Arquivo para janeiro \30\UTC 2012

Immortuos – Estudos 1 (Finalizado)

Immortuos - Estudo Finalizado

Immortuos - Estudo Finalizado - Caneta de Retroprojetor sobre Madeira - 2011

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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 6 (Parte 1)

Temeroso Sol’al Teken’Th’Tlar bate na porta do quarto onde disseram que os Xorlarrin estavam esperando. Parte de seu nervosismo deve-se ao bom tempo que havia se passado desde a sua ultima visita ao Bazaar e, a outra parte, deve-se a extrema ansiedade que está sentindo por começar sua nova missão.

Após a reunião no hall de estudos da Casa Teken’Th’Tlar, Riklaunim e Akordia o deixaram a sós com Jabor para que esse explicasse o que ele deveria fazer. Naquele momento sua ansiedade já era grande, devido ao pouco conhecimento a respeito de sua missão. Depois que Jabor lhe contou mais sobre o possível culto a Lolth por seres de raças inferiores, na Cidade da Rainha Aranha, descoberto pelas Casas Xorlarrin, Del’Armgo e Dyrr, sua curiosidade fervilhou como as águas termais de um lago próximo a áreas vulcânicas. Não foi possível nem mesmo esconder de seu Mestre a excitação que sentiu.

– Sol’al, contenha-se. – disse Jabor severamente ao jovem quando esse começou a esfregar as mãos uma na outra e a ficar inquieto em sua cadeira – Não é útil você demonstrar tamanha excitação por essa missão. Se deixar sua ansiedade tomar conta poderá cometer erros imperdoáveis. Estamos entendidos?

O jovem mago compreendia aquilo, e aos poucos começou a por em prática as técnicas de concentração ensinadas em Sorcere, para que o mago não perca seu foco. Aos poucos, Sol’al retomou o seu ritmo normal e escutou o resto do que seu Mestre tinha a dizer.

Aparentemente o culto é feito pelos escravos no Braeryn. Isso não é um problema em si, afinal os chitines, que são uma raça inferior, também louvam a Rainha dos Fossos de Teias Demoníacos. No entanto, pode-se tecer várias hipóteses a respeito do porquê algum drow ou Casa começaria um culto à deusa com os escravos. Um dos principais é: aumentar o número de seu contingente, já que a maior parte do exército drow é formado por escravos. Escravos que sirvam a deusa dariam suas vidas por ela. “Somos todos alimento para Lolth”. Com certeza isso estaria sendo pregado, e escravos fanáticos e controlados com uma pseudo-liberdade poderiam ser guerreiros ferozes. Mesmo que isso seja feito em homenagem à Rainha das Aranhas, soa como uma tremenda heresia aos da Casa Teken’Th’Tlar e provavelmente aos drows de todas as outras Casas de Menzoberranzan.

– Acreditamos que os Xorlarrin também vejam isso como uma imensa heresia. Estamos os auxiliando para que possamos eliminar esses hereges, ou consigamos reverter o jogo da misteriosa Casa que está planejando qualquer nova insurreição. – disse Jabor a Sol’al, que o escutou concentrado, sem deixar sua ansiedade tomá-lo novamente.

– Mas Mestre, uma insurreição acabou de ocorrer. Os escravos estão enfraquecidos, não fariam grandes estragos. – comentou o jovem mago.

– Não farão grandes estragos se não tiverem uma liderança forte como a de uma das Casas Nobres, por exemplo. – foi a resposta de Jabor ao comentário de seu discípulo – Dê o melhor de si por nossa cidade e nossa deusa.

– Por Menzoberranzan e por Lolth. – respondeu Sol’al no final da conversa.

Ele teve pouco tempo para se aprontar e ir para o Bazaar, mas o tempo foi suficiente para preparar seus componentes mágicos, suas adagas e suas roupas. Apenas ao chegar à taverna Sol’al lembrou dos alimentos, e comprou algumas provisões por lá mesmo, pois não sabia ao certo quanto tempo eles ficariam no Braeryn.

