindo a um filme.

– Onde você vai? – pergunta sua namorada.

– Vou jogar isso no lixo.

– E o que é isso?

– Um dos presentes bizarros de Evandro. – responde o mecânico tentando encerrar logo a conversa.

Marcela se surpreende:

– Evandro está vivo?

– Parece que sim. – responde brevemente Gustavo – Agora me deixe levar isso para o lixo, por favor.

Marcela não responde, apenas faz cara de quem não gostou da resposta e volta a assistir o filme. Gustavo sai da casa e vai até onde os moradores colocam seus lixos que serão levados pelos militares até algum laboratório de combustível, ou até um lixão.

Chegando lá, ele coloca a caixa junto com os outros lixos.

– Evandro, Evandro. – ele suspira pensando alto – Imagino que você tenha feito com boa intenção, mas isso não é um bom presente.

– Ah não? E o que seria um bom presente? – Gustavo se assusta com a voz vinda de trás dele e se vira rapidamente.

– Evandro? – pergunta Gustavo, olhando para aquela feição familiar, porém com algo bem diferente do que se recorda – O que aconteceu com você?

Os olhos de Evandro estão vidrados, com veias aparentemente estouradas, seus músculos estão claramente tensos e um de seus antebraços está mutilado.

– Não interessa. – responde secamente – Não vim pra isso. Quero lhe fazer um convite.

– E qual seria?

– Construirei uma Necropoli e quero que você me ajude. – responde Evandro.

– Venha morar conosco. – convida Gustavo.

Evandro ri.

– Não. É um outro tipo de Necropoli que quero construir. – por algum motivo Gustavo fica preocupado, mas espera para escutar se o policial tem algo a mais para dizer – Nela, não haverá humanos e nem immortuos.

– Como? – Gustavo fica confuso.

– Irei atrás de alguns antigos colegas e te treinaremos. Quando você estiver pronto, será como eu. – responde Evandro.

– Como você? – pergunta o mecânico – E o que é ser como você?

– É ser o início de uma real transformação nesse mundo morto.

Gustavo o encara nos olhos. Ele nem imagina o que o policial está planejando, mas, até um certo ponto, confia nele. Quem sabe essa seja uma boa notícia para ajudar Marcela a acabar com suas preocupações e eles ficarem numa boa.

Entretanto, esse pensamento soa estranho, tendo em vista que quem está planejando algo é um homem que de “numa boa” não tem nada.

– Certo. Aceito te ajudar, mas a Marcela vai junto. – responde Gustavo um pouco vacilante.

– Como quiser. – da de ombros Evandro – Arrumem suas coisas. Partiremos amanhã.

Evandro vai embora assim que termina de falar. Gustavo fica olhando para o lixo por algum tempo, refletindo se sua resposta foi realmente a melhor escolha. Ele lembra de Carla e o que Evandro tentou fazer com ela para ajudá-la a sobreviver.

Gustavo volta para casa, com um caroço incomodo em seu estômago.

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