Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 4 (Parte 1)

Menzoberranzan nunca foi um lugar seguro, ainda mais para aqueles que vivem no Braeryn. Esse é o local onde vivem escravos, ladrões, os párias da sociedade drow, entre outros “miseráveis”. De tempos em tempos alguns drows das Casas Maiores visitam o Braeryn a fim de praticarem um esporte tradicional na cultura dos elfos negros: a caçada a seres inferiores.

Mirka, como vários outros habitantes do subúrbio de Menzoberranzan, teve que aprender a se esconder e a sobreviver. Por ser uma kobold, sempre teve a noção de que um grupo é imensamente mais apto a sobreviver do que seres solitários. A importância de ter com quem contar é algo quase intrínseco em sua natureza, mesmo que ultimamente a importância de saber se virar sem depender de outros, tenha sido somado a essa “natureza”. Há muito tempo seu grupo mudou. Mesmo após ter sido iniciada no templo de Lolth, ela continuou vivendo entre os outros kobolds, para não chamar a atenção.

No início do culto a deusa encarnada, não havia mais de três seguidores e uma clériga. A clériga, Vishnara Do’Urden, foi quem trouxe Mirka e o gnoll Gromsh para o culto. O guardião de Lolth, Stongest, sempre existiu; ou assim parece na mente de Mirka. Ele é quase um semi-deus aos olhos da pequena kobold. É graças ao guardião e a deusa que o culto se mantém secreto.

Sim, Gromsh e Mirka tiveram participações importantíssimas, mas em seus pensamentos, se não fossem Stongest e Lolth, o culto teria sido descoberto e os drows, cheios de inveja, teriam acabado com a “igreja da Lolth encarnada” e Mirka nunca teria descoberto o que é ter realmente Fé.

Entre alguns lixos, a kobold se esconde esperando uma patrulha montada dos drows passar. Atualmente a situação piorou ainda mais. Desde que Lolth foi viajar novamente para superfície, coisas estranhas passaram a acontecer. Após mais ou menos seis meses depois de Lolth ter partido, segundo suas contagens, Mirka percebeu que Sabal não mais estava conseguindo conjurar suas magias e ouviu dizer que as outras drows clérigas de Lolth também não estavam.

“Elas têm pouca Fé”, pensa consigo mesma enquanto observa o drow montado em seu grande lagarto passar. Sabal passou a ser a clériga do culto mais ou menos dois anos após a morte de Vishnara. Por ser uma pessoa carismática, conseguiu facilmente conquistar Mirka e Gromsh. “Ótima drow, mas não muito boa clériga”, aos poucos a kobold sai do lixo onde se encontra, “Seria uma excelente clériga se ao menos tivesse mais Fé”.

Porém uma coisa que Mirka não pode negar foi que o carisma de Sabal atraiu mais alguns fieis para o culto e isso ajudou bastante para eles sobreviverem à insurreição dos escravos, mas atrapalhou bastante para manter sigilo, principalmente após alguns goblins seguidores de Lolth atacarem seus companheiros rebeldes gritando “Por Lolth!!” na frente de alguns drows.

Mirka caminha até o novo esconderijo no qual está vivendo junto com Gromsh, Stongest, Sabal, entre outros fieis. O templo foi desfeito durante a insurreição a mando de Sabal e Stongest. Seria ainda mais complicado, dada a situação, se eles o tivessem mantido, pois haveria provas incontestáveis da existência da deusa encarnada e do culto a ela.

Quando os escravos começaram a se encontrar para planejar a rebelião, os lolthianos se mantiveram a distância, com exceção dela e de Stongest. Sabal não poderia participar mesmo, ela estava sem suas magias e é uma drow. O ódio dos escravos por drows é imenso. Gromsh e os novatos ficaram com ela para proteger o sigilo do templo com muita dificuldade, pois por motivos obscuros, os impulsos agressivos desses aumentavam de uma hora para outra sem motivos aparentes. Mirka e Stongest observaram uma das “reuniões” para entender o que estava ocorrendo.

– Há algo muito fo’te po’ t’ás disso. Não devemos nos int’ometê’. – disse Stongest a Mirka naquela ocasião, que aceitou as palavras do guardião como lei.

