Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 3 (Parte 3)

– SACRILÉGIO!!! – Sabal Dyrr sente a fúria tomar seu corpo completamente – COMO OUSA USAR O NOME DA DEUSA COMO SE FOSSE ELA?!

Lolth a observa, com um sorriso no rosto, pacientemente enquanto Stongest encara de baixo para cima a clériga que já pertenceu a Segunda Casa Maior de Menzoberranzan. Faz dois anos que Sabal se mudou para o Braeryn, mas apenas algumas semanas que ela descobriu um culto a Lolth feito por escravos. Esse fato não a havia afetado até o momento em que ela descobriu que a suposta Lolth que os inferiores estavam cultuando nada mais era que uma drow.

– COMO OUSA SE PASSAR PELA RAINHA DAS ARANHAS?! – grita novamente a clériga enquanto a pseudo-deusa a encara tranqüilamente, ainda com um sorriso no rosto.

– ‘Espeito ao se di’igi’ a Lolth. – Stongest interrompe o monólogo rosnando entre os dentes com um de seus machados na mão.

– E por acaso quem é você? Selvetarm? – responde Sabal, complementando com um sorriso sarcástico no rosto.

A clériga encara aquele goblin estranho. Por mais que ela perceba o sangue goblin nele, há algo fora do comum no ser baixinho e troncudo. “Que tipo de ‘coisas’ são essas?” se pergunta a ex-Dyrr, antes de voltar o seu olhar a Lolth. Seguindo o contorno do corpo da pseudo-deusa, Sabal se atordoa momentaneamente com a beleza daquela drow, mas logo sacode a cabeça e retorna a atenção à heresia que está ocorrendo no Braeryn. Nesse momento ela percebe em Lolth uma insígnia que se assemelha a uma aranha com armas nas oito patas.

– Você é uma Do’Urden? – pergunta Sabal sem conseguir esconder sua surpresa.

– Não. Minha mãe era. – responde suavemente Lolth, sorrindo para Sabal – Está mais calma? Podemos conversar agora?

– Não tenho o que conversar com uma herege! Em honra a minha deusa devo apenas eliminá-la! – a surpresa torna-se raiva novamente.

Sabal tenta dar um passo a frente empunhando sua morningstar, mas é barrada por Stongest que saca seu outro machado. Subestimando aquela coisa-goblin Sabal tenta colocá-lo de lado com seu grande escudo, mas se surpreende quando esse age mais rápido e rola para trás de seu corpo desferindo um golpe em um ponto falho de sua armadura entre uma camada de placa e outra.

– Stongest! Pare! – Sabal sente a lâmina do machado do goblin tocando seu corpo através de sua piwafwi. “Maldita! Deixe-o terminar o serviço”, pragueja a clériga a si mesma, sem saber o que fazer – Ela já entendeu o recado.

Sabal encara Lolth, que não está mais sorrindo, e sim com um olhar severo. A clériga sente um calafrio lhe percorrer o corpo. A imagem daquela drow a atordoa, não só por sua beleza, mas pela forma que age. Em nenhum momento ela sentiu medo de Sabal. Em nenhum momento a tal Do’Urden desviou o olhar da clériga, e isso nunca foi algo comum.

– O que você quer Do’Urden? – pergunta a ex-Dyrr com uma mistura de raiva e espanto.

– Quero que você seja a líder espiritual dos escravos que me seguem. – responde Lolth retomando o sorriso em seu rosto.

Um momento de confusão atinge a mente de Sabal. Ela não sente mais a lâmina do machado de Stongest, mas mesmo assim continua paralisada sem saber como agir. Ela observa a pseudodeusa com um olhar confuso. “Será que isso tudo faz parte de algum plano da deusa?”, pergunta-se a clériga sem desviar o olhar confuso da herege. “Não. Não pode ser” responde a si mesma.

– Você quer que eu participe dessa heresia? Você é louca?

