A Casa da Estrada Desconhecida – parte 1

Boa tarde, Nath. Como você está?

Não posso negar que depois dos últimos acontecimentos, até mesmo escrever “boa tarde” é bastante difícil.

Sei que deve estar confusa sobre o que estou falando, mas logo esclarecerei; tal como a razão do título desse e-mail, que provavelmente você já deve suspeitar. Afinal, a muito tempo que estamos discutindo os significados dessa palavra, não é mesmo? Não sei exatamente há quantos meses estamos questionando o que vem a ser “amor”, “amar”, e tudo que se deriva disso. Se aquilo que chamamos de amor, aquilo que está enraigado em nós e em nossa sociedade, realmente tem algo em comum com certas virtudes exaltadas em algumas filosofias e religiões.

Bem, em nossa última conversa, não sei se recorda, comentamos sobre um casal de amigos que tivemos na adolescência, lembra-se? Creio que foi a três semanas atrás que conversamos sobre Carlos e Juliana. O quanto eles “pareciam feitos um para o outro”. O quanto encarnavam o “amor” que concebemos como sendo uma virtude, a razão da felicidade.

Se conheceram desde pequenos e fizeram juras de amor eterno. Até onde sabemos, mantiveram seus compromissos. Fizeram planos e tudo mais. Pareciam um casal excepcionalmente feliz. Com eles, a eternidade do amor parecia real. Até mesmo quando começaram a se afastar de nosso círculo de amigos, não pareciam sofrer com a decisão, muito pelo contrário, demonstravam certeza e contentamento.

A razão do título do e-mail, “Amor”, é esse: me encontrei com eles, ou melhor, com Carlos e gostaria de lhe contar como foi. Já lhe digo que colocar esse título para um evento tão sinistro, gera um conflito em minha mente.

Sei que muito do que está escrito aqui não fará sentido, ou até mesmo parecerá alucinação ou algum outro tipo de devaneio. Mas prefiro correr o risco de ser tido como louco e expor os fatos para que possamos ampliar nosso debate a respeito da suposta virtude do amor, do que esconder o que vi e mantermos nossa discussão no senso comum.

Após nossa última conversa, curioso como sou, aproveitei meu mês de férias e procurei pelo nosso “casal exemplo”. Queria saber o que aconteceu com eles. Como estavam depois desses quinze anos que não nos víamos.

A minha busca me levou à cidade de Campos do Jordão, aproximadamente 260 km de Campinas. Uma cidade com um certo luxo. Foi inevitável imaginar que encontraria o casal morando em alguma casa luxuosa nas montanhas, parecida com um castelo ou com alguma mansão européia, com pelo menos dois carros na garagem, quadra de tênis, piscina aquecida, sauna e coisas do gênero; mesmo que as evidências me dissessem o contrário.

Para descobrir onde ele se encontrava, revirei minhas anotações das pesquisas que fiz a respeito de nossos amigos. Entrevistei ex-colegas do colégio que freqüentamos, outros velhos amigos, ex-colegas de trabalho de ambos. Ninguém sabia exatamente onde eu poderia encontrá-los, mas todos tinham palpites: Serra Negra, Atibaia, Monte Verde, Santo Antônio do Pinhal, me disseram até mesmo Valinhos, em alguma fazenda isolada. Sabiam apenas que Carlos e Juliana, se afastaram cada vez mais de todos, até de seus familiares, e que ambos, venderam tudo e limparam suas contas para comprar uma mansão ou algo semelhante em uma dessas cidades.

Assim, procurei pela família de Carlos, que era com quem eu tinha mais contato. Por incrível que pareça, quase ninguém estava vivo ou em sã consciência. Seus irmãos haviam morrido, o mais velho de ataque cardíaco, o do meio de câncer, igual ao pai, as duas mais novas foram assassinadas durante um assalto. Já seus primos e tios – dos que estavam vivos – dois primos estavam em uma clínica para dependentes químicos – casos graves de dependência – e um de seus tios se encontrava em um asilo para idosos, porém, sem condições de me dar alguma informação válida, já que é um quadro grave de esquizofrenia. Quem me restou para conversar foi a mãe.

