A Casa da Estrada Desconhecida – parte 2

Ela me recebeu bem. Mesmo quando disse que estava atrás de Carlos, ela não alterou seu comportamento, na verdade, estava tão confusa quanto eu e preocupada com sua amiga. Disse ela que Dona Lúcia tinha ido para Campos do Jordão atrás do filho e que algo aconteceu lá, pois sua visinha ligou desesperada pedindo para que a fosse buscar, pois não estava em condições de dirigir e nem mesmo de pegar um ônibus.

O desespero na voz de Dona Lúcia a assustou, o que levou-lhe a não perder tempo e dirigir rapidamente até a elegante cidade montanhosa. Chegando lá, o susto foi ainda maior, a aparência da mãe de Carlos estava péssima. Ela tinha envelhecido alguns anos em menos de 48 horas e seu olhar beirava a insanidade.

Andréia perguntou o que aconteceu, mas Lúcia nada respondeu. Foi apenas quando ela disse que iria até a casa de Carlos saber o que havia ocorrido, é que a mãe de nosso amigo quase surtou, tirando da bolsa um papel com o endereço e picando-o. Andréia tentou impedir, mas tudo que conseguiu foi fazê-la deixar o papel picado cair no chão do seu carro.

Sabendo disso, perguntei-lhe se ainda tinha como pegar os pedaços de papel no qual constava o endereço. Ela disse que sim, já que não tinha tido tempo de limpar o carro desde a viagem, que ocorreu um dia antes de Lúcia ter tido o derrame. Assim, vasculhamos o carro dela atrás de todos os pedaços e encontramos a maioria, o suficiente para descobrir as principais informações sobre o endereço.

Antes de ir embora para juntar os pedaços do papel, perguntei o que mais ela sabia sobre Carlos, antes do incidente. Andréia respondeu que sempre teve muita dó de Lúcia, por viver em solidão, já a maioria dos seus filhos e seu marido haviam falecido, e que Carlos era alguém “indiferente”, bem “distante e frio”. Ele não se comunicava com a mãe desde que foi embora morar com Juliana, quem dona Lúcia culpava pelo “sumiço” do filho.

Há alguns meses atrás, dona Lúcia havia recebido uma ligação de seu filho. Ele estava desesperado e inconsolável. Andréia não soube me responder o motivo disso, mas disse que foi essa a razão pela qual a mãe de nosso amigo procurou onde ele estava morando e foi visitá-lo. Pelo que a vizinha sabia, Lúcia pegou o endereço com o agente imobiliário de seu filho, que ela só conseguiu encontrar quase seis meses após o ínicio de suas investigações.

Agradeci Andréia pelas informações e parti. Em casa, mesmo incomodado com toda essa história sinistra, juntei os pedaços de papeis e consegui ler “Estrada Desconhecida, 2,5k… da ent… ada do Pico do Itape…”, e acabei fazendo minhas deduções sobre o pouco de informações que faltava.

Cheguei a conclusão de que a suposta moradia dele ficava em uma “estrada desconhecida” com acesso pela “Estrada do Pico do Itapeva”, a aproximadamente 2,5 km após entrar na estrada. Pesquisei na internet onde poderia ficar o lugar. Tudo estava muito misterioso e foi inevitável que eu começasse a ter calafrios e a me sentir em uma história de terror. Optei então por não dar vasão a esse tipo de pensamento, e voltei a tentar imaginar que Carlos e Juliana estavam vivendo bem em alguma mansão nas montanhas e que, o problema com a Dona Lúcia, não fora causado por eles, mas sim, pelo histórico familiar de insanidade presente nos genes da mãe de nosso amigo. Mal sabia que, era exatamente nesse momento, que eu estava realmente me enganando.

O fato, é que eu estava em uma história de terror.

Pela internet fiz um mapa de como chegar ao local. Por sorte, estamos fora de temporada em Campos do Jordão, o que facilitou para que eu achasse uma pousada mais em conta para pagar pelos quatro dias que pretendia ficar lá. De acordo com o mapa, dessa pousada até o a “estrada desconhecida” – que também era a forma que aparecia na internet – a distância era de 3,5 km, o que me pareceu bem satisfatório, e por isso, foi lá que me hospedei.

 Cheguei no início da noite na cidade e parei para tomar um café, enquanto pensava como abordaria Carlos e Juliana após tanto tempo sem vê-los. Refleti se era necessário falar sobre a mãe dele, e se isso seria positivo para a minha aproximação. Antes mesmo de terminar o café, já tinha chego a conclusão de que o assunto “Dona Lúcia” não seria nem um pouco positivo, então me dirigi a pousada decidido que no dia seguinte, logo de manhã, iria atrás do casal apenas para saber como estavam e analisar se o amor deles realmente perdurava.

Mesmo já envolvido em toda a trama macabra que se descortinava, não podia perder o foco da minha busca. Afinal de contas, não estava atrás de Carlos e Juliana com o intuito de ajudá-los a resolver suas questões familiares, mas sim, para tentar compreender ainda mais o assunto de nossos atuais debates. Para tentar analisar mais, o que seria o tal amor virtude e aquilo que nós e nossa sociedade concebe como amor. Seriam esses dois conceitos a mesma coisa? Quais seriam as diferenças? Haveria alguma semelhança?

Chegando na pousada, fui para o meu quarto, pedi uma pizza e tomei um banho enquanto a esperava. Assisti um pouco de tv enquanto comia apressadamente, sem perceber. Comi cinco pedaços, por pura gula, ou ansiedade. Não sabia o que estava me esperando, mas algo em mim dizia que não seria bom, mesmo tentando me convencer do contrário.

Tentei dormir cedo, mas não consegui. Realmente estava ansioso. Rolei de um lado para o outro da cama, sem entender exatamente o porquê de tudo aquilo. Cochilei algumas vezes, mas os sonhos agitados me faziam acordar. Cheguei a questionar se valia a pena me envolver tanto nessa história. Se por causa do interesse pelo entendimento do que vem a ser o amor filosófico, fazia sentido ir atrás de um casal que, no máximo, poderia apenas corroborar na consolidação da crença comum desse sentimento: o amor entre duas pessoas, aquele amor que um casal constrói, que por algum motivo, parece desassociado do amor fraternal e do amor pelo próximo. Porém, mesmo diferentes, a mesma palavra é usada. A mesma palavra que designa um forte desejo por ter alguém específico do seu lado, é usada para designar um estado de loucura onde um namorado mata o outro, e ao mesmo tempo, é usada em um sentido de puro altruísmo entre os seres.

Agora sei a resposta, mas no dia não. Entretanto, percebi que minhas justificativas para desistir, eram na verdade o medo que sentia pelo desconhecido. Por todo aquele mistério que rondava nossos velhos amigos.

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