Outcasts – Livro I: Párias – Capítulo 2 (Parte 1)

Os anos em Arach-Tinilith passaram-se rápidos. Para surpresa de muitos, Sabal não sofreu tanto quanto acreditavam – ou desejavam – que sofreria. Sua força em muitos momentos fora testada enquanto se preparava para tornar-se uma clériga de Lolth. Em todas as ocasiões ela surpreendeu aqueles que a testaram.

Pelo máximo que suas atitudes parecessem fracas – sem o aparente senso de superioridade com o qual todos os drows, especialmente as mulheres, eram educados a ter – continham uma surpreendente força que deram vantagens a Sabal. Ninguém sabia o que esperar dela. Ninguém conseguia conceber o quanto aquelas características que a faziam parecer crédula, gentil e humilde, eram suas reais armas até que fosse tarde demais.

A nova clériga da Casa Agrach Dyrr, retornou ao seio de sua família considerada madura em termos de idade, já com seus vinte anos. Porém, suas irmãs e mãe continuavam subestimando-a. Acreditavam que fora pura sorte ela ter voltado de Arach-Tinilith sem nenhuma seqüela. Além de ter sido uma grande surpresa perceberem que Sabal mantinha seus hábitos em relação aos machos e aos escravos mesmo após tantos anos de treinamento como clériga de Lolth. “Uma vergonha para nossa Casa”, era o que pensava Nasshna Dyrr, mãe de Sabal.

Após ter retornado a sua Casa ela foi testada por suas irmãs e as derrotou na mais pura e simples intimidação. Os conflitos entre elas não chegavam ao confronto físico, pois Sabal sabia como fazer com que sua força fluísse através de seu olhar. Na maioria das vezes, as irmãs desistiam de qualquer investida, saindo pela tangente com desculpas diferentes em cada momento. A nova clériga conquistou aos poucos seu lugar de respeito, porém, sempre que possível, seus familiares a ignoravam. “Assim é melhor”, Sabal acreditava piamente nisso.

Em seis anos após seu retorno a Casa Agrach Dyrr, Sabal acabou descobrindo por parte dos machos que confiavam nela, como realmente funcionava a hierarquia Dyrr; o que lhe causou uma grande decepção. Em primeiro momento ela passou a ver a Matrona Ysraena Dyrr como uma fraca que deveria perder seu lugar, mesmo que fosse ela quem tivesse de usurpar o trono da Matrona. Com o tempo esse pensamento passou a mudar em sua mente. Ela sabia o quanto o Velho Dyrr era poderoso e o quanto a Casa devia a ele sua posição na hierarquia de Menzoberranzan. Mesmo assim era inviável para ela que esse quadro não mudasse. Após vários meses de planejamento Sabal foi tocada pelo desânimo e pela vergonha e resolveu que chegara a hora de deixar sua Casa no momento em que viu uma aranha negra descer pelo seu broche. Esse era o sacrifício que Lolth esperava dela, “tudo faz sentido agora”.

O que ela não sabia é que talvez sua dedução não estava completamente correta. Quando essa conclusão chegou em sua mente, as maquinações de suas irmãs e de sua mãe contra sua vida já estavam para ser postas em prática. Sabal estava em seu quarto arrumando suas coisas, vestindo sua armadura e pegando suas armas, – a mornigstar e seu grande escudo -, quando seu espaço foi invadido por um demônio menor, provavelmente invocado para acabar com sua vida ou enfraquecê-la o suficiente para que outro finalizasse o serviço. Esse adversário lhe deu trabalho, mas não o suficiente. Logo ela reconheceu que aquilo não havia sido invocado por uma clériga, mas por algum mago da família. Com o seu prestígio junto aos machos da Casa, não foi difícil que ela encontrasse o dono da artimanha e retirasse dele as informações que a levariam a sua mãe e suas irmãs.

Como se previsse a atitude da filha, Nasshna Dyrr e suas outras duas filhas se prepararam junto com alguns escravos em um dos cômodos do palácio. Sabal foi de encontro a elas para tirar satisfações e não estava se importando com o que teria de fazer, pois estava para deixar a Segunda Grande Casa de Menzoberranzan.

Ao chegar no local onde sua mãe se encontrava, Sabal percebeu estar em uma situação desvantajosa. O local estava com pelo menos dez goblins armados com bestas e dois minotauros carregando machados, além de suas irmãs e mãe com suas respectivas maças.

– Creio que chegou o fim para a vergonha que você me causa. – disse Nasshna brevemente – Sua morte virá pelas mãos daqueles que você considera seus iguais.

Com uma risada zombeteira, Nasshna ordenou um ataque a sua filha, que não ocorreu. Surpresa ela olhou para os escravos que demonstraram medo, porém algo os colocou em dúvida. Sabal reconheceu pelo menos quatro daqueles goblins e um daqueles minotauros e sabia que eles possuíam uma dívida para com ela. Nesses seis anos ela havia praticado todos os deveres de uma clériga de Lolth. Havia feito sacrifícios à deusa, porém sempre que possível ela conversava com os escravos e futuros sacrifícios a respeito. Fazia com que eles vissem a glória daquele ato, a glória de serem sacrificados para a grande deusa dos drows. Aqueles que ela percebia não terem compreendido, viviam por mais alguns dias, até compreenderem minimamente que seu destino era inevitável e se entregassem a Lolth em seus últimos momentos. Muitos dos escravos viam uma nobreza por parte da clériga que não viam em outras, e a respeitavam por isso.

