Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 5 (Parte 1)

Menzoberranzan está prestes a ser atacada. A Rainha dos Fossos de Teias Demoníacos está em silêncio. O Bregan D’Aerthe que traria o novo contrato está atrasado. E “a cerveja tá acabando”, segundo seu amigo ogro. Entretanto, nada disso importa para Alak Sel’Xarann no momento. Há mais ou menos um dia e meio ele matara seu próprio mestre e pai de criação.

Sua mente ainda não se adaptou a idéia de que ele não mais é o “discípulo do eremita”, mas que havia tomado o lugar do próprio eremita. Porém, o que realmente não desce por sua garganta é que seu mestre tivesse que morrer por suas próprias mãos. Seria muito mais honrado e belo para a imagem daquele que o criou, se sua morte tivesse ocorrido enquanto lutando contra os duergars, protegendo sua cidade e sua deusa.

Sua deusa.

Aquela que “lhe disse” para morrer “pelas mãos de seu sucessor”. Alak deixa o pensamento se desfazer com desdém. “Não importa mais”, diz para si mesmo. “Da mesma forma que Vazmaghor continua sendo um excelente companheiro através de minhas espadas, Azirel, meu pai, continuará sendo um excelente mestre através de minhas ações”.

– Você não acha que está pensando demais não? – pergunta Brum, dando um cutucão no ombro de Alak.

– Bobagem, Brum. – responde o novo eremita, fazendo um gesto desdenhoso com a mão.

– Sim, bobagem, mas se Nym fosse um assassino contratado para te matar, nesse momento você estaria morto. – comenta o ogro gargalhando.

Alak olha para trás e vê Nym parado com um punhal preparado perto de um ponto vital próximo a sua garganta. “Concentre-se, estúpido”, repreende-se enquanto escuta seus companheiros de serviço gargalharem.

– Com certeza eu estaria morto, mas Nym falaria fino pelo resto de sua vida. – retruca Alak com um sorriso no rosto.

Nym para de gargalhar e olha surpreso para suas regiões baixas, percebendo que a ponta de uma das espadas de Alak está próxima a sua “área sensível”. Brum gargalha ainda mais, dando alguns socos contra a mesa que treme. Nym, ainda surpreso, começa a rir devagar enquanto o eremita continua apenas sorrindo, vitorioso.

– Muito bem, Alak, eu o subestimei. – comenta Nym, guardando seu punhal e cumprimentando-o – Desculpem-me pelo atraso.

– Não se preocupe. – responde Alak ainda sorrindo. Seu blefe foi excelente, seus companheiros nem mesmo desconfiaram que ele apenas aproveitou o momento das risadas para posicionar sua espada e ficar com a imagem menos suja. “Concentre-se, idiota”, reprime-se novamente.

– Não se preocupar?! Claro que você tem que preocupar! A cerveja tá acabando e nenhuma caravana de mercadores poderá sair ou entrar em Menzoberranzan até essa merda toda acabar! – diz Brum, exaltado como se o mundo ao seu redor estivesse em chamas – Sabe o que isso significa? Que não haverá mais cerveja daqui algumas horas e ficaremos sem até essa guerra ter fim!

Nym e Alak olham para o ogro com as sobrancelhas erguidas.

– Tudo bem, Brum. – responde Alak encerrando a cena do companheiro – Vamos aos negócios.

– Só esperem um pouco, vou pegar mais uma caneca. – diz Brum levantando-se e indo para o bar.

O Bregan D’Aerthe sorri para Alak, que continua sério.

– Alak, não sei o que aconteceu, mas tente relaxar. Você conhece o Brum faz tempo, não vai ser difícil trabalhar com ele de novo. – diz Nym.

– Não se preocupe com isso, apenas me responda: de onde ele tira tanto dinheiro? – pergunta Alak sorrindo.

– Ele venceu o desafio de um mago anteontem. – responde Nym com uma semi-verdade.

– Certo, faz sentido vindo dele.

O ogro retorna e senta-se à mesa junto com os outros dois. Toma um gole de sua cerveja e oferece para ambos, que negam com acenos de mão.

– Vamos aos negócios agora? – pergunta Alak.

– Por mim, tudo bem. – concorda Brum sorrindo como uma criança com um brinquedo novo.

Nym tira do bolso o pergaminho dado pela figura misteriosa e o entrega para Brum antes de começar a conversa:

– O trabalho é simples, Alak. Como já disse a Brum em outra oportunidade antes de você chegar a Menzoberranzan, vocês servirão de guarda costas para uma clériga de Lolth de uma das Casas Maiores. – sintetiza o mercenário Bregan D’Aerthe.

– Guarda costas? A cidade entrará em guerra e uma clériga quer guarda costas? – pergunta o eremita como se ainda não tivesse entendido exatamente o que o contratante quis dizer.

– Vocês não participarão da guerra. A clériga foi encarregada para uma missão investigativa no Braerym, e vocês deverão acompanhá-la para garantir que ela retorne com vida dessa missão. – responde Nym.

– Compreendo. Então essa clériga não possui guerreiros em sua Casa para acompanhá-la? – pergunta Alak levantando uma sobrancelha.

– Na realidade possui. E um deles irá também, porém vocês não estão sendo contratados por ela. – responde o Bregan D’Aerthe enquanto Alak o olha, esperando a continuação, enquanto Brum toma mais um gole de sua cerveja – Vocês foram contratados por alguém que não quer ser identificado e que pertence a uma das Oito Casas Maiores de Menzoberranzan.

– E ele apenas quer que protejamos a clériga? Você não está escondendo nada? – pergunta o lutador eremita desconfiado.

Nym sorri:

– Não estou, Alak. Não se preocupe. Ele realmente quer apenas que vocês protejam a clériga para que essa possa completar sua missão e voltar para sua Casa com as informações necessárias.

Alak dá de ombros e toma um gole de seu vinho.

– Lembre-se, Alak: estamos em tempos perigosos. As Casas Maiores estão ocupadas com o possível ataque que se aproxima. Lolth está em um silêncio misterioso. Os Xorlarrin não iam se dispor de uma alto-clériga para uma missão investigativa em um território hostil. – comenta Nym encarando Alak seriamente.

– Então seremos babás de uma clériga iniciante? – pergunta Alak rindo.

– Quase. – responde Nym sorrindo – Ela possui experiência, mas não é uma das mais poderosas de sua Casa.

O eremita balança a cabeça indicando ter entendido o que o Bregan D’Aerthe acabou de lhe dizer. Brum dá mais um gole de sua cerveja e arrota.

– Foi mal. Não quis atrapalhar. – diz Brum quando os dois olham em sua direção.

Nym ri, enquanto Alak apenas sorri e retoma o asunto:

– Quanto iremos receber? – pergunta Alak.

Colocando a mão em um de seus bolsos o mercenário contratante tira duas pequenas sacolas com algumas gemas:

– Essa é a primeira parte do pagamento. – diz Nym – A segunda virá quando vocês voltarem com a clériga viva e salva.

Alak abre uma das bolsas, a que ele supôs ser sua, e vê uma dúzia de ametistas. Com os olhos arregalados de espanto, ele apenas responde:

– Estou nessa.

– Não irá se arrepender, discípulo do eremita. – diz Nym se curvando e sorrindo para Alak.

– Imagino que não. – responde o eremita cumprimentando e selando o acordo com o Bregan D’Aerthe.

Nym se levanta e prepara-se para sair:

– Ah sim! E você deve cuidar para que Brum não chateie ninguém com sua personalidade. Você sabe como são as clérigas, não é? – comenta em baixo-drow o contratante, virando as costas e partindo.

– Não se preocupe. – responde Alak também em baixo-drow.

– É. Me tirem da conversa mesmo. Sou ignorável, apenas um pequeno, ignorante e mirrado ogro apreciador de cerveja. – diz Brum, com seus três metros de altura tomando mais um gole de sua bebida favorita.

Alak ri e finaliza seu vinho.

– O que era aquele pergaminho que Nym lhe deu? – pergunta o eremita, um tanto curioso.

– É nossa “carta de recomendação”, pelo que entendi. – responde Brum, mostrando para ele – Parece que apenas os Xorlarrin tem permissão de abrir.

– Interessante. – comenta Alak olhando para o item – Você ficará por aqui também?

Alak olha para o rosto de Brum enquanto esse guarda o pergaminho.

– Eu estou instalado aqui no Bazaar já faz alguns dias. Até deixo minhas armas no quarto. – responde Brum despreocupado.

Alak não se surpreende com a resposta do companheiro. A única coisa valiosa que o ogro realmente possui são as pedras preciosas que recebe como pagamento e a cerveja e comida em seu estômago. Suas armas são apenas dois grandes pedaços de pedra moldados na forma de clavas, amarrados com correntes. Enquanto sua armadura, – se é que aquilo que ele usa pode ser considerado uma armadura -, não é nada além de trapos de couro.

– Ficarei por aqui também. Vamos dividir o quarto, sairá mais barato. – diz Alak.

– Se não fosse a parte do ficar mais barato, eu ia desconfiar das suas opções sexuais. – comenta Brum olhando severamente o companheiro.

Alak ri e se levanta.

– Vamos descansar, Brum. Creio que o Bregan D’Aerthe tenha lhe passado a data e o local onde encontraremos a clériga, não é?

– Sim. Será amanhã, na taverna ao lado. – responde o ogro também se levantando. Brum é o único que Alak conhece que o faz sentir-se baixinho, pois ele sempre foi bem maior que a grande maioria dos drows – Na verdade, será em um dos dormitórios da taverna ao lado.

– Ótimo. – diz Alak começando a caminhar.

Ambos vão em direção às escadas que levam ao dormitório, mas no meio do caminho uma cena chama a atenção do eremita. Uma clériga de Lolth conversando de igual para igual com um goblin, ou “seja lá o que for aquilo”, em uma língua que não é drow.

– Brum, você entende o que eles estão dizendo? – pergunta Alak enquanto passam por perto dos dois.

– Nada de mais. Tão falando algo sobre encontrar o filho de Lolth. Besteira. – diz o ogro dando de ombros.

Ainda estranhando a cena, Alak sobe as escadas com seu companheiro ogro. “Sem sua deusa para lhe dar poder, ela deve estar pensando em servir a Vaherun”, responde a si mesmo o lutador eremita enquanto prossegue em seu caminho.

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