Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 2 (Parte 4)

“Não compreendo como os Driders podem ser considerados amaldiçoados se Lolth lhes dá tanto poder. Não seria sua existência uma forma de servir nossa deusa?”, reflete Sol’al enquanto observa um chitine que se encontra aprisionado em uma cela no pequeno palácio da Casa Teken’th’tlar. “Esses seres são tão patéticos e ainda assim são abençoados pela Rainha das Aranhas” seu olhar demonstra total desprezo pela criatura dentro da cela “Qual será o segredo que os Driders guardam? Não me parece que ao falharem no Chwidridera, Lolth os tenha virado as costas”.

Sol’al caminha até a porta para se retirar daquele recinto. Faz dois anos que ele deixou o Sorcere para retornar a sua Casa. Assim que chegou, não perdeu um segundo sequer e retomou seus estudos específicos a respeito de aranhas e seus “derivados”. O enigma dos Driders ainda atiçava sua curiosidade. “O que guia as ações de um Drider?”, “Até que ponto o ódio que eles sentem é superável?”, “Lolth ainda se comunica com eles?”, eram pensamentos constantes na mente do recém mago adulto da casa Teken’th’tlar. Pelo máximo que o tenham criado para odiar os Driders, vê-los como fracos e falhos, ou até mesmo como uma grande piada feita pela Rainha dos Fossos Demoníacos, Sol’al não conseguia ter nada além de fascinação por aqueles seres.

Desde seu encontro pessoal com um Drider, onde ele viu o olhar vidrado daquele ser, o fascínio apenas cresceu em sua mente. Saindo do recinto, Sol’al caminha até seu quarto onde se dirige imediatamente a sua escrivaninha para poder escrever todas suas reflexões em um de seus tomos. Aquele tomo no qual apenas anotações a respeito dos Driders são feitas. O tomo que se for encontrado poderá custar-lhe a vida por heresia.

O mago põe-se a escrever por horas a fio. Faz anotações a respeito de suas dúvidas, reflexões, estudos e veneração pelos amaldiçoados. Em sua mente seu fascínio conflita com sua educação drow e até mesmo isso é anotado. Para ele há algo errado, não que saiba exatamente o quê, mas há!

Ao terminar, Sol’al esconde seu precioso tomo e caminha para a biblioteca a fim de fazer mais estudos.

– O que temos aqui? O jovem erudito está caminhando pelos corredores ao invés de ficar trancafiado em seu quarto? – diz uma mulher drow que se veste com um manto que denuncia sua posição de feiticeira dentro da Casa e que está acompanhada por um mago macho bem conhecido por Sol’al como sendo um dos principais magos de sua Casa: Jabor.

– Estou apenas indo para a biblioteca, senhora. – responde Sol’al de cabeça baixa com tamanha humildade que faz o mago acompanhante da feiticeira virar o rosto de vergonha.

– Obrigado pela útil informação, criança. – diz a feiticeira com um claro tom de deboche – Apenas não se perca no meio do caminho. – conclui prosseguindo junto ao mago e disparando em gargalhadas.

– Obrigado, senhora. – Sol’al se curva mais uma vez em sua falsa, porém convincente, demonstração de humildade e respeito; afinal, ela não é uma Clériga de Lolth, mesmo sendo uma fêmea.

Após esse incidente, o jovem mago prossegue em direção a biblioteca. “É óbvio que há algo errado”, pensa ele com grande ódio pelo ocorrido, “Continue a lembrar do que lhe disse o Mestre Q’Xorlarrin, Sol’al. ‘Não demonstre demais suas capacidades, jovem. Isso acaba tornando suas fraquezas evidentes'”. Com isso surgem pensamentos a respeito de como demonstrar fraqueza pode ser uma defesa imensa a respeito de sua verdadeira força. Esses pensamentos fluem como um turbilhão até que o raciocínio o faz retomar o assunto de sempre: Driders.

“Talvez Lolth reconheça isso. Reconheça que o poder pode ser demonstrado de várias formas, ou pode ser mascarado para que ele surja no momento oportuno”, Sol’al chega à biblioteca e caminha em direção as prateleiras sobre criaturas-aranhas. “Os Driders podem ser uma grande arma nos esquemas da deusa”, pensa ele pegando livros a respeito de experiências com ettercaps, chitines e aranhas extraplanares. Ele precisa conhecer todos os possíveis derivados dos aracnídeos para compreender a natureza de um Drider, “E como um dia poderei me tornar um sem ter que decepcionar Lolth”, mas logo após esse pensamento ele balança a cabeça como se ainda considerasse aquilo uma heresia.

Sol’al abre o livro e inicia seus estudos. Reconhece várias semelhanças básicas entre a sociedade drow e a chitine, fruto do culto a mesma deusa e a terem usado a estrutura social drow como alicerce para a construção de sua própria sociedade. O jovem mago sabe que os chitines foram criados em experimentos mágicos e isso lhe agrada, porém, em sua opinião, foram experimentos que criaram uma raça fraca, débil e sem muito potencial. Ele precisa estudar uma mágica mais potente para criar os Driders como uma raça que se procriasse e desenvolvesse sociedades. Ou talvez apenas modificar os existentes, com permissão de Lolth, é claro.

– Sol’al, gostaria de falar com você. – o mago Jabor interrompe os estudos e as reflexões de Sol’al que o olha um tanto atordoado, como se estivesse voltando de outra realidade.

– Claro, Mestre. No que posso ser útil? – responde o jovem mago se curvando e falando com voz extremamente baixa, como se estivesse em um templo de Lolth falando com uma clériga.

– É exatamente sobre isso que quero falar. Não exagere no seu papel de humilde ignorante. – Sol’al levanta a cabeça para olhar diretamente no rosto de seu superior com uma feição perdida – Você sabe do que estou falando. Cuidado para não mostrar fraqueza além do necessário, isso pode colocá-lo em grandes problemas.

Sol’al continua olhando para Jabor sem nada responder, refletindo a respeito do que foi dito. Novamente ele se perde em pensamentos quando seu superior o trás de volta ao presente.

– O Mestre Xorlarrin me falou muito bem de seu desempenho no Sorcere e isso é excelente. Já tínhamos uma pequena relação com a Casa Xorlarrin, agora que ele demonstrou um certo interesse em relação a você, isso pode estreitar ainda mais as relações entre nossas Casas.

Jabor dá uma pausa enquanto Sol’al o observa.

– Demonstre apenas a humildade e fraquezas necessárias, pois você pode acabar tornando sua força muito evidente. Estarei de olho em você.

O mago se vira enquanto Sol’al apenas responde em seu tom de voz normal:

– Sim, Mestre.

A porta da biblioteca se fecha e Sol’al retoma seus estudos, refletindo ao mesmo tempo sobre tudo o que seu superior acabara de lhe falar.

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