– O que você faz é um sacrilégio! O medo é nossa maior arma, suavizá-lo vai contra os ensinamentos de Lolth – diziam suas irmãs clérigas, apenas para escutar a resposta seca de Sabal.

– É Lolth quem deve me julgar.

Percebendo que os escravos não atacariam, as irmãs de Sabal resolveram atacá-la, mas rapidamente foram executadas pelos goblins que as atingiram com uma grande quantidade de flechas. Nasshna tentou não demonstrar seu medo ao ver que a tática de sua filha havia sido mais eficaz que a sua de incitar medo nos escravos e iniciou orações para invocar os poderes da deusa. Porém, antes de conseguir completar as magias, os minotauros a atacaram e a mutilaram sem muitos esforços.

Sabendo que sua situação estava complicada, Sabal convenceu os escravos de que precisaria da ajuda deles para poder fugir com vida. Esses prontamente aceitaram fazer o que fosse preciso para ajudá-la. Como se estivessem preparados para que algo não corresse como planejado, os guerreiros que seguiam ordens diretas de Nasshna tentaram interceptar a fuga de Sabal, mas foram contidos pelos escravos que a acompanhavam em uma luta feroz. Todos os escravos morreram, porém não sem dar baixas no grupo de guerreiros. O tempo dessa luta foi suficiente para que ela alcançasse uma das saídas do palácio. As notícias se espalharam e um grupo de busca foi feito para caçar a desertora. A Matrona Ysraena não deu tanta importancia para o acontecimento, pois era uma menina estúpida que deixava a Casa Agrach Dyrr, o que resultou em poucos participantes na busca. O principal era Mariv que, conhecendo bem Sabal, sabia por onde ela iria e como evitar os escravos.

No momento em que Sabal está para deixar o palácio, Mariv a intercepta:

– Sabal, desista. Não há porquê você continuar com isso. Se você sobreviver a essa fuga estará arruinada socialmente. Pare e pense, vale a pena se rebelar contra sua própria Casa? – apontando seu sabre para a clériga de Lolth da Segunda Grande Casa de Menzoberranzan o guerreiro demonstra seu respeito apenas não a olhando diretamente nos olhos.

– Mariv abaixe essa espada. Posso não mais ter uma Casa, mas continuo sendo uma clériga de Lolth. – o guerreiro abaixa o sabre – Ótimo. Agora podemos conversar.

Abaixando a cabeça em sinal de vergonha o guerreiro espera algum castigo vindo da clériga, mas nada acontece. Então com uma voz baixa e respeitosa ele diz:

– Senhora, não faça isso. Morra nas mãos de seus familiares, é menos vergonhoso do que se tornar uma sem-Casa.

Sabal Dyrr toca o ombro daquele que lhe ensinou a manejar a morningstar e sente uma leve tremida, algo natural vindo de um macho. Falando suavemente ela tenta confortá-lo.

– Me escute Mariv, nossa Casa se corrompeu. Você não vê que quem a comanda é o velho Dyrr? Não há glória nenhuma em eu morrer como uma Dyrr e muito menos em viver como uma. Deixe-me ir. É o que Lolth quer.

O guerreiro levanta a cabeça vagarosamente. Espantado com a atitude da clériga, mas logo ele lembra o porquê Sabal era tão desdenhada por suas irmãs e o espanto passa. A afeição que ele sente por ela é muito grande, o que o incomoda. Ela não é muito bonita para os padrões dos drows. Sem a armadura ela se confundiria facilmente em uma multidão em Mezobenranzan. Mas ela sempre foi o que os povos da superfície chamam de “simpática”. Sempre tratou os outros de uma forma que a tornava fraca diante dos olhos das irmãs, mas nenhuma nunca conseguiu provar sua fraqueza. Na verdade muitas clérigas já provaram sua força e muitos guerreiros já caíram diante sua morningstar.

– Não posso deixá-la ir. Seu argumento é forte, mas não posso deixar de lado o que nossa Matrona me ordenou. Sinto muito. – por um momento Mariv fraqueja e abaixa a cabeça em sinal de vergonha novamente, o que é suficiente para que sua cabeça seja atingida pelo peso da arma de Sabal.

Mariv sente seu corpo se contorcer involutariamente devido à eletricidade conduzida pela arma e cai atordoado tateando o chão para encontrar seu sabre. Quando sua mão toca o cabo do sabre ele escuta a voz amigável da clériga.

– Eu também sinto muito, Mariv. – e um forte golpe dilacera a face do guerreiro que cai morto no chão com seu corpo tremendo.

Sabal Dyrr observa o cadáver do guerreiro e pensa no único lugar que pode lhe abrigar nesse momento: o Braeryn

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