Depois de dois dias procurando, descobri que ela havia tido um derrame recentemente e estava correndo risco de morte no hospital do bairro Ouro Verde. Fui tentar visitá-la, mas por não ser um familiar, quase não me deixaram entrar. Expliquei-lhes a situação da família e que vinha dar notícias do filho “desaparecido”. Por sorte, ou azar, o médico dela estava voltando do horário de almoço e escutou minha história. Ele considerou uma boa idéia eu fazer a visita, e liberou minha entrada na UTI.

Caminhei pelos corredores com uma certa apreensão, somada a uma sensação desconfortável de que algo não muito bom estava para acontecer. Pensei em várias coisas. Tetava imaginar como o Carlos conseguia se manter longe, sabendo que sua mãe estava sozinha a, pelo menos, cinco anos, quando seu marido faleceu por causa de um tumor cerebral.

Cheguei até mesmo a refletir como esse amor que ele sente por sua mulher, é tão exclusivo, tão limitado, a ponto de ignorar o sofrimento da própria mãe para se manter junto, a sós, com ela. Seria realmente esse amor, a virtude sobre a qual tanto falam?

O quarto com a mãe morimbunda, tinha um ar rançoso e denso. O médico me disse que ela estava em uma espécie de coma induzido, ou algo do gênero, não me recordo muito bem; na verdade, creio que nem prestei muita atenção, pois estava pasmo com a aparência daquela mulher, que em minhas memórias advindas da adolescência era uma pessoa forte e “iluminada”. Ela estava decrépta, esquelética, com os olhos fundos e olheras enormes. Sua face era quase um mapa rodoviário de tantas linhas de expressão, que a deixava vinte anos mais velha do que realmente era.

Perguntei ao médico se ela estava daquele jeito por causa do derrame. A resposta triturou meu coração. Um simples “Não. Ela estava assim quando chegou”, fez meu mundo se abalar frente a tamanho sofrimento que via naquele semblante.

Exitei em tocar em sua mão, mas o fiz, pois o médico havia me dito que ela sentiria o toque e me ouviria perfeitamente. Ao tocá-la, seu corpo estremeceu. O médico sorriu e nos deixou a sos. Aprovietei aquele momento, mesmo acreditando que não conseguiria resposta alguma, para lhe perguntar onde eu poderia encontrar Carlos e Juliana.

Meu coração saltou em minha boca quando seus olhos abriram, desesperados, me encarando fixamente. Seu corpo tremia e sua cabeça balançava rapidamente de um lado para o outro, como se quisesse negar o que havia lhe perguntado. Murmúrios ininteligíveis saíram de sua boca. Ela percebia que eu não estava entendendo e apertou ainda mais forte minha mão, tentando levantar seu corpo. Por reflexo abaixei o meu para escutá-la melhor e foi quando ouvi a frase: “Nãã vaáá atrrss dee Carrss”, dita com muito esforço. Ela soltou minha mão e começou a chorar compulsivamente. Duas enfermeiras entraram no quarto. Uma tentou acalmá-la e a outra foi chamar o médico. Fui esperar o doutor do lado de fora. Queria muito conversar com ele. Saber mais a respeito do que aconteceu com aquela mulher.

Assim que o médico a atendeu e saiu, conversei com ele, iniciando com perguntas a respeito do bem estar dela, logo após, passamos a conversar sobre sua familia e como ela chegou no hospital. Quem puxou a conversa, convenientemente, foi o doutor.

Descobri, nessa conversa, que a mãe de Carlos, dona Lúcia, havia sido levada ao hospital pela vizinha, Andréia, e que ainda estava consciente ao ser hospitalizada. Quando o médico perguntou sobre sua família, ela respondeu com dificuldade que estavam todos mortos, mas a vizinha a corrigiu, dizendo que havia um filho ainda vivo. Dona Lúcia tentou dizer algo, mas no lugar de palavras, saiu um urro, pois ela teve outro AVC.

Fui embora abalado. Foi inevitável chorar no caminho de casa. Entretanto, havia uma coisa que me contentava: o médico me passou o endereço de Dona Lúcia. Assim, fui visitar a vizinha, Andréia.

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