Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 6 (parte 3)

  – Então quer dizer que ela acha que fomos contratados para espioná-la? – pergunta Brum ao seu companheiro drow Alak Sel’Xarann, enquanto caminham por uma viela cheirando urina e carniça no Braeryn, onde chegaram a pouco tempo.

– Isso mesmo, Brum. – responde o eremita mercenário observando seu ambiente, vendo mais a frente um grupo de gnolls conversando. Ele se prepara mentalmente para qualquer eventualidade.

– Até que ela não é tão burra quanto parece. – comenta o imenso ogro.

Alak olha para Brum como se não tivesse escutado direito o que seu companheiro falou.

– O que você disse Brum?

– Sei que você não tem muito a ver com isso, mas como já trabalhamos juntos outras vezes, não vou esconder de você. – responde o ogro incerto de como dizer que os contratos foram diferentes.

– Esconder o que? – Alak pergunta, voltando a olhar para o grupo de gnolls mais a frente que começa a se mexer inquieto com a aproximação dos dois mercenários.

– Eu não fui contratado apenas para protegê-la. – responde Brum como se tivesse falado o suficiente.

O eremita percebe a resposta implícita na frase de seu companheiro e prefere não entrar em detalhes naquele momento, pois os gnolls estão com as armas nas mãos, preparando-se para os interceptar. Eles continuam caminhando na direção do grupo como se nada estivesse ocorrendo, afinal aquele grupo pode ter alguma informação a respeito do culto a Lolth.

– Ainda acho que não é uma boa deixar a clériga e aqueles dois sozinhos. – comenta Alak ao seu companheiro.

– Fazer o que? Foram ordens dela. – responde Brum sorrindo.

– Ainda acho que deveríamos voltar para fazermos nosso papel de guarda-costas.

– Cês diviam memo voltá. Pra num pisarem onde não são bem vindos, drow. – ameaça um dos gnolls do bando.

Alak o analisa antes de encará-lo nos olhos. O gnoll está segurando uma clava e um escudo pequeno. Sua armadura é um trapo de couro batido e seus braceletes são de metais com pequenas lâminas protuberantes.

– Coloque-se no seu lugar, animal. – diz secamente Alak ao gnoll – Ou eu o colocarei.

– Certo! Agora você está agindo como um drow de verdade. – diz seu companheiro ironicamente.

– Brum, poupe-me de seus comentários. – responde o eremita, olhando para o ogro com cara de indignado.

– Mmmm, que coisa. Pensei que a clériga tinha ficado lá pra trás. Acho que me enganei. – comenta Brum rindo e ignorando completamente a presença dos gnolls.

– Prefiro ficar quieto a discutir com um…

– Cês são louco?! Cês invadem nosso território pra ficar discutindo o relacionamento? – o gnoll interrompe Alak.

Ambos os mercenários viram em direção ao gnoll e o encaram. Reflexivamente, o bárbaro dá um passo para trás, tentando não demonstrar ainda mais o pensamento que brota em sua mente “Putz, falei merda”.

– Cê cuida dele, Alak? – pergunta Brum.

O eremita não responde, apenas se vira em direção ao gnoll bárbaro e se aproxima.

– Vamos ver se você entende com quem está falando antes de morrer. – ameaça Alak.

O gnoll parte para cima do drow, enquanto seus companheiros ficam acuados pela presença do imenso ogro. O bárbaro tenta atingir a cabeça do mercenário, mas esse se esquiva com uma agilidade surpreendente e um deslocamento de ar passa próximo ao focinho do gnoll. Os olhos do bárbaro se arregalam ao ver seu braço com a clava cair ao chão, acompanhando o movimento do ataque. Olhando desesperado para seu oponente, o gnoll vê na mão do drow uma espada estranha cheia de sangue.

– Compreendeu? – pergunta o eremita desferindo um golpe certeiro no pescoço do gnoll, que cai ao chão tremendo próximo ao seu próprio braço.

Os outros gnolls seguram suas armas com mãos trêmulas.

– Acho que agora eles estão com mais vontade de cooperar, não acha, Alak? – pergunta Brum se aproximando do grupo de cinco gnolls que tentam manter uma aparência sólida.