Após a primeira batida na porta, ninguém atendeu. Sol’al respirou profundamente e se focou, deixando seus receios de lado, bateu na porta novamente.

– Quem está ai? – pergunta uma voz masculina de dentro do quarto.

– Sou o enviado da Casa Teken’Th’Tlar para auxiliá-los. – responde Sol’al sem deixar transparecer o nervosismo que voltou a inundá-lo ao escutar a voz do possível Xorlarrin.

A porta se abre aos poucos, e um homem atlético, de cabelo comprido e trançado o observa rapidamente com um olhar analítico. Sol’al estranha o fato de o possível guerreiro estar com sua mão esquerda posicionada na região inferior de suas costas, como um velho com problemas no nervo ciático.

– Entre, mago. – diz o guerreiro ao recém-chegado logo após a rápida análise.

– Com licença. – diz Sol’al, entrando devagar no quarto.

Seria um quarto de taverna simples, se não fosse uma porta que leva a outro aposento. Essa porta se encontra fechada, e Sol’al supõe que lá se encontre a clériga. Ao ver o guerreiro caminhando até sua cama, ele percebe que esse guarda uma espécie de sabre mais curto e curvo de ponta cabeça em suas costas. Em cima da cama há uma espada curta que o Xolarrin guarda em uma bainha e coloca em sua cintura na parte direita. “Ele é canhoto”, comenta para si mesmo Sol’al.

– Chegou há muito tempo no Bazaar, Teken’Th’Tlar? – pergunta o guerreiro, se voltando ao mago enquanto arruma sua piwafwi composta com trechos de couro de lagarto batido; “Essa armadura é leve para um guerreiro, não?”, observa Sol’al.

– Não faz muito tempo não, Senhor Xorlarrin. – responde o jovem mago olhando para o emblema da Casa do guerreiro.

– Estávamos esperando o senhor já faz um tempo. Minha Senhora está se aprontando e logo se juntará a nós. – diz o guerreiro vestindo suas botas sem perder a atenção voltada ao jovem mago.

As botas do guerreiro são acolchoadas. “Ele não é um guerreiro, talvez um assassino”, conclui o mago abrindo as portas para uma nova dúvida, “Será que ele é mesmo um Xorlarrin?”. A dúvida de Sol’al cria uma suspeita que o deixa apreensivo. Concentrando-se, ele começa a observar todos os movimentos do tal “guerreiro Xorlarrin”, que o observa de volta.

Em silêncio, ambos trocam olhares. Sol’al sério, enquanto o Xorlarrin sorrindo ao perceber que sua presença deixa o mago inquieto.

– Não fique apreensivo. Minha Senhora logo se juntará a nós. – diz o guerreiro levantando-se da cama.

Sol’al coloca sua mão esquerda discretamente em um dos bolsos de sua piwafwi e pega um componente de magia para o caso de necessidade.

– Não estou apreensivo, não se preocupe. – diz Sol’al.

– Poderia saber seu nome, Teken’Th’Tlar? – pergunta o guerreiro.

– Meu nome é Sol’al, Senhor. – responde o jovem mago, curvando-se levemente – E o seu? Qual seria?

– Meu nome é… – o guerreiro é interrompido em meio a sua resposta, quando a porta do outro aposento se abre.

De dentro da sala uma jovem e bela drow sai caminhando devagar, com sua piwafwi negra caindo levemente por cima de sua cota de malha, como um vestido justo até sua cintura, após a qual abre-se mostrando sua coxa direita que está protegida por uma placa de metal.

– Qual o nome dele? – pergunta a clériga para o guerreiro de sua Casa em alto-drow.

– Sol’al Teken’Th’Tlar, Senhora. – responde o guerreiro.

– Ele é o tal mago? – pergunta novamente a clériga ao guerreiro, ignorando completamente o recém-chegado.

– É o que parece, Senhora.