– Não há heresia alguma aqui. Os escravos que fazem parte do culto louvam a Lolth. Sou a manifestação dos aspectos que Lolth representa. Assim eles me vêem. – responde Lolth mantendo toda serenidade do início da conversa, mesmo quando Sabal dispara a gargalhar.

– Você realmente é louca, Do’Urden! Como você quer que eu acredite nisso? Você acha mesmo que servirei a uma falsa deusa? A uma mera drow que tenta se passar pela Rainha dos Fossos de Teias Demoníacas? – a clériga ri com desdém antes de prosseguir – Me surpreende que nenhum Yochlol tenha vindo eliminá-la.

– Talvez você esteja aqui para isso. Para me eliminar. – responde Lolth enquanto caminha para perto de Sabal – Ou talvez você tenha me encontrado por que eu quis assim.

Sabal desfaz o sorriso sarcástico e encara Lolth seriamente.

– Não quero que você me sirva, quero que você me compreenda. Eu não sou a sua deusa, pois não procuro sua veneração. Sou o Caos, a astúcia, o assassinato, a tecelã, a escuridão, o poder. Sou Lolth.

A feição de Lolth se torna séria e imponente. A ex-Dyrr hesita. Sente o calafrio aumentar. “Quem é ela?” se pergunta estupefata.

– Compreenda, Sabal: você nunca me servirá enquanto me vir como uma drow ou uma deusa. Você apenas servirá Lolth de forma completa quando você compreender que somos uma.

Quebrando seu próprio transe, Sabal volta a falar com a voz falha:

– V-você é louca.

Lolth gargalha. Uma risada bela e gostosa, ao mesmo tempo com um leve tom que faz Stongest lembrar de Vishnara.

– Sou? Você ainda não compreendeu, Sabal? Eu sou o Caos.

“Você já está começando a me convencer disso” pensa a clériga ironicamente emendando uma pergunta:

– O que você propõe?

– Eu vi a forma com a qual você lida com os seres de outras raças. Vi a forma com a qual se adapta às situações em que você se encontrou. Você já encarnou a astúcia, e possui uma grande característica do caos: a adaptabilidade. Quero que você me ajude a guiar os escravos no caminho da verdadeira Fé. A Fé que você está desenvolvendo em seu íntimo.

Sabal não consegue segurar o pequeno riso de espanto que lhe escapa pela boca.

– Você quer que eu seja sua clériga?

Lolth sorri e se aproxima mais da clériga. Stongest caminha até a porta do templo, se afastando das duas.

– Quero que não haja diferença entre eu e você Sabal Dyrr. Da mesma forma que não há diferença entre eu e Stongest. Nem entre eu e Mirka ou eu e Gromsh.

– Isso me soa como estagnação, não como Caos. – responde Sabal.

– Ser igual a mim não é agir como eu ajo ou dizer o que eu digo. Ser igual a mim é ser o Caos, a Escuridão e todos os outros aspectos que represento. – complementa Lolth quase tocando a ex-Dyrr.

– É ser louca? – pergunta Sabal sentindo o calafrio aumentar cada vez mais, mas por algum motivo sem conseguir se afastar.

– Se é assim que me vê, é assim que deve ser. – Lolth sorri e toca sua delicada mão no rosto de Sabal, aproximando seus rostos.

Sabal sente seu corpo tremer, mas não consegue agir, como se estivesse encantada. Os lábios tocam, a mão de Lolth desliza pelo rosto de Sabal descendo além do pescoço. A clériga nada consegue fazer a não ser participar daquilo. A excitação toma conta. O calafrio dá lugar a um calor que sobe do abdômen ao peito. Enquanto uma das mãos de Lolth desliza pelo braço de Sabal, a outra segura sua mão. O calor do corpo da ex-Dyrr parece se misturar com o calor do corpo de Lolth, como se a sua armadura e a roupa da Do’Urden não existissem. As mãos se encontram suavemente e os lábios se desencontram vagarosamente.

– Nós não somos diferentes. – Sabal escuta a voz suave da encantadora drow em sua mente, como se tivesse passado despercebida por seus ouvidos.

Tremendo, Sabal se ajoelha.

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