Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 6 (parte 4)

    O cheiro das loções dos drows que estão cercando sua tribo está extremamente enjoativo. Um cheiro adocicado e forte, que talvez para eles seja de uma suavidade plena, mas para o grimlock Braços de Adamantina aquilo fede.
Há muito tempo atrás, quando Braços ainda era jovem e apenas um aprendiz de escultor, sua tribo teve problemas com outro cerco. Porém na época o cerco era de duergars e não de drows. É compreensível o porquê desses cercos insistentes, afinal sua tribo se localiza em um ótimo sítio de adamantina, um metal apreciado pelos povos subterrâneos.
Naquela época eles tiveram grandes problemas, mas conseguiram vencer os duergar com a ajuda de uma drow e seu companheiro sabe-se-lá-o-que. A drow conquistou a confiança e apreciação de toda sua tribo. Confiança: algo extremamente difícil de se conquistar dos grimlocks.
Mas agora sua tribo está cercada novamente. O exemplo e as palavras dos dois forasteiros ajudou os grimlocks a vencerem outras adversidades, mas não era o caso hoje. A maioria da sua tribo que chegou a conhecê-la estava velha ou havia morrido, como seu mestre. Os outros começaram a ouvir aquelas histórias como folclore e nem mesmo acreditavam na existência dos dois forasteiros.
Braços de Adamantina relembra tudo aquilo. Do cheiro que ficou em sua mente. E de seu nome. Não o primeiro nome que ela havia dito, pois não era viável para os grimlocks serem auxiliados por alguém que carregava o nome da infame deusa dos drows. Mas sim o segundo nome que ela deu. “O nome de uma verdadeira deusa”, como disse seu mestre.
Ele toca a escultura do busto que seu mentor havia feito da forasteira com nome de deusa. Pequenas patas tocam a superfície de sua mão. “Aranhas”, ele reconhece. Braços sabe que aquele local vive cheio de aranhas, mas não saberia explicar exatamente o porquê.
Cuidadosamente, ele contorna os traços do busto com seus dedos, sentindo cada depressão e elevação, trazendo a tona sua memória de quando seu mestre pediu para que tocasse o rosto da drow que posava para eles e sentisse cada traço, pois só assim Braços seria capaz de retratá-la tal como ela é. Talvez não como ela aparecesse para aqueles capazes de enxergar, mas sim tal como ela aparecia nas sensações absorvidas por seu tato sensível.
Um cheiro de sangue acompanha as loções dos drows. “Estão sacrificando algum dos meus irmãos”, percebe tristemente o escultor, pegando a marreta que se encontra aos seus pés. Não dá mais para suportar aquele cerco. Sua tribo tem que fazer algo, e as palavras daquela drow surgem em sua mente: “Não criem dependência. Ajudem uns aos outros, mas nunca acreditem que vocês são incapazes de sobreviverem sozinhos”. Eram palavras sábias no momento, mas agora, infelizmente, Braços de Adamantina não sabia como agir. “Não sou um guerreiro, sou um escultor”, sentencia a si mesmo.
Beijando a testa do busto e com a marreta na mão, Braços sai de sua barraca e caminha. O cheiro se torna mais forte. Ele escuta os guerreiros de sua tribo preparando-se para um confronto que cada vez mais se torna inevitável. Os seus irmãos de tribo que não são capacitados para uma luta discutem o que fazer para fugir e sobreviver.
As crianças choram e as mulheres se sustentam firmes, pois sabem que aqueles pequenos grimlocks necessitam delas. Braços sente o cheiro do medo nelas, mas compreende sua força. Uma ponta de tristeza toca seu coração, “Sou um escultor, o que posso fazer para salvar minha tribo?”.
Um jovem guerreiro toca no braço do escultor que vira em sua direção surpreso por não ter sentido o cheiro. Ele sente suor, sente medo, sente um pouco de sangue.
– Você está ferido? – pergunta o escultor ao jovem guerreiro.
– Não senhor, esse é o sangue de um companheiro que não consegui ajudar. – responde o jovem.
– Então no que posso ajudá-lo? – pergunta o escultor confuso.
– Você foi discípulo de Mãos Calejadas, não foi? – pergunta o jovem, deixando o escultor ainda mais surpreso.
