Outcasts – Livro I: Párias – Capítulo 2 (Parte 2)

“Até que para dezoito anos de treinamento, ele absorveu bem o que eu tinha para passar”, pensa Azirel Sel’Xarann, enquanto observa o seu dicípulo atingir precisamente um ponto de pressão no abdômen de seu oponente hobglobin que perde a chance de um contra-ataque, vomitando no chão. Rapidamente o esguio drow saca uma de suas facas e com um giro da lamina entre os dedos, corta a jugular do adversário que cai agonizando no chão enquanto seu sangue esvai.

– Muito bom. Só gostaria que causasse menos sujeira da próxima vez. Isso dá um pouco mais de classe ao combate. – diz Azirel caminhando na direção de seu discípulo que se posiciona prontamente de forma respeitosa diante de seu mestre.

– Falta um professor para isso. – responde Alak com um sorriso sarcástico no rosto.

Azirel gargalha e toca o ombro de seu discípulo.

– Sua arrogância ainda me diverte, só não ache que será por muito tempo.

O discípulo mantém o sorriso no rosto enquanto Azirel caminha até o hobglobin e examina o corpo.

– Acredito que daqui a pouco poderei apresentá-lo aos Bregan D’aerthe. Falta mais prática ainda.

– Ã!?! O que você disse? – pergunta Alak parecendo um tanto ofendido com a observação.

– Como eu disse, sua arrogância por enquanto ainda me diverte, porque ela te deixa estúpido.

Por algum tempo o mestre encara o discípulo que devolve o olhar demonstrando uma pequena preocupação que ilustra o pensamento que passa naquele momento em sua mente: “Ele percebeu”.

– Você o atingiu para sufocá-lo, não para fazê-lo vomitar. Errou o ponto por alguns milímetros. Vá refletir sobre suas atitudes.

Alak cumprimenta seu mestre e vira as costas, contrariado, indo para sua cabana. Azirel passa as duas mãos na cabeça ajeitando sua vasta cabeleira branca. Por um tempo ele se perde observando a entrada da cabana de seu discípulo: “Estou ficando velho e distraído, isso é perigoso”, comenta consigo mesmo, “Por pouco ele não me enganou”.

O velho eremita se aproxima de sua companheira aranha-espada e acaricia uma de suas patas.

– Vazmaghor, o tempo em que passei fora das cidades drows tem me deixado lento. – comenta Azirel ao seu companheiro animal que responde a ele com um fino e estridente guincho.

Ainda com as carícias de Azirel em uma de suas patas os pêlos de Vazmaghor eriçam. Azirel percebe que ela pressentiu alguma aproximação hostil e se prepara em uma posição discreta de luta desarmada. Por precaução ele olha para a cabana de seu discípulo, que continua como estava antes.

Observando ao seu redor ele nada encontra, mas continua a perceber a inquietação de Vazmaghor. Sentindo um deslocamento de ar vindo na direção de sua cabeça, ele consegue se virar a tempo para interceptar o projétil, – que cai ao chão -, e logo percebe que mais três projéteis estão a caminho. Com extrema habilidade o eremita se esquiva de dois e bloqueia o terceiro de forma majestosa, fazendo com que o projétil retorne a sua origem atingindo o arremessador que grita.

Percebendo que não viriam mais projéteis ele consegue ver pelo canto dos olhos que aqueles são os punhais de Alak e sorri.

– Alak, acredito que já possa parar de bancar o assassino covarde.

– Ultimamente você tem se demonstrado muito fraco, mestre. Precisava testá-lo. – responde Alak enquanto sai de seu esconderijo de pedras.

Azirel gargalha. Ele sabe que está ficando velho. Sua idade avançada está chegando e isso não coopera em nada.

– Ter você como discípulo foi uma excelente escolha. Obrigado Vazmaghor. – virando-se para sua aranha o eremita agradece.

– Mestre quero que você me ensine seus segredos antes que possa ser tarde demais. Você sabe que não tem o mesmo preparo que antes, não é?

Com um sorriso de canto de boca Azirel responde:

– Não se preocupe, não morrerei antes de lhe ensinar.

– Como você pode ter tanta certeza? – pergunta Alak demonstrando descrédito.

– Pois Lolth quer assim. Quer que eu lhe ensine todos os meus segredos. Quer que você seja uma arma dela. – Azirel setencia como se fosse a única certeza que ele possui ou já possuiu em toda sua vida.

– Não me importo com o que Lolth quer. – Alak responde com desdém e rapidamente é arremessado ao chão por uma imensa força. Atordoado o jovem drow olha para seu mestre que está apontando seu dedo indicador e o dedo do meio unidos em seu pescoço. Alak não sabe ao certo o que seu mestre está ameaçando fazer, mas sabe o quanto é perigoso.

– Tenha respeito! Somos guerreiros eremitas, mas nunca deixamos de ter fé em nossa deusa, escutou!? Nem nela nem em seu guardião, Selvetarm. – diz firmemente Azirel. O velho eremita sabe o quanto ele abnegou educação religiosa a seu discípulo e sabe o quanto isso pode custar caro a ele.

– Desculpe, Mestre. – responde Alak secamente, mas com um medo claro em seus olhos.

O mestre se distancia do discípulo aos poucos e o observa enquanto esse se levanta. Quando Alak já está de pé, Azirel o encara por alguns instantes esperando que ele o cumprimente respeitosamente. Alak o faz juntando as mãos e se curvando um pouco.

– Somos eremitas, mas somos mercenários. Não somos religiosos e nem quero que você seja. A natureza possui suas dádivas, que usamos com sabedoria, porém ainda sim a serviço de Menzoberranzan e, acima de tudo, de Lolth. Tenha isso em mente. E aprenda a respeitar, mesmo que sua forma de respeito seja ficar calado quando esse assunto entra em pauta. Entendeu?

Alak se curva novamente diante do mestre que o olha severo:

– Sim, Mestre.

– Ótimo. A partir de amanhã você inicia seu treinamento final e sua preparação para me suceder.

Azirel vira as costas para o seu discípulo e sai com Vazmaghor atrás de água e alimento.

Anúncios
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: