Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 6 (Parte 1)

Temeroso Sol’al Teken’Th’Tlar bate na porta do quarto onde disseram que os Xorlarrin estavam esperando. Parte de seu nervosismo deve-se ao bom tempo que havia se passado desde a sua ultima visita ao Bazaar e, a outra parte, deve-se a extrema ansiedade que está sentindo por começar sua nova missão.

Após a reunião no hall de estudos da Casa Teken’Th’Tlar, Riklaunim e Akordia o deixaram a sós com Jabor para que esse explicasse o que ele deveria fazer. Naquele momento sua ansiedade já era grande, devido ao pouco conhecimento a respeito de sua missão. Depois que Jabor lhe contou mais sobre o possível culto a Lolth por seres de raças inferiores, na Cidade da Rainha Aranha, descoberto pelas Casas Xorlarrin, Del’Armgo e Dyrr, sua curiosidade fervilhou como as águas termais de um lago próximo a áreas vulcânicas. Não foi possível nem mesmo esconder de seu Mestre a excitação que sentiu.

– Sol’al, contenha-se. – disse Jabor severamente ao jovem quando esse começou a esfregar as mãos uma na outra e a ficar inquieto em sua cadeira – Não é útil você demonstrar tamanha excitação por essa missão. Se deixar sua ansiedade tomar conta poderá cometer erros imperdoáveis. Estamos entendidos?

O jovem mago compreendia aquilo, e aos poucos começou a por em prática as técnicas de concentração ensinadas em Sorcere, para que o mago não perca seu foco. Aos poucos, Sol’al retomou o seu ritmo normal e escutou o resto do que seu Mestre tinha a dizer.

Aparentemente o culto é feito pelos escravos no Braeryn. Isso não é um problema em si, afinal os chitines, que são uma raça inferior, também louvam a Rainha dos Fossos de Teias Demoníacos. No entanto, pode-se tecer várias hipóteses a respeito do porquê algum drow ou Casa começaria um culto à deusa com os escravos. Um dos principais é: aumentar o número de seu contingente, já que a maior parte do exército drow é formado por escravos. Escravos que sirvam a deusa dariam suas vidas por ela. “Somos todos alimento para Lolth”. Com certeza isso estaria sendo pregado, e escravos fanáticos e controlados com uma pseudo-liberdade poderiam ser guerreiros ferozes. Mesmo que isso seja feito em homenagem à Rainha das Aranhas, soa como uma tremenda heresia aos da Casa Teken’Th’Tlar e provavelmente aos drows de todas as outras Casas de Menzoberranzan.

– Acreditamos que os Xorlarrin também vejam isso como uma imensa heresia. Estamos os auxiliando para que possamos eliminar esses hereges, ou consigamos reverter o jogo da misteriosa Casa que está planejando qualquer nova insurreição. – disse Jabor a Sol’al, que o escutou concentrado, sem deixar sua ansiedade tomá-lo novamente.

– Mas Mestre, uma insurreição acabou de ocorrer. Os escravos estão enfraquecidos, não fariam grandes estragos. – comentou o jovem mago.

– Não farão grandes estragos se não tiverem uma liderança forte como a de uma das Casas Nobres, por exemplo. – foi a resposta de Jabor ao comentário de seu discípulo – Dê o melhor de si por nossa cidade e nossa deusa.

– Por Menzoberranzan e por Lolth. – respondeu Sol’al no final da conversa.

Ele teve pouco tempo para se aprontar e ir para o Bazaar, mas o tempo foi suficiente para preparar seus componentes mágicos, suas adagas e suas roupas. Apenas ao chegar à taverna Sol’al lembrou dos alimentos, e comprou algumas provisões por lá mesmo, pois não sabia ao certo quanto tempo eles ficariam no Braeryn.

Após a primeira batida na porta, ninguém atendeu. Sol’al respirou profundamente e se focou, deixando seus receios de lado, bateu na porta novamente.

– Quem está ai? – pergunta uma voz masculina de dentro do quarto.

– Sou o enviado da Casa Teken’Th’Tlar para auxiliá-los. – responde Sol’al sem deixar transparecer o nervosismo que voltou a inundá-lo ao escutar a voz do possível Xorlarrin.

A porta se abre aos poucos, e um homem atlético, de cabelo comprido e trançado o observa rapidamente com um olhar analítico. Sol’al estranha o fato de o possível guerreiro estar com sua mão esquerda posicionada na região inferior de suas costas, como um velho com problemas no nervo ciático.

– Entre, mago. – diz o guerreiro ao recém-chegado logo após a rápida análise.

– Com licença. – diz Sol’al, entrando devagar no quarto.

Seria um quarto de taverna simples, se não fosse uma porta que leva a outro aposento. Essa porta se encontra fechada, e Sol’al supõe que lá se encontre a clériga. Ao ver o guerreiro caminhando até sua cama, ele percebe que esse guarda uma espécie de sabre mais curto e curvo de ponta cabeça em suas costas. Em cima da cama há uma espada curta que o Xolarrin guarda em uma bainha e coloca em sua cintura na parte direita. “Ele é canhoto”, comenta para si mesmo Sol’al.

– Chegou há muito tempo no Bazaar, Teken’Th’Tlar? – pergunta o guerreiro, se voltando ao mago enquanto arruma sua piwafwi composta com trechos de couro de lagarto batido; “Essa armadura é leve para um guerreiro, não?”, observa Sol’al.

– Não faz muito tempo não, Senhor Xorlarrin. – responde o jovem mago olhando para o emblema da Casa do guerreiro.

– Estávamos esperando o senhor já faz um tempo. Minha Senhora está se aprontando e logo se juntará a nós. – diz o guerreiro vestindo suas botas sem perder a atenção voltada ao jovem mago.

As botas do guerreiro são acolchoadas. “Ele não é um guerreiro, talvez um assassino”, conclui o mago abrindo as portas para uma nova dúvida, “Será que ele é mesmo um Xorlarrin?”. A dúvida de Sol’al cria uma suspeita que o deixa apreensivo. Concentrando-se, ele começa a observar todos os movimentos do tal “guerreiro Xorlarrin”, que o observa de volta.

Em silêncio, ambos trocam olhares. Sol’al sério, enquanto o Xorlarrin sorrindo ao perceber que sua presença deixa o mago inquieto.

– Não fique apreensivo. Minha Senhora logo se juntará a nós. – diz o guerreiro levantando-se da cama.

Sol’al coloca sua mão esquerda discretamente em um dos bolsos de sua piwafwi e pega um componente de magia para o caso de necessidade.

– Não estou apreensivo, não se preocupe. – diz Sol’al.

– Poderia saber seu nome, Teken’Th’Tlar? – pergunta o guerreiro.

– Meu nome é Sol’al, Senhor. – responde o jovem mago, curvando-se levemente – E o seu? Qual seria?

– Meu nome é… – o guerreiro é interrompido em meio a sua resposta, quando a porta do outro aposento se abre.

De dentro da sala uma jovem e bela drow sai caminhando devagar, com sua piwafwi negra caindo levemente por cima de sua cota de malha, como um vestido justo até sua cintura, após a qual abre-se mostrando sua coxa direita que está protegida por uma placa de metal.

– Qual o nome dele? – pergunta a clériga para o guerreiro de sua Casa em alto-drow.

– Sol’al Teken’Th’Tlar, Senhora. – responde o guerreiro.

– Ele é o tal mago? – pergunta novamente a clériga ao guerreiro, ignorando completamente o recém-chegado.

– É o que parece, Senhora.

Sol’al, sentindo-se fora da conversa, tenta cumprimentar a clériga com sua forma habitual.

– Sou Sol’al Teken’Th’Tlar, a seu serviço, minha Senhora. – diz ele ajoelhando e curvando-se plenamente em frente a clériga como se essa fosse a própria imagem da Rainha Aranha.

A clériga o olha com profundo desdém:

– Sei quem você é. Quando quiser que você se dirija a mim, eu direi. – dá de ombros a clériga, voltando-se novamente ao guerreiro.

Sol’al sente a ofensa de forma indiferente, afinal em sua própria Casa o tratamento que ele recebe é este. “Faz parte do jogo, não é?”, relembra sempre que qualquer ofensa lhe faz ferver o sangue. Além do mais, Sol’al não seria capaz de agir contra ou ofender uma clériga de sua deusa. Mesmo assim, ele se sente perdido sobre o que fazer.

– Está tudo pronto para a viagem? – pergunta ela para seu companheiro.

– Sim, minha Senhora. – Sol’al escuta o guerreiro confirmando a pergunta da clériga.

– Senhora, com todo o respeito, mas gostaria de saber o nome de vocês. – diz Sol’al se curvando, tentando entrar novamente na conversa.

O olhar da clériga parece soltar faíscas quando Sol’al finaliza sua pergunta.

– Para você meu nome é Senhora, seu macho insolente. – diz ela, aproximando-se do mago e erguendo sua mão para desferir-lhe um tapa quando da porta ouve-se uma forte batida.

A clériga vira-se espantada para o guerreiro, que a devolve um olhar semelhante ao dela.

– Quem está ai? – pergunta o guerreiro em linguagem subterrânea comum, fazendo sinal de silencio ao mago.

A clériga prepara sua maça enquanto Sol’al mantém os componentes mágicos em sua mão. O guerreiro posiciona sua mão esquerda na espada que se encontra em suas costas e se aproxima da porta.

Sol’al ouve alguns sussurros vindo do outro lado: duas vozes discutindo algo em linguagem subterrânea comum. Ele não consegue compreender muito da conversa, apenas alguns avisos como: “Eu falo”, “Não tente se intrometer”, “Brum! Eles são drows, não vão te escutar”.

– Responda! Quem está ai? – intima o guerreiro Xorlarrin.

– Somos mercenários a mando dos Bregan D’Aerthe para auxiliar os membros da Casa Xorlarrin no Braeryn. – responde uma voz masculina.

O guerreiro Xorlarrin olha para sua clériga ainda mais espantado. “Abra a porta com cuidado”, diz ela na linguagem de sinais drow ao guerreiro, logo após se dirigindo a Sol’al na mesma linguagem: “Mago, prepare alguma coisa útil”.

Sol’al segura os componentes necessários para a magia de cegueira em uma das mãos e confere se suas adagas de arremesso estão bem posicionadas. Enquanto isso, aos poucos a porta vai se abrindo e o Xorlarrin vê um drow alto e magro, de cabelo curto e armadura leve e acolchoada que cobre apenas pontos realmente vitais como o pescoço. Logo atrás do drow, está um ogro mago parado, quase sem roupas, apenas com trapos de couro batido que cobrem as áreas íntimas.

– Identifiquem-se. – diz o guerreiro Xorlarrin aos estranhos mercenários enquanto Sol’al e a clériga se posicionam em locais não visíveis, preparando-se para atacar quando necessário.

– Sou Alak Sel’Xarann. Estou aqui a mando dos Bregan D’Aerthe para proteger a clériga Xorlarrin que está pronta para uma missão investigativa no Braeryn. – responde o mercenário drow em baixo-drow ao Xorlarrin – Creio que você e a clériga que está ai dentro sejam os Xorlarrin, não?

O guerreiro fixa seu olhar desconfiado no eremita.

– Não me recordo de terem contratado mercenários para proteger minha Senhora. – diz o drow secamente – O que os Bregan D’Aerthe estão pensando?

– Leia isso. – diz Alak, pegando o pergaminho da mão de Brum e entregando ao Xorlarrin – Não sabemos quem nos contratou através dos Bregan D’Aerthe, mas ele nos entregou esse pergaminho. Espero que esclareça.

Olhando desconfiadamente, o guerreiro abre o pergaminho com cuidado. Seu olhar demonstra total dúvida em relação àquele pergaminho. Enquanto ele lê, seu olhar duvidoso vai se alterando para um olhar cheio de raiva e espanto. Dando um passo para trás o guerreiro entrega o pergaminho a sua senhora que o lê e engole em seco, enquanto Alak e Brum esperam do lado de fora.