A pequena kobold foi ponto chave para que os fieis não se misturassem aos rebeldes. Foi ela e Sabal que perceberam as ondas psíquicas que estavam influenciando e enfurecendo ainda mais os escravos, e graças às magias de proteção da pequena kobold que os fieis não tomaram parte da insurreição. A situação não foi fácil e todo o ocorrido foi extremamente desgastante. Mirka ficou fraca por muito tempo e teve que descansar bastante para se recuperar.

Já passaram muitos dias, na verdade semanas, e Mirka está com todas suas forças recobradas. Ela entra no esconderijo furtivamente. É uma espécie de barraca feita em rocha, próxima a dezenas de barracas semelhantes.

“Mirka, é ocê?”, pergunta um rosnado em tons baixos e guturais. Mesmo que a linguagem secreta deles não tenha sotaque, Mirka sabe de quem vem e não consegue evitar em traduzí-la mentalmente com as falhas que Gromsh costuma ter ao conversar.

“Sim Gromsh. Consegui encontrar o colar”, responde com um rosnadinho mais fino, porém ainda assim rouco e baixinho, enquanto sai de trás da porta que acabara de abrir. Ela se aproxima do gnoll e tira um colar de um de seus bolsos colocando na mão de seu companheiro.

Mesmo enxergando na escuridão que há dentro da barraca, Gromsh tateia cuidadosamente o colar e se empolga.

– Ele funciona Mirka? – pergunta o gnoll em meio a risos animalescos contidos.

– Funciona sim, Gromsh. Testei antes de chegar aqui. Não é tão difícil ativá-lo. – responde ela sorrindo para o gnoll.

– Brigado Mirka. Com ele vo consegui me camuflá nas rochas como o guardião? – pergunta o gnoll enquanto tenta colocar em seu pescoço. Percebendo que não fecha, ele resolve amarrar o colar em seu punho – He-he não cabe no pescoço. É só tá em contato, né?

– Sim. Não se preocupe. – responde Mirka sorrindo e emendando a outra resposta – E vai sim conseguir se camuflar, mas ainda acho que você devia praticar mais se esconder sem depender de itens. Ele não tem energia para muitas ativações, apenas para três vezes, depois você deve esperar um bom tempo até ele recarregar suas energias.

O gnoll torce o focinho.

– Já é alguma coisa. Agora o Stongest não é o único que consegue se infiltrá em lugares cheios de gente. – diz o gnoll olhando para o colar amarrado em seu pulso.

– Stongest não precisa disso para se infiltrar em lugar algum. Você devia treinar mais se pretende substituir ele como guardião da deusa. – responde Mirka rindo.

– Vo pensá no caso. – responde o gnoll contrariado.

Ela observa todo o refúgio e vê o rosto de uma dúzia de fieis, entre eles goblins, kobolds e um outro gnoll, mas nada de Sabal e Stongest.

– Onde estão o guardião e a clériga? – pergunta a pequena kobold.

– Foram ao Bazaar. Falaram que vão demorá e enquanto eles tiverem fora, eu e ocê somos responsáveis pelo culto.

Mirka concorda com um aceno de cabeça. “O que eles foram fazer lá?”, pergunta a kobold com seu rosnadinho fino, que mais se assemelha a um ronronar de algum pequeno felino.

“Descobri sobre o boato que a clériga ouviu a respeito de um possível ataque contra Menzoberrazan pelos anões cinzentos, e comprá equipamentos. Acho também que Stongest foi tê alguma conversa sobre a Fé da clériga”, responde o gnoll também em rosnado, porém um rosnado mais grave que de sua companheira.

“Imaginei”, responde Mirka ainda na linguagem do culto, enquanto deita sobre algumas almofadas e emenda:

– Estou com fome Gromsh. O que tem para comer?

– Só cogumelos. Faz tempo que nóis não come carne suculenta, né Mirka? As coisas andam perigosas lá fora. – responde o gnoll com tristeza em sua voz.

– Qué que eu vá buscá? Quiri é corajoso! – diz um pequeno e mirrado goblin com o sorriso aberto, olhando para Mirka.

– Não Quiri. Não podemos chamar atenção. – responde Mirka levantando-se e indo se servir com cogumelos.

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