Arquivo para março \30\America/Sao_Paulo 2012

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (Parte 5)

            “Oh poderoso Shormongur! Mestre da destruição, corrupção e degradação. Que esse lugar se torne uma extensão de seu lar e que seus inimigos não sejam capazes de adentrá-lo. Que seu poder os destrua!”.

            É a terceira vez que Sol’al Teken’Th’Tlar lê aquela oração que está escrita na parede do imenso túnel onde seu grupo adentrou, logo após encontrar uma passagem no chão da barraca que Brum derrubou a porta. A oração está escrita em abissal e não em goblinóide, ou linguagem orc, o que lhe faz ter cada vez mais certeza que deve ter algum encantamento naquilo. Ele aproxima sua mão da escrita e a segue pela extensão horizontal do muro até chegar próximo a uma runa órquica, ou algo parecido. “Ah! Maldição!”, pragueja mentalmente o mago não conseguindo encontrar nenhum significado palpável para aquilo.

            O mago poderia muito bem utilizar uma magia para detectar as propriedades mágicas daquele local, mas ele não se deteve por muito tempo no estudo delas para essa missão. Achou que apenas precisaria verificar se aqueles que iriam acompanhá-lo e os escravos cultistas de Lolth carregavam algum equipamento mágico. Logo na viagem ao Braeryn ele conseguiu ver a aura mágica de alguns equipamentos de seus aliados – com exceção de Brum – e a intensidade deles, porém o cansaço mental já está exaurindo essa magia de sua mente. Ele sabe que só conseguirá utilizá-la mais uma vez. “Será que esse é o momento?”, se pergunta Sol’al, “Essa missão está obscura demais”.

            – Então mago? Descobriu alguma coisa? – pergunta a Xorlarrin.

            – Isso é uma oração a um tal de Shormongur, minha Senhora. Aparentemente um demônio. – responde o mago incerto.

            – Isso eu sei, imbecil. Você descobriu algo útil? – intima a clériga com um olhar severo ao mago.

            – Há… Há u-uma runa no final da oração, minha Senhora. É uma runa órquica, t-talvez seja algum símbolo de proteção mágico. – responde o mago gaguejando.

            – Talvez!? Você está ai já a bastante tempo olhando para esse muro, mago estúpido! Quero saber o que isso exatamente é, me entendeu!? – ordena a clériga Xorlarrin com fúria em sua voz.

            – Sim, Senhora. – responde o mago com a cabeça baixa.

            “Sol’al, acho que você está começando a exagerar na encenação. Isso pode acabar denegrindo a imagem da sua Casa”, se censura mentalmente enquanto volta a observar os escritos. Olhando com mais atenção, Sol’al percebe um pequeno símbolo embaixo do nome Shormongur, “Parece o símbolo sintético do nome do demônio”, comenta consigo, “É o mesmo símbolo do amuleto da humana que matamos fora da barraca”.

            Qualquer mago, principalmente aqueles treinados no Sorcere, sabem que ter o simbolo do nome de um demônio é importante para conseguir tratar com seu dono. Nome é poder, o símbolo não só representa o nome, mas o posto hierárquico, função e influências do demônio em questão. “Já é um grande passo”, diz a si Sol’al mesmo enquanto prossegue com suas reflexões, “Analisarei o símbolo mais tarde”.

            Ele se aproxima da runa orquica e tenta reconhecer os padrões arcanos envolvidos naquilo. Não lhe parece um símbolo divino ou de magia natural, porém a cultura orc nunca foi o forte de Sol’al. Ele observa atentamente e recorda a oração mentalmente enquanto observa de forma fixa a runa. “Palavras de poder”, um insight vem em sua mente fazendo com que ele olhe para o muro do outro lado. Para sua surpresa, sua intuição o guiou corretamente, pois, na outra parede há uma runa idêntica àquela que ele está estudando. “Mesma altura, mesma largura, mesmo desenho. Forma uma espécie de linha horizontal no ar”, pensa enquanto analisa as estruturas da runa que está mais próxima. “Não. Ela parece ocupar mais o espaço. Não uma simples linha horizontal mas…”, tudo parece fazer sentido em sua mente. As runas são desenhadas rudicamente mas suas extremidades se tornam delicadas semelhantes a raízes de árvores que Sol’al já havia visto no subterrâneo próximo a superfície: grossas e rudes quanto mais próximas do tronco e finas e delicadas quanto mais distante dele.

            – Senhora, acho que descobri algo. – diz o mago humildemente, mas sem conseguir esconder seu contentamento.