Sol’al apenas observa a clériga e o guerreiro com suspeita. Ele devolve os componentes da magia de cegueira e coloca a mão em outro bolso de sua piwafwi, preparando o componente para uma magia de proteção. Afinal, sabe-se lá o que tem naquele pergaminho. Curioso, ele tenta bisbilhotar o que está escrito no pergaminho, mas infelizmente não consegue ler nada além de um nome, Zaknafein, e uma assinatura rúnica que ele não consegue identificar de pronto.

– Deixe-o entrar. – a clériga ordena ao guerreiro em alto-drow, claramente contrariada.

O guerreiro abre a porta. Percebendo que Alak não entendeu o que a clériga havia falado, diz em subterrâneo comum:

– Podem entrar.

Logo que a porta se abre, a Xorlarrin se depara com o imenso ogro mago que está junto ao drow.

– Menos o inferior. – ordena a clériga ainda em alto-drow ao seu guerreiro.

– Menos o ogro. – diz o Xorlarrin em baixo-drow.

Parando, Alak se vira para Brum.

– Brum, fique aqui fora. – diz ele em subterrâneo comum.

– Ela me chamou daquilo? – pergunta o ogro, com uma feição revoltada.

– Não sei, Brum. – responde Alak – Apenas fique aqui.

Brum se afasta da porta resmungando em goblinóide. Sol’al escuta os resmungos do ogro mago e sabe exatamente o que ele está dizendo: “Vou mostrar pra ela quem é inferior. Tenho certeza que ela falou essa palavra. Drows patéticos”. Mesmo sabendo disso, o mago prefere guardar para si a informação. Enquanto ele não ganha a confiança da clériga, não é bom se passar por puxa-saco dedo duro.

Alak entra no quarto e o guerreiro fecha a porta com o ogro de fora. Sol’al o analisa completamente da cabeça aos pés e percebe onde o recém-chegado guarda suas armas: seis facas arremessáveis nos dois lados da cintura e duas espadas semelhantes a patas dianteiras de aranhas-espadas nas costas. O mago observa mais atentamente as espadas, para ter certeza que seus olhos não lhe pregaram nenhum truque, mas não consegue ter certeza do que viu, pois o eremita se vira e o analisa rapidamente.

– Pergunte ao mercenário se ele e seu amigo já estão prontos para ir, pois não tolerarei atrasos. – diz a clériga ao Xorlarrin em alto-drow.

– Você e o ogro já estão prontos para partir, senhor Alak? – pergunta o guerreiro ao eremita.

– Sim. Já estamos preparados. – responde Alak prontamente voltando sua atenção ao guerreiro.

Sol’al observa os dois. As diferenças superficiais são óbvias: enquanto o Xorlarrin aparenta ter grande perícia com uma única espada, o mercenário aparenta ser capaz de usar duas armas ao mesmo tempo. Porém, no que realmente é focado o treinamento de ambos é o que intriga o jovem mago. Ele se concentra observando ambos enquanto eles conversam coisas supérfluas a respeito de bagagens e comidas, até que a Xorlarrin chama sua atenção.

– Mago, nos espere lá embaixo e leve o inferior junto. – ordena a clériga a Sol’al em alto-drow – Já o encontraremos lá.

– Sim, minha Senhora. – responde Sol’al se curvando.

O mago sai do quarto e fecha a porta com cuidado. Quando está a sós com o ogro ele diz em globinóide:

– A clériga ordenou que a esperássemos lá embaixo.

Brum olha para o mago com um certo desdém e sorri.

– Muito espertinhos vocês drows, não? – comenta Brum caminhando lentamente na frente do mago, que o olha sério, como se estivesse advertindo o imenso ogro pelo seu comentário.

Percebendo que Brum o ignorou e começou a descer as escadas, Sol’al prefere dizer em voz alta, mas ainda em globinóide:

– Cuidado com seus comentários, ogro. Pode ser prejudicial a sua vida.

– Sim, senhor. – responde com mais desdém ainda o imenso ogro.

Com a cara amarrada e pensando sobre como castigar aquele ser inferior, Sol’al espera no salão de entrada da taverna. Enquanto isso seus pensamentos se transformam: “O que será que eles estão conversando?”.

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