– O que vocês sabem a respeito de um culto a Lolth aqui no Braeryn? – Alak vai direto ao assunto enquanto limpa sua espada.

– N-não sa-sabemos de nenhum culto. – responde um dos gnolls.

– Certo. Vou ter que tirar essa informação à força? Já aviso que força é o que não me falta. – ameaça Brum, sorrindo e segurando uma de suas imensas clavas de pedra acorrentadas com uma única mão.

Ao ver aquilo o gnoll treme ainda mais, e outro entra na conversa:

– É verdade, senhor. Nois nunca ouviu falá em nenhum culto a Lolth aqui nesse lugar.

Alak observa o olhar do gnoll e entende que o medo que eles estão sentindo não permitiria que eles mentissem. Com certeza, por pior que seja, eles realmente não sabem de nada.

– Que senhor o que, ô! Eu pareço um drow? – pergunta Brum cinicamente.

– Brum, não é hora de piadas. – diz Alak enquanto Brum ri – Vocês não viram nenhum…

– Pode falar “ser inferior”, eu deixo. – o ogro interrompe o eremita, que o olha severamente.

– Brum!

– Certo. Certo. Parei. – comenta Brum levantando as mãos como se estivesse sendo parado pela guarda da cidade.

– Prosseguindo. – diz Alak, voltando sua atenção para o gnoll – Vocês viram alguém usando alguma insígnia que lembrasse uma aranha?

– Não, senhor. – responde o gnoll balançando a cabeça, com um olhar de medo e espantado com a maneira pela qual os dois mercenários se tratam – é estranho para eles ver um ogro e um drow se tratarem abertamente daquela forma.

– Vamos embora, Brum. Não vamos conseguir nada aqui. – diz Alak se virando para a direção de onde veio.

– Infelizmente. – responde Brum com uma voz decepcionada.

Os gnolls ficam parados enquanto os dois mercenários se afastam. Ambos caminhando lentamente, o drow um tanto mais rápido que o ogro, para poder ficar lado a lado com ele.

– Então você foi contratado para espionar a clériga? – Alak reinicia o assunto.

– Espionar não. Pelo que entendi eu fui contratado para sobreviver e retornar com informações para nosso misterioso contratante. – responde Brum.

– Sobreviver? Essa missão não me parece tão perigosa. – comenta Alak.

– Acho que tem mais coisa por trás disso tudo, Alak. – diz Brum quando o eremita levanta a mão em sinal de silêncio.

Um barulho chamou a atenção do eremita, que rapidamente observa a direção de onde esse veio. Sem muito esforço ele encontra o mago que estava acompanhando a clériga e o guerreiro.

– Você não deveria estar acompanhando a clériga? – pergunta Alak para Sol’al.

– E vocês não deveriam estar conversando menos? – retruca Sol’al secamente – Você é um drow bastante paciente para tolerar esse ogro insolente.

Brum começa a rir, Alak abre um sorriso.

– Certo, maguinho. Você não acha que deveríamos deixar a clériga menos desprotegida? – pergunta Brum rindo.
Sol’al o olha com irritação e desdém.

– Concordo com Brum. A Clériga está sozinha com o guerreiro, em território extremamente hostil. Por que você veio nos seguir ao invés de protegê-la? – acrescenta Alak deixando o sorriso se desfazer em seu rosto.

– Não é de sua conta, mercenário. – Sol’al encara o eremita, mas logo vem em sua mente: “Pare de demonstrar tanta auto-confiança, Sol’al” – Mas vocês estão certos. Não me agrada ter deixado os dois a sós.

Alak levanta uma de suas sobrancelhas.

– Então vamos parar de discutir inutilidades e encontrá-los? – pergunta o eremita.

– Melhor assim. – responde o mago se virando e começando a caminhar na frente dos dois.

Brum e Alak trocam olhares curiosos enquanto caminham seguindo o mago. Brum levanta a ponta do seu nariz achatado com a ponta do indicador. Alak sorri e balança a cabeça, compreendendo o que seu companheiro quis dizer com aquele gesto.

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