Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 3 (Parte 2)

Enquanto Alak prepara os óleos que ajudarão a manter suas novas espadas resistentes às ações do tempo, Azirel limpa as duas patas dianteiras de seu falecido companheiro Aranha-Espada, Vazmaghor, purificando-as com o poder da terra. Foi difícil para os dois encontrarem o pequeno Nodo de Terra, mas em momento algum eles desistiram de seu objetivo. Vazmaghor morreu durante uma enorme e difícil batalha entre drows e trogloditas próximos a uma estação mercante importante para Ched Nasad e, conseqüentemente, importante para Menzoberranzan. Alak não se recorda do nome da estação, mas isso pouco importa para ele no momento.

A batalha foi brutal, Vazmaghor demonstrou ser um adversário terrível aos trogloditas, mas o número deles era bem maior que o exército drow. A grande Aranha-Espada acabou cercada e mutilada pelos seus adversários. Enquanto isso ocorria, Alak estava totalmente tomado pela excitação do momento. Era sua primeira grande missão como mercenário e a adrenalina fez sua cabeça e seu coração pulsarem em uníssono. Muitas vezes ele quase perdeu a classe e a técnica que tanto custaram para aprender. Mesmo assim o “discípulo do Eremita”, – como os Bregan D’Aerthe passaram a chamá-lo -, surpreendeu muitos descrentes com suas técnicas de combate e de rastreamento.

Em um certo momento os trogloditas perceberam que estavam em desvantagem, não numérica, mas tática, e bateram em retirada levando algumas mercadorias e itens mágicos roubados. Foi Alak, supervisionado por Azirel, que os caçou e recuperou os objetos sem entrar em confronto novamente com os reptilianos. Quando esses perceberam a “perda” dos itens inflaram em fúria, porém sabiam que não tinham condições de recuperar o território que lhes era de direito. Assim tiveram que conter toda sua ira até o momento oportuno.

Os trogloditas gastaram um bom tempo se preparando para uma nova investida. Foram-se dias para que eles tentassem novamente, mas agora a situação havia piorado. Em seu tempo de planejamento e reestruturação – ou o mais próximo que eles podiam chegar disso – os mercenários prepararam emboscadas e o reforço drow chegou de Ched Nasad à estação mercante.

A caminho de seu novo ataque, eles perceberam que não poderiam ir pela rota que utilizaram para fugir, pois essa se encontrava cheia de armadilhas extremamente bem preparadas. Tiveram que morrer cerca de dez batedores para que eles percebessem a inutilidade de tentar prosseguir por aquela trilha. Assim, tomaram uma outra rota, um pouco mais demorada, mas aparentemente menos preocupante. Toda aquela calmaria começou a preocupar os líderes xamãs dos reptilianos, mas quando a preocupação realmente os atingiu já era tarde demais.

Sua retaguarda estava cercada por mercenários drows e alguns de outras raças. Durante a batalha os trogloditas foram obrigados a seguir em seu caminho e acabaram se deparando com o exército de drows e escravos que estava protegendo a estação. O massacre foi imenso. Alak e os mercenários sabiam que precisavam apenas finalizar o serviço e retornar para o Bazaar de Menzoberranzan para receber a soma que lhes havia sido prometida. O problema era que o serviço para o qual foram ocntratados não era tão fácil dentro de uma batalha tão grande e caótica.

Alak trocou olhares breves com Azirel, pois não sabia como no meio daquela carnificina, aprisionar os trogloditas mais saudáveis e levá-los escravizados para Menzoberranzan antes que a batalha terminasse e os escravos fossem levados para Ched Nasad. Os Bregan D’Aerthe faziam sua parte com extrema perícia, porém Alak precisava demonstrar seu valor. Era isso que Azirel queria quando ofereceu sua ajuda e a ajuda do seu discípulo à guilda de mercenários.

A troca de olhares fora infrutífera. Azirel não deu nenhuma dica e simplesmente sumiu dentro de um foco caótico de combate. Alak continuou lutando até que, ao observar Brum – um ogro mago mercenário, também a serviço dos Bregan D’Aerthe, com o qual Alak tinha uma grande afinidade – teve uma idéia simplista, mas era tudo naquele momento.

– Brum! – gritou o drow para chamar a atenção do gigante.