            – Acha? – pergunta a clériga secamente.

            – Não Senhora, tenho certeza. – responde Sol’al olhando para o pé da Xorlarrin – Essas runas orquicas são armadilhas mágicas. Acredito que elas formem uma espécie de barreira invisível que se passarmos acionará algum efeito, provavelmente destrutível.

            A clériga o encara demonstrando uma certa incredulidade.

            – Ainda não sei o que seria a oração. Acho que pode ser palavras de poder para aumentar o efeito das magias rúnicas. – complementa Sol’al.

            – Sim, são palavras de poder. – comenta a clériga – Você consegue desativar essas runas?

            Sol’al coloca a mão no queixo pensativo, ele sabe que sem conhecer qual magia é conjurada através daquela runa seu trabalho seria bem mais difícil. Além do mais, seria complicado exaurir suas magias para cancelar armadilhas.

            – Acho que não, Senhora. – responde o mago com a cabeça baixa.

            – Inútil! – diz a clériga virando suas costas para ele e se dirigindo ao mercenário Alak – Mercenário, diga para seu companheiro que precisaremos que ele faça um pequeno serviço.

            Alak que se encontra próximo da entrada do túnel, junto a Brum e ao guerreiro Xorlarrin olha em direção a clériga. Sol’al sente uma pontada de ciúme, ao perceber que o mercenário insolente está se tornando mais útil para sua senhora.

            – Sim Senhora. O que você quer que ele faça? – pergunta Alak mantendo a conversa em baixo-drow.

            – Quero que ele ultrapasse aquele limite. – responde a clériga apontando em direção ao local onde as runas estão alinhadas.

            – Senhora, eu escutei a conversa entre você e o mago. Não acho válido sacrificar meu companheiro nesse ponto da missão e… – tenta argumentar o mercenário, mas logo é interrompido pela drow.

            – Eu dei uma ordem! Não pedi sua opinião!

            – Sim, Senhora. – responde Alak com a cabeça baixa voltando-se a Brum.

            Sol’al sorri ao ver a cena.

            – Senhora, há um pequeno símbolo embaixo do nome do demônio, provavelmente o símbolo de poder dele. – o mago puxa uma nova conversa tentando melhorar sua imagem.

            A Xorlarrin olha para Sol’al com uma sobrancelha erguida.

            – É o mesmo símbolo do amuleto da humana que encontramos lá em cima, fora da cabana. – complementa ele.

            – Àquela gorda da qual você ficou coletando sebo? – pergunta de forma extremamente irônica a clériga com um sorriso no rosto.

            Sol’al, simplesmente abaixa a cabeça e se afasta um pouco – ele sabe o quão vergonhoso pode ser alguns momentos de coleta de componentes materiais para suas magias -, enquanto o mercenário ogro se aproxima do local indicado.

            – Se afastem. – diz o mago em baixo-drow aos seus aliados.

            Todos se juntam próximos à entrada. Quando Brum para lá perto observado os dois lados do muro, Sol’al vê de canto de olho Alak sacar um de seus punhais e arremessar rapidamente em direção a clériga. O mago não consegue ser rápido o suficiente para parar o eremita, mas assim que escuta a clériga resmungando, percebe que o alvo do mercenário era outro.

            – Quem é ela? – pergunta Alak a clériga enquanto de trás dela uma pequena drow sai com seu braço machucado pela adaga.

            A clériga simplesmente olha a drow com desdém e dá um leve tapa na própria testa em sinal de decepção. O guerreiro Xorlarrin sorri e responde a Alak:

            – Suporte.

            Alak olha desconfiado para ele, mas ignora o fato e volta sua atenção a Brum. Sol’al acha tudo aquilo estranhamente ridículo. “Suporte?”, se pergunta Sol’al vendo que Alak faz um sinal para Brum, como se esfaqueasse o próprio peito, enquanto esse olha para trás esperando a ordem para ultrapassar a linha. Brum sorri.

            Sol’al compreende levemente a suspeita dos mercenários e olhando para a expressão da clériga e da pequena drow percebe que eles podem estar certos. “Uma pequena assassina. O ogro será sacrificado no instante que passar pela armadilha, faltaria apenas o outro mercenário. Ou não…”, esse pensamento preocupa o mago, que pensa em utilizar uma das magias de comunicação para falar com os superiores de sua Casa. “Está deixando o medo tomar conta?”, se pergunta Sol’al como uma forma de espantar o pensamento covarde.