Sol’al, sentindo-se fora da conversa, tenta cumprimentar a clériga com sua forma habitual.

– Sou Sol’al Teken’Th’Tlar, a seu serviço, minha Senhora. – diz ele ajoelhando e curvando-se plenamente em frente a clériga como se essa fosse a própria imagem da Rainha Aranha.

A clériga o olha com profundo desdém:

– Sei quem você é. Quando quiser que você se dirija a mim, eu direi. – dá de ombros a clériga, voltando-se novamente ao guerreiro.

Sol’al sente a ofensa de forma indiferente, afinal em sua própria Casa o tratamento que ele recebe é este. “Faz parte do jogo, não é?”, relembra sempre que qualquer ofensa lhe faz ferver o sangue. Além do mais, Sol’al não seria capaz de agir contra ou ofender uma clériga de sua deusa. Mesmo assim, ele se sente perdido sobre o que fazer.

– Está tudo pronto para a viagem? – pergunta ela para seu companheiro.

– Sim, minha Senhora. – Sol’al escuta o guerreiro confirmando a pergunta da clériga.

– Senhora, com todo o respeito, mas gostaria de saber o nome de vocês. – diz Sol’al se curvando, tentando entrar novamente na conversa.

O olhar da clériga parece soltar faíscas quando Sol’al finaliza sua pergunta.

– Para você meu nome é Senhora, seu macho insolente. – diz ela, aproximando-se do mago e erguendo sua mão para desferir-lhe um tapa quando da porta ouve-se uma forte batida.

A clériga vira-se espantada para o guerreiro, que a devolve um olhar semelhante ao dela.

– Quem está ai? – pergunta o guerreiro em linguagem subterrânea comum, fazendo sinal de silencio ao mago.

A clériga prepara sua maça enquanto Sol’al mantém os componentes mágicos em sua mão. O guerreiro posiciona sua mão esquerda na espada que se encontra em suas costas e se aproxima da porta.

Sol’al ouve alguns sussurros vindo do outro lado: duas vozes discutindo algo em linguagem subterrânea comum. Ele não consegue compreender muito da conversa, apenas alguns avisos como: “Eu falo”, “Não tente se intrometer”, “Brum! Eles são drows, não vão te escutar”.

– Responda! Quem está ai? – intima o guerreiro Xorlarrin.

– Somos mercenários a mando dos Bregan D’Aerthe para auxiliar os membros da Casa Xorlarrin no Braeryn. – responde uma voz masculina.

O guerreiro Xorlarrin olha para sua clériga ainda mais espantado. “Abra a porta com cuidado”, diz ela na linguagem de sinais drow ao guerreiro, logo após se dirigindo a Sol’al na mesma linguagem: “Mago, prepare alguma coisa útil”.

Sol’al segura os componentes necessários para a magia de cegueira em uma das mãos e confere se suas adagas de arremesso estão bem posicionadas. Enquanto isso, aos poucos a porta vai se abrindo e o Xorlarrin vê um drow alto e magro, de cabelo curto e armadura leve e acolchoada que cobre apenas pontos realmente vitais como o pescoço. Logo atrás do drow, está um ogro mago parado, quase sem roupas, apenas com trapos de couro batido que cobrem as áreas íntimas.

– Identifiquem-se. – diz o guerreiro Xorlarrin aos estranhos mercenários enquanto Sol’al e a clériga se posicionam em locais não visíveis, preparando-se para atacar quando necessário.

– Sou Alak Sel’Xarann. Estou aqui a mando dos Bregan D’Aerthe para proteger a clériga Xorlarrin que está pronta para uma missão investigativa no Braeryn. – responde o mercenário drow em baixo-drow ao Xorlarrin – Creio que você e a clériga que está ai dentro sejam os Xorlarrin, não?

O guerreiro fixa seu olhar desconfiado no eremita.

– Não me recordo de terem contratado mercenários para proteger minha Senhora. – diz o drow secamente – O que os Bregan D’Aerthe estão pensando?