– Fui, mas o que isso importa agora? – pergunta Braços de Adamantina.
– Vocês realmente conheceram a deusa?
– Sim. – responde o escultor ainda abobado.
– Como ela era? Não fisicamente, digo, como ela era? – pergunta o jovem parecendo um tanto nervoso.
– Não diferente de nós, apenas tinha mais confiança em si mesmo. – respondeu o escultor, escutando uma leve risada de satisfação por parte do jovem.
– Posso tocá-la?
– Sinta-se a vontade. Entre na cabana e a toque. – respondeu o escultor ainda sem entender.
Braços de Adamantina sente o cheiro do jovem guerreiro se afastando e se perde em pensamentos. “Alguém ainda lembra”, comenta consigo mesmo. A recordação da drow com nome de deusa vem em sua mente e a sua própria resposta ao jovem guerreiro vem a tona: “Não diferente de nós, apenas tinha mais confiança em si mesmo”. Escutando todas as lamúrias ao seu redor Braços repete mentalmente: “No que acreditava ser”.
Afastando-se da cabana, ele caminha entre a multidão. Os grimlocks nunca tiveram uma sociedade rigorosamente estruturada, sua organização sempre foi muito dinâmica e adaptável ao ambiente onde se encontram. Portanto, não era nenhuma novidade para o escultor sentir o cheiro do metal de armas e do couro das armaduras dos guerreiros entre os cidadãos comuns. Braços caminha até a cabana dos líderes da tribo – de onde um cheiro acre de suor se precipita -, que estão discutindo o que fazer nesta situação. Ele escuta alguns comentários que não o agradam muito. “Esperar o ataque drow? Mostrar resistência em nossas defesas?”, comenta consigo mesmo o escultor inconformado.
Do lado de fora, e um tanto afastado da cabana, Braços percebe a presença de dois outros guerreiros conversando.
– O cerco está pesado, sinceramente não sei o que será de nós. Malditos drows! – um deles comenta com a preocupação óbvia em sua voz.
– Temo que dessa vez a sobrevivência não será uma opção. – responde o outro, sentindo o cheiro do escultor que se aproxima – O que você acha, Braços? Você estava aqui quando os duergars nos atacaram. Você acha que teremos chances?
O escultor para e reflete. A sensação é que tudo está acabado, mas algo em seu íntimo lhe diz que isso não é verdade, afinal sua tribo não sobreviveu a tantas adversidades a toa.
– Acredito que iremos sobreviver. Talvez não aqui. Mas tudo que construímos e lutamos para conseguir até agora se manterá com aqueles que sobreviverem a esse cerco. – Braços faz uma pausa, a respiração leve dos dois guerreiros lhe indica que estão concentrados escutando o que ele tem a dizer – A cultura de nossa tribo não será dizimada.
– Mas como iremos sobreviver? Estamos em menor número e eles conseguiram nos cercar completamente. Não conseguimos ver nenhuma brecha nem mesmo para conseguirmos fugir. – diz um dos guerreiros, hesitante.
Braços respira fundo, sentindo todos aqueles cheiros de loções e sangue que caminham junto com a leve corrente de ar que atravessa os túneis do Underdark.
– Nós iremos sobreviver, pois isso faz parte de nós. – sentencia o escultor, enquanto sua narina parece reconhecer algum detalhe naquele cheiro que provém dos drows – Nós somos a sobrevivência, nós somos astúcia, nós somos o Caos. Não há como não nos adaptarmos a qualquer situação.
Uma pequena alteração na respiração dos guerreiros faz com que Braços perceba que eles ficaram confusos com o que foi dito e logo essa percepção se concretiza:
– Me desculpe, escultor, não entendi como isso irá nos ajudar. – comenta um dos guerreiros.
– Esqueça. Sou apenas um escultor. – Braços responde com a voz triste e volta a caminhar, porém agora em direção a sua cabana novamente.
“Por algum momento pensei ter sentido o cheiro…”, seus pensamentos são interrompidos por mais uma corrente de ar, que trás com extrema força o cheiro proveniente do acampamento dos drows. Entre o cheiro do sangue dos sacrifícios e das loções enjoativas, Braços de Adamantina sente um leve cheiro de minerais que caminha como um espião furtivo em uma multidão, “Araushnee!?”.

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