            Nesse instante a clériga ordena para que Alak dê o sinal ao seu companheiro. Brum, com uma distância considerável do grupo, dá um passo à frente e ultrapassa a linha. Em um piscar de olhos uma grande explosão de fogo ocorre, mas essa não afeta de forma alguma a estrutura do túnel. Simplesmente espalha uma cortina de chamas em uma área de cinco metros tendo Brum como centro. Todos os drows fecham seus olhos graças a grande claridade gerada. Sol’al sorri, pois estava certa a sua teoria, além do insolente ter provavelmente morrido ou ficado altamente ferido no processo, já que ele é um ogro mago, e esses são sensíveis ao fogo.

            Aos poucos a visão volta ao normal e eles percebem que a claridade se desfez. Nada se incendiou. “Maldição”, pragueja o mago enquanto olha para a direção da armadilha. Para sua surpresa Brum está inteiro e sem nem uma única queimadura leve. Sol’al engole a seco e volta sua atenção para o resto do grupo. A clériga e o guerreiro estão com uma mistura de raiva e decepção em seus rostos, a nova drow está surpresa, enquanto Alak apenas sorri.

            – Por isso ele não usa equipamentos mágicos? – pergunta Sol’al ao eremita.

            – Sim. – responde Alak rindo – Brum nunca foi o forte da magia. Ou seria o contrário?

            Sol’al engole a seco e tenta ignorar o deboche de Alak.

Rabiscos – Immortuos – Nekrosis (Estudo 3)

Rabiscos - Immortuos - Nekrosis (Estudo 3) - Esferográfica vermelha sobre papel

Como disse, as inspirações iniciais vieram da obra Hellraizer, de Clive Baker, entretanto, não exatamente a parte sado-masoquista.

Rabiscos – Immortuos – Nekrosis (Estudo 2)

Rabiscos - Immortuos - Nekrosis (Estudos 2) - Esferográfica vermelha sobre papel - 2012

As inspirações iniciais para o personagem Nekrosis vieram de Clive Baker, para ser mais específico, de Hellraizer. Aqui está a mão do personagem, mas no próximo post acho que essa influência ficará mais clara.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (Parte 4)

Aquilo parece um formigueiro. Gnolls, hobgoblins, goblins, kobolds, um ou dois trolls que se destacam na multidão, todos se digladiando mutuamente enquanto Stongest e Gromsh assistem à distância.

Não demora muito para as patrulhas drows que se encontram no Braeryn chegarem até lá e perceberem que aquilo não era nada além de uma “briga de bar”. Não foi difícil para Gromsh causar uma confusão no Braeryn. Os nervos dos moradores do bairro ainda estão a flor da pele. Além do mais, nada como esbarrar, xingar e empurrar as pessoas certas. Confrontos entre raças diferentes sempre resultam em uma explosão frenética de fúria, principalmente quando essas raças são pré-dispostas a participar de uma luta.

Ao leste Stongest escuta o som de pedras sendo destruídas e fica contente ao ver que as patrulhas não perceberam, ou não deram importância, àquele som. Após a insurreição a população de escravos em Menzoberranzan diminuiu um tanto e como o cerco dos duergars parece estar apertando, não é hora de deixá-los se matarem em brigas de ruas estúpidas.

– Vamos embo’a G’omsh. Acho que eles já esta’ão ocupados po’ um bom tempo. – diz Stongest ao seu irmão de culto.

– Tá certo. Vambora discançá que vai demorá umas horas pra eles se preocuparem com o bairro dos orcs, né? – comenta Gromsh recebendo apenas um aceno de cabeça positivo do meio-goblin.

Deixando a balburdia para trás, ambos partem para se encontrarem com os companheiros de culto.

Rabiscos – Immortuos – Nekrosis (Estudo 1)

Rabiscos - Immortuos - Nekrosis 1 - Esferográfica vermelha sobre papel - 2012

Nekrosis é um novo personagem que aparecerá no segundo livro Immortuos: Necropolitan. Tudo que é possível falar sobre ele no momento é que será, aparentemente, um Sapien Immortuos misterioso e cruel – tanto para os vivos quanto para os mortos vivos – que terá um grande poder sobre o território que um dia foi São Paulo.