– Leia isso. – diz Alak, pegando o pergaminho da mão de Brum e entregando ao Xorlarrin – Não sabemos quem nos contratou através dos Bregan D’Aerthe, mas ele nos entregou esse pergaminho. Espero que esclareça.

Olhando desconfiadamente, o guerreiro abre o pergaminho com cuidado. Seu olhar demonstra total dúvida em relação àquele pergaminho. Enquanto ele lê, seu olhar duvidoso vai se alterando para um olhar cheio de raiva e espanto. Dando um passo para trás o guerreiro entrega o pergaminho a sua senhora que o lê e engole em seco, enquanto Alak e Brum esperam do lado de fora.

Sol’al apenas observa a clériga e o guerreiro com suspeita. Ele devolve os componentes da magia de cegueira e coloca a mão em outro bolso de sua piwafwi, preparando o componente para uma magia de proteção. Afinal, sabe-se lá o que tem naquele pergaminho. Curioso, ele tenta bisbilhotar o que está escrito no pergaminho, mas infelizmente não consegue ler nada além de um nome, Zaknafein, e uma assinatura rúnica que ele não consegue identificar de pronto.

– Deixe-o entrar. – a clériga ordena ao guerreiro em alto-drow, claramente contrariada.

O guerreiro abre a porta. Percebendo que Alak não entendeu o que a clériga havia falado, diz em subterrâneo comum:

– Podem entrar.

Logo que a porta se abre, a Xorlarrin se depara com o imenso ogro mago que está junto ao drow.

– Menos o inferior. – ordena a clériga ainda em alto-drow ao seu guerreiro.

– Menos o ogro. – diz o Xorlarrin em baixo-drow.

Parando, Alak se vira para Brum.

– Brum, fique aqui fora. – diz ele em subterrâneo comum.

– Ela me chamou daquilo? – pergunta o ogro, com uma feição revoltada.

– Não sei, Brum. – responde Alak – Apenas fique aqui.

Brum se afasta da porta resmungando em goblinóide. Sol’al escuta os resmungos do ogro mago e sabe exatamente o que ele está dizendo: “Vou mostrar pra ela quem é inferior. Tenho certeza que ela falou essa palavra. Drows patéticos”. Mesmo sabendo disso, o mago prefere guardar para si a informação. Enquanto ele não ganha a confiança da clériga, não é bom se passar por puxa-saco dedo duro.

Alak entra no quarto e o guerreiro fecha a porta com o ogro de fora. Sol’al o analisa completamente da cabeça aos pés e percebe onde o recém-chegado guarda suas armas: seis facas arremessáveis nos dois lados da cintura e duas espadas semelhantes a patas dianteiras de aranhas-espadas nas costas. O mago observa mais atentamente as espadas, para ter certeza que seus olhos não lhe pregaram nenhum truque, mas não consegue ter certeza do que viu, pois o eremita se vira e o analisa rapidamente.

– Pergunte ao mercenário se ele e seu amigo já estão prontos para ir, pois não tolerarei atrasos. – diz a clériga ao Xorlarrin em alto-drow.

– Você e o ogro já estão prontos para partir, senhor Alak? – pergunta o guerreiro ao eremita.

– Sim. Já estamos preparados. – responde Alak prontamente voltando sua atenção ao guerreiro.

Sol’al observa os dois. As diferenças superficiais são óbvias: enquanto o Xorlarrin aparenta ter grande perícia com uma única espada, o mercenário aparenta ser capaz de usar duas armas ao mesmo tempo. Porém, no que realmente é focado o treinamento de ambos é o que intriga o jovem mago. Ele se concentra observando ambos enquanto eles conversam coisas supérfluas a respeito de bagagens e comidas, até que a Xorlarrin chama sua atenção.

– Mago, nos espere lá embaixo e leve o inferior junto. – ordena a clériga a Sol’al em alto-drow – Já o encontraremos lá.

– Sim, minha Senhora. – responde Sol’al se curvando.

O mago sai do quarto e fecha a porta com cuidado. Quando está a sós com o ogro ele diz em globinóide:

– A clériga ordenou que a esperássemos lá embaixo.

Brum olha para o mago com um certo desdém e sorri.

– Muito espertinhos vocês drows, não? – comenta Brum caminhando lentamente na frente do mago, que o olha sério, como se estivesse advertindo o imenso ogro pelo seu comentário.

Percebendo que Brum o ignorou e começou a descer as escadas, Sol’al prefere dizer em voz alta, mas ainda em globinóide:

– Cuidado com seus comentários, ogro. Pode ser prejudicial a sua vida.

– Sim, senhor. – responde com mais desdém ainda o imenso ogro.

Com a cara amarrada e pensando sobre como castigar aquele ser inferior, Sol’al espera no salão de entrada da taverna. Enquanto isso seus pensamentos se transformam: “O que será que eles estão conversando?”.

Immortuos – Rabiscos 7

Immortuos - Rabiscos 7

Immortuos - Rabiscos 7 - Esferográfica Vermelha sobre Papel - 2011

Immortuos – Rabiscos 6

Immortuos - Rabiscos

Immortuos - Rabiscos 6 - Esferográfica Preta sobre Papel

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 5 (Parte 3)

Stongest leva mais carne de lagarto para a boca enquanto tenta escutar algo que preste nas conversas que ocorrem ao seu redor. Sabal apenas toma mais um gole de seu vinho de cogumelo enquanto também tenta selecionar da melhor forma possível o que está sendo conversado naquele ambiente. Já tem alguns minutos que os dois estão sentados na mesa da taverna apenas se “alimentando”.

Faz dois dias que eles chegaram ao Bazaar. Nesse pequeno espaço de tempo eles conseguiram saber que algum batedor da Casa Agrach Dyrr descobriu a respeito de um exército de duergars que estava vindo na direção de Menzoberranzan, algo que apenas fortificou o boato que um escravo Dyrr havia lhe passado recentemente. Segundo outros boatos, as Casas Maiores estavam preparando um ataque aos duergars no meio do percurso. O local exato eles não descobriram.

Hoje o dia está totalmente infrutífero. Percebendo que eles não conseguirão nada de útil apenas escutando, Stongest prefere comentar alto algo que está passando por sua cabeça enquanto ele come aquele pedaço de carne suculenta.

– Acho que se’ia inte’essante leva’mos algumas dessas ca’nes pa’a os fieis. Eles vão fica’ f’acos comendo apenas cogumelos. – diz em goblinoide o quase-goblin em meio a mastigadas.

Sabal, ao perceber que Stongest estava falando, retorna como se estivesse em um reverie profundo.

– Como? – pergunta a clériga.

– Eu disse pa’a leva’mos comida pa’a o pessoal. Eles estão p’ecisando. – responde Stongest, olhando sério para ela.

– Ah sim. Com certeza. Temos que levar alguma comida para a viagem também se pretendemos realmente encontrar o filho da Do’Urden. Digo, de Lolth. – diz a clériga também em globinóide, se corrigindo imediatamente quando vê o olhar de desaprovação do meio-goblin-meio-algo.

– Se você não ac’edita, po’ que aceitou consegui’ fieis pa’a ela? – pergunta seriamente Stongest enquanto morde mais um pedaço da carne e toma um gole da cerveja em sua caneca.

Sabal o olha fixamente e sorri.

– Stongest, seja sincero. Você acredita mesmo que ela é Lolth? A Deusa-demônio das Aranhas, encarnada? – pergunta a clériga enquanto o goblin responde positivamente com um aceno de cabeça – Pois eu não. Minha deusa nada me disse a respeito de enviar uma manifestação para o plano material.

– Então po’ que você a se’ve, se não ac’edita? – pergunta Stongest ainda mastigando a carne.