Quando esse olhou, Alak fez um sinal com a mão como se pedisse para o ogro fazer um corte em algo finalizando em uma “explosão”. Brum entendeu de imediato o que o drow queria dizer. O gigante agarrou firmemente as correntes das quais pendiam suas clavas de pedra e desferiu um golpe com suas duas armas, que formou uma circunferência quase completa de nove metros de diâmetro. Aquele ataque varreu todos os trogloditas da proximidade e alguns drows que não conseguiram escapar a tempo. Aquela explosão de força acabou chamando a atenção da batalha para aquele local. Enquanto os trogloditas atingidos tentavam se levantar, outros começaram a atacar o ogro, enquanto os drows não sabiam se atacavam os inimigos distraídos ou deixavam eles darem cabo no ogro – que afinal era outra ameaça aparente – para depois cuidarem do que restasse. Para Alak, o importante daquilo tudo era que Brum havia chamado atenção o suficiente para ele agir.

Sem muita demora, e percebendo que a maioria dos mercenários já haviam ido embora, Alak observou rapidamente o campo de batalha para encontrar alguns trogloditas que demonstrassem saúde e resistência para servirem como bons escravos. Encontrou dois. O primeiro ele não teve dificuldade para derrubar, porém o segundo lhe feriu bastante antes que ele conseguisse atordoá-lo e amarrá-lo em uma corda de teia que sempre carregava consigo. Agora vinha o segundo problema: Alak, mesmo sendo grande, sempre foi ágil e preciso, mas nunca foi forte. Carregar dois trogloditas seria complicadíssimo.

Percebendo que Brum havia fugido em uma espécie de fúria pela sobrevivência, Alak ficou ainda mais perdido. Não havia Brum nem Vazmaghor para carregar aqueles dois. Observando novamente o ambiente, ele viu um lagarto de montaria que estava perdido de seu patrulheiro. Correu até o lagarto e pulou sem sua cela. Com um pouco de dificuldade para guiá-lo, pois esse estava bastante estressado pelo ambiente de combate, Alak conseguiu aproximá-lo de seus dois prisioneiros. Saltando ao chão, Alak não conseguiu impedir a tempo que o lagarto de montaria devorasse um braço do troglodita desmaiado, que logo acordou aos berros. “Merda!”, praguejou Alak a si mesmo, mas não perdeu tempo choramingando. Colocou seu prisioneiro amarrado nas costas do lagarto de montaria e subiu na cela partido o mais rápido possível antes que os berros do outro troglodita chamassem atenção suficiente.

Ao fim de sua primeira grande missão, Alak não havia ficado feliz. Muitos erros foram cometidos e seu Mestre estava pesaroso com a perda de Vazmaghor. Porém, os Bregan D’Aerthe ficaram satisfeito com o desempenho do “discípulo do Eremita”, e isso foi o suficiente para Azirel ter algum contentamento; o suficiente para querer presentear Alak.

Azirel termina a purificação e inicia alguns cânticos invocando a magia natural que irá tornar as patas de Vazmaghor ainda mais letais do que eram quando esse ainda estava vivo. Durante a invocação, Alak despeja cuidadosamente os óleos sobre as patas e com sua própria mão os espalha por toda extensão de suas novas espadas.

Uma forte energia vinda da terra começa a ser sentida pelo esguio mercenário enquanto esse ainda esfrega os óleos. Os cânticos de Azirel começam a aumentar a potência e sua voz torna-se mais grave. A pata começa a esquentar. Alak afasta sua mão quando sente as primeiras queimaduras se formarem. Azirel se aproxima e toca as patas incandescentes, que começam a esfriar visivelmente e tomar uma aparência mais metálica. Por alguns instantes Alak pensa que seu Mestre transformou as patas de Vazmaghor em espadas de metal, mas logo esse pensamento foge de sua mente quando as patas começam a voltar a sua aparência normal. Azirel emite alguns cânticos sussurrados finalizando o processo.

– Pronto. Agora falta apenas forjar um cabo equilibrado para suas novas espadas. – diz o velho eremita a seu discípulo.

Alak ainda impressionado o observa antes de por em voz alta a única questão que está em sua mente:

– Quando você vai me ensinar isso?

– Nunca. – responde rápida e secamente o velho eremita – Esse segredo morrerá comigo. Ensinarei-lhe coisas que lhe serão mais úteis do que transformar as patas do seu companheiro em armas.

Contrariado, Alak fica em silêncio e ajuda seu Mestre a terminar o trabalho. “O que mais meu Mestre conhece?”, se pergunta curiosamente o discípulo.

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