Rabiscos – Immortuos – Infecta

Rabiscos - Immortuos - Infecta - Estudo 1 - 2012

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (parte 3)

As vielas dos orcs no Braeryn não é um dos lugares mais agradáveis para se estar ultimamente. Aparentemente um dos poucos focos da insurreição dos escravos se estabeleceu por lá. Algo sinistro parece estar ocorrendo, mas nada evidente. Pelo que Alak Sel’Xarann percebeu, as patrulhas drows evitam aquele lugar, não por medo, mas porque eles têm muito mais o que ganhar agindo dessa maneira, afinal, honestidade nunca foi o forte dos drows e quando surge alguma oportunidade para conseguirem ganhos, não há porque perder a oportunidade.

Desde que chegaram naquele local, o grupo da Xorlarrin está caminhando atento e cuidadosamente. Nenhum orc foi visto até o momento e pelo que o mercenário drow já percebeu e indicou através de sinais toscos – que nada se assemelham a linguagem de sinais de sua raça – ao seu companheiro ogro mago, eles estão sendo vigiados. Ambos caminham na frente, como que para chamar atenção, algo não muito difícil para um imenso ogro e um drow bem maior que a estatura normal da sua raça.

– Alak, estou ouvindo várias pegadas e ruidos subindo as barracas e não são orcs. – sussurra Brum sem desviar seu olhar do caminho que está a sua frente.

– Provavelmente alguns mercenários ou escravos dos orcs. Devem estar subindo nos telhados para nos cercarem com dardos e bestas. – sussurra em resposta o mercenário eremita, também sem fazer menção de que está preocupado com o que ocorre ao seu redor.

Ambos continuam caminhando sem saber o que está ocorrendo com o grupo atrás deles. “Eles continuam nos seguindo”, pensa Alak escutando o tilintar da armadura da clériga, “Espero apenas que não durmam no ponto”. O eremita mantém três adagas de arremesso preparadas em cada mão, enquanto Brum carrega suas clavas de pedra, preparado para entrar em combate a qualquer momento.

– O problema é que não sabemos nem para onde ir. – comenta o ogro sussurrando.

– Apenas temos que encontrar algum orc. – responde Alak também em sussurros quando um assovio corta o ar.

Uma pequena flecha de besta atinge o ombro de Brum, mas nem mesmo consegue penetrar sua pele grossa.

– Acho que os diabinhos resolveram mostrar suas caras. – diz Brum olhando para a direção de onde veio a flecha e encontrando um pequeno goblin preparando a besta novamente.

Alak vira rapidamente para o lado oposto de Brum, a fim de analisar a situação na qual eles se encontram. Seu grupo realmente está logo atrás. O mago está com uma adaga de arremesso preparada em sua mão direita, enquanto o guerreiro Xorlarrin está caminhando em posição defensiva ao seu lado, empunhando uma espada curta, já a clériga está posicionada na frente deles com sua maça e seu escudo médio, caminhando entre as duas divisões. Porém, nenhum deles pareceu ter percebido o ataque contra Brum. Após a rápida olhada em seu grupo o mercenário drow enxerga alguns outros goblins posicionados em telhados, preparando suas zarabatanas e bestas.

Sem perder tempo, o eremita arremessa suas adagas da mão esquerda em direção a dois goblins que estão no mesmo telhado, ao mesmo tempo em que escuta o mago Teken’Th’Tlar dar um aviso ao grupo de trás a respeito dos atiradores. Duas das adagas do mercenário atingem em cheio o pescoço de um dos goblins que cai do telhado aparentemente morto, enquanto a última adaga erra por pouco o segundo alvo.

– Brum! – grita o mercenário chamando a atenção do ogro quando vê que mais goblins estão surgindo em cima das barracas próximas.

O ogro vira seu rosto em direção de Alak que apenas faz o sinal de um círculo e finaliza com um “estouro” de dedos. Brum entendendo logo de imediato segura as compridas correntes de suas grandes clavas de pedra e prepara o corpo para impulsionar um giro.

– Todos abaixem!! – grita Alak pulando ao chão.

A clériga Xorlarrin olha para o mercenário com uma expressão de assombro e raiva, mas não perde tempo em mergulhar. Alak vê atrás da clériga o mago e o guerreiro fazendo o mesmo.

– Mercenário estúpido! – grita a clériga no dialeto drow em meio aos estouros das clavas de Brum atingindo as barracas, feitas de barro e pedra, e as demolindo.

Alak ri consigo mesmo e se vira para ver o estrago causado por seu companheiro ogro. Brum está terminando o segundo giro e parando. Ele balança a cabeça como se quisesse espantar a tontura e olha ao redor para tentar encontrar os goblins atiradores. No meio da fumaça de pó de argila, Alak vê alguns pequenos vultos se levantando e batendo e retirada.

– Boa, Brum. – comenta o eremita levantando-se já com uma de suas espadas em mãos.

– Não há como não ser. – responde Brum com um sorriso no rosto.

– Mercenário! Precisamos de um desses goblins para interrogatório! – grita o mago que está se levantando e limpando suas vestes.

– Faça isso! – grita a clériga em baixo-drow, concordando com o Teken’Th’Tlar.

Alak corre até um goblin perceptivelmente ferido que não conseguiu bater em retirada. O pega pelo cangote e leva até o grupo. O goblin treme desesperado na mão do drow, deixando um rastro de urina pelo caminho.

– Interrogue esse inferior imediatamente e descubra onde estão os orcs! – ordena a clériga em baixo-drow.

Alak a olha rapidamente com uma de suas sobrancelhas levantadas.

– Sim, Senhora. – Alak volta-se em direção ao pequeno goblin que continua tremendo convulsivamente de medo – Onde estão os orcs?

O goblin tenta falar, mas nada sai de sua garganta.

– Ela disse a palavra, não é? – interompe Brum.

– Agora não Brum. – corta Alak, voltando sua atenção novamente ao goblin seca e pausadamente – Responda… onde… estão… os… orcs?

A respiração do pequeno goblin acelera cada vez mais. Esse tenta responder novamente, mas as palavras não saem de sua boca de forma inteligível. Quando algum som semelhante a um “nã” está para sair da boca do goblin, a cabeça desse estoura espalhando pedaços e sangue aos pés dos mercenários que estavam próximos.

– Esse merdinha não ia ajudar em nada. Vamos embora. – diz a clériga Xorlarrin em baixo-drow, limpando sua maça suja com o sangue da criatura.

– Ela falou a palavra de novo, não foi? – pergunta Brum a Alak encarando a clériga.

– Não Brum. Pare com isso. – responde Alak ao seu companheiro.

A Xorlarrin encara o ogro de volta.

– Seu amigo está com algum problema? – a clériga pergunta para Alak ainda em baixo-drow.

– Não Senhora. – responde o eremita na mesma linguagem, logo voltando-se para o ogro em subterrâneo comum – Brum vamos andando.

Brum dá um passo a frente em direção a clériga que se afasta, mas logo se vira de costas e começa a procurar por orcs rindo da reação assustada da clériga.

– Quer que eu ensine alguma lição a ele, Senhora? – pergunta o mago à clériga.

– Não. Ele vai ser útil mais para frente. – responde secamente a clériga.

Alak apenas escuta a breve conversa dos dois e caminha para junto de seu companheiro quando ouve o guerreiro Xorlarrin mais à frente chamando a atenção do grupo.

“Encontrei alguns rastros”, diz ao grupo na linguagem de sinal drow, próximo a algumas barracas não atingidas pelas clavas de Brum.

Alak conhece pouco a linguagem de sinal, mas prefere fingir não conhecê-la e faz de desentendido. Quando a clériga e o mago ultrapassam ele e seu parceiro indo ao encontro do Xorlarrin, eles resolvem seguí-los. O guerreiro está observando algumas marcas no chão, que o eremita reconhece claramente como pegadas de orcs que adentraram aquela barraca.

– Ótimo, já sabemos por onde começar. – diz a clériga em baixo-drow com um sorriso no rosto – Mercenário, abra a porta.

Alak olha para a clériga, inclina levemente a cabeça e responde também em baixo drow:

– Sim, Senhora.

Armadilhas nunca foram o forte do eremita, muito menos em um contexto urbano. Mesmo assim ele prefere gastar um tempo observando a porta em busca de alguma possível ameaça. “Isso não está me cheirando bem”, comenta consigo quando a alguns metros um cântico profano é escutado. Alak para de analisar a porta e se vira para a direção da voz feminina que entoa aquelas silabas distorcidas.

Percebendo que todos do grupo foram pegos de surpresa, o eremita prepara suas duas espadas e tenta focar sua visão em uma figura larga e tremeluzente à pelo menos quinze metros de distância. Analisando o efeuito tremeluzente, Alak percebe que aquilo é causado por uma espécie de aura de calor e que aquele ser nada mais é que uma humana gorda e nua. Ao seu lado ele escuta o mago Teken’Th’Tlar recitando algumas palavras arcanas e vê o guerreiro Xorlarrin correndo em direção a humana.

– Brum, abra a porta enquanto eu os ajudo a enfrentar essa mulher. – diz Alak correndo também em direção da humana.

– Você demorou tudo isso só para abrir uma porta? – Brum ri e dá um forte murro, abrindo a passagem para dentro da barraca.

Alak ignora as risadas do seu companheiro e vê com uma certa distância, do seu lado esquerdo, uma esfera flamejante rolando pelo chão, deixando uma trilha de chamas, indo em direção da mulher que prossegue com seus cânticos. “Parece que o mago está mostrando porquê veio”, comenta mentalmente enquanto prepara para saltar em direção da mulher e arremessar uma de suas espadas.

Quando o momento se aproxima a bola ultrapassa o eremita e o guerreiro Xorlarrin e atinge seu alvo. Uma pequena explosão ocorre, tanto Alak quanto o Xorlarrin conseguem se esquivar de qualquer resíduo, mas assim que olham na direção da humana vêem que nada ocorreu a ela e que o cântico nem mesmo parou.

– Ela possui proteção mágica. – diz o Xorlarrin a Alak no dialeto drow – Atraia a atenção dela que a atacarei por trás.

– Fácil. – responde Alak pegando impulso para saltar e rolar pelo chão na frente da humana.

O salto sai perfeito. Com o próprio deslocamento de seu corpo, Alak rola pelo chão parando agachado em frente a sua adversária e arremessando uma de suas espadas, que acaba sendo desviada por algum vento quente que a circunda. Mesmo assim, a lâmina da espada passa de raspão pelo ombro da humana e abre um profundo corte, mas isso não é o suficiente para tirar-lhe a concentração. “Merda!”, pragueja mentalmente o eremita enquanto um círculo de fogo se levanta ao redor da clériga.

– Brum! Arremessa uma clava! – grita Alak vendo a adaga que parece ser do mago atingindo também de raspão a mulher gorda.

Atrás do círculo o eremita vê o guerreiro caminhando em uma posição estratégica que lhe permitiria atingi-la com um golpe fatal, porém sem conseguir se aproximar. A humana realmente não conseguiu perceber sua aproximação, mas o que ocorre ao seu redor não parece preocupá-la. Ela já havia iniciado outro cântico. Sua voz alcança uma potência preocupante e um brilho flamejante é disparado de sua mão ao mesmo tempo em que uma tora de pedra atinge em cheio a mulher que é arremessada para fora de seu próprio círculo.

Alak consegue se esquivar por pouco do raio flamejante disparado contra ele. Parte de sua armadura de couro batido é queimada no processo, mas sem perder tempo ele se desfaz dela e salta em direção à conjuradora, cravando sua espada em seu peito assim que pousa no chão. Ela ainda tenta segurar o pescoço do eremita, mas logo a espada curta do guerreiro Xorlarrin rasga-lhe a garganta.

O eremita percebe que ela, além de estar nua, é extremamente imunda, cheia de sebo, terra, excrementos. Sentindo nojo ele arranca a espada de seu peito e se afasta. O Xorlarrin também sente nojo e dá um passo para trás.

– Vou pegar minhas armas. – diz Alak como se já tivesse feito seu serviço e se afastando para recuperar sua outra espada e seus punhais arremessáveis.

Enquanto se afasta da humana o mago e a clériga se aproximam, e passam a observar o corpo.

– Ela é uma clériga. – comenta o mago.

– Sim, eu já sabia. – responde a Xolarrin secamente – Mas quem ela venera é que me intriga.

“Se sabia por que não avisou antes, sua puta”, comenta mentalmente Alak sentindo sua raiva ferver.

– Tem uma corrente passando pelo pescoço dela, Senhora. – comenta o mago.

Alak se vira em direção à conversa enquanto pega sua outra espada e vê o guerreiro Xorlarrin arrancando uma corrente com um pequeno pingente e entregando para sua senhora. O rosto da clériga se distorce em fúria, mas ela nada diz, apenas o guarda e faz alguns sinais quase imperceptíveis para seu guerreiro.

– O que seria isso, minha Senhora? – pergunta o mago à clériga.

– Silêncio, macho. Quando eu quiser falar com você assim o farei. – responde rudemente a clériga Xorlarrin partindo junto ao guerreiro para a cabana que Brum havia derrubado a porta.

“Guarde seus segredos enquanto pode clériga”, comenta consigo Alak vendo o rosto contrariado do mago Teken’Th’Tlar por ter acabado de perceber que sua subida na hierarquia de confiança da Xorlarrin havia sido ilusória. Alak apenas sorri e volta a procurar suas adagas.

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