– Eu não a sirvo Stongest. Eu sirvo Lolth. A Do’Urden pode ser muito útil para os propósitos de minha deusa. Afinal, cada seguidor que “ela” consegue, louvará Lolth. Não ela, mas Lolth. – responde Sabal sorrindo.

O meio-goblin engole a carne e sorri como se tivesse acabado de escutar uma tolice.

– Eu já acho que louva’ão Lolth, como a ‘ep’esentação do Caos, da Astúcia, do Pode’ e da Escu’idão.

– E do Mal? – interrompe Sabal introduzindo uma questão – Por que vocês nunca mencionaram o Mal? Se ela é a representação dos aspectos que minha deusa representa, por que vocês negligenciam um de seus aspectos?

Stongest toma mais um grande gole de cerveja e coloca a caneca na mesa antes de responder.

– Po’que esse aspecto diz ‘espeito a sua ‘aça e não a quem ela que’ alcança’ ago’a com um co’po mate’ial. – responde o meio-goblin olhando fixamente os olhos da clériga como se tivesse certeza da resposta.

– Não faz sentido, Stongest. O que faz sentido é que ela não é a deusa e sim uma tentativa falha de uma louca em transformar sua filha, ou seja lá o que, em algo divino. – diz Sabal ignorando o olhar severo de Stongest – Estou com ela, pois ela pode ser a chave para aumentar o poder e a área de influência de minha deusa.

– Você ainda não sabe o que é te’ Fé de ve’dade, Sabal. – diz secamente o meio-goblin à drow, que gargalha.

– Você está falando com uma clériga, goblin. Se eu não soubesse o que é ter fé, nunca iria conseguir conjurar as bênçãos de minha deusa. – responde a ex-Dyrr como se falasse algo óbvio.

– Você tem fé em algo que não está em você. Você não sabe o que é te’ Fé ve’dadei’a, clé’iga. – responde Stongest ainda sério e seco.

O rosto de Sabal torna-se raivoso, algo que nunca havia ocorrido em qualquer outra conversa com Stongest.

– Stongest! Não fale sobre o que você não conhece. Você tem fé em uma mortal que foi criada para ser uma falsa-deusa. Você é um infiel. Não terá nem mesmo para onde ir quando morrer. – diz Sabal com um tom bem mais seco e severo do que de costume – Tente entender Stongest, sua fé é que é falsa.

– Eu não tenho fé na pessoa, mas no que ela ‘ep’esenta. Eu tenho Fé naquilo que ela me fez ve’ em mim mesmo. – retruca o meio-goblin após um gole de cerveja que finaliza a bebida de dentro da caneca – Você sabe do que estou falando, sentiu isso quando ela lhe aceitou como sendo uma extensão sua.

– Eu sei que aquilo foi uma experiência estranha, Stongest. Eu não posso negar que fiquei dias, até meses sem saber se acreditava ou não naquilo tudo, mas agora que ela partiu em viagem e está longe, consegui refletir e não faz nenhum sentido. – se justifica Sabal.

– E é p’a faze’? – pergunta Stongest colocando sua caneca e seu prato de lado – O que ela semp’e p’egou é que a ve’dadei’a Fé só é possível quando você enca’na aquilo que ac’edita. Você não conco’da com isso?

– Concordo. Mas me diz: minha sociedade não encarna todos os aspectos de nossa deusa? – responde Sabal como se estivesse dizendo algo óbvio, tomando logo após o último gole de seu vinho de cogumelo.

– Enca’na o que eles vêem em uma entidade exte’io’. Eles não enca’nam o aspecto que eles possuem inte’io’mente. – responde Stongest.

– Qual a diferença? Não vejo nenhuma. – retruca Sabal achando aquilo tudo muito ilógico.

– Há uma g’ande dife’ença Sabal. Da fo’ma que fazem, vocês apenas se’vem algo ou alguém. Vocês estão sujeitos a decepções, a dúvidas e a questionamentos. – começa responder Stongest olhando ao redor – Você ouviu alguns dos comentá’ios a respeito do “sumiço” da sua deusa, não é? Você sabe que muitos de seus fieis i’ão pa’a out’os deuses em busca do mesmo ab’igo que eles tinham em suas teias. Muitas de suas i’mãs clé’igas fa’ão isso. Você sabe que é ve’dade. Que é questão de sob’evivencia. Essa é a falha do seu tipo de fé.

Sabal olha espantada para Stongest como se não acreditasse que aquele goblin extremamente robusto fosse capaz de tamanho raciocínio.

– O nosso tipo de Fé, p’ega que devemos se’ um só com nossa divindade. Um só com aquilo que ela ‘ep’esenta. Lolth não está aqui e pode nunca mais volta’, mas eu continuo sendo um com ela. Mi’ka sob’evive’á mesmo que sozinha, algo ext’emamente difícil pa’a alguém de sua ‘aça, po’que ela é uma só com sua divindade. Ela é astúcia, ela não louva a astúcia, e isso a mante’á apta a sob’evive’. Você sentiu o que é se’ uma com sua divindade. Ac’edito que vá’ias vezes você sentiu isso em suas meditações ou ao senti’ o pode’ de sua deusa at’avessa’ o seu co’po, mas a última vez que você sentiu isso foi quando conheceu Lolth. A Lolth que eu p’otejo.

A clériga não consegue responder, apenas fica olhando para o goblin ainda com cara de espanto, como se não acreditasse que aquilo tudo estava saindo de sua boca.

– Você ainda não tem Fé de ve’dade Sabal, mas com o tempo e vivência i’á entende’ o que eu digo. – Stongest finaliza o assunto.

– Veremos. – diz Sabal ainda pasma.

Stongest dá mais uma olhada ao redor. A taverna está cheia, com vários comerciantes e mercenários bebendo e comendo. Ele tenta escutar alguma coisa ao seu redor, mas não ouve nada de útil até Sabal o interromper.

– Me conte mais a respeito do filho de Lolth. Como ele nasceu já sendo um drider? – pergunta a clériga que até o momento não tirou os olhos de seu pequeno e forte companheiro.

– Não sei. Sei que eu estava junto e uma espécie de casulo saiu dela no lugar de uma c’iança. Um pouco depois o casulo começou a se ‘ompe’ e apa’ece’am as patas de uma a’anha, e só depois os b’aços de um d’ow. – diz Stongest olhando Sabal nos olhos.

– E com quem ela o deixou?

– Com uma Vae’uniana que ju’ou c’iá-lo pa’a odiá-la o máximo possível. – responde como se fosse algo sem importância.

– Você está falando sério, Stongest? – pergunta Sabal duvidosamente.

– Sim. – responde rapidamente o goblin que passa a olhar de canto de olho para um Ogro e um drow que passam perto de sua mesa.

– Para que iremos atrás do filho de Lolth se ele é um inimigo em potencial? – pergunta Sabal incrédula.

– Pois nada é imutável, e um d’ide’ se’ia um g’ande aliado pa’a nossa ig’eja. – responde o meio-goblin sem perder os dois de vista.

Sabal percebe que o drow que acompanha o ogro a está olhando curiosamente e sabe o porquê. Não é a primeira vez que ela é observada daquela maneira em sua vida. Dando de ombros, ela apenas sorri para Stongest e continua falando em goblinoide.

– Espero que você esteja certo. Então vamos parar de perder tempo e nos preparar para encontrar o filho de Lolth.

– Sim. – concorda Stongest se levantando e indo comprar comida para a viagem e para os outros fieis, enquanto Sabal observa a dupla bizarra subindo as escadas para o dormitório da taverna.

Rabiscos – Auto-retrato

Rabiscos - Auto-Retrato

Rabiscos - Auto-Retrato - Esferográfica Preta sobre Papel - 2011

Rabiscos – Dragões

Rabiscos - Dragão